Frieza, grosseria e antipatia são alguns dos estereótipos atribuídos aos curitibanos. O motivo dessa fama possui raízes históricas que moldaram a personalidade da cidade.

Jardim Botânico, principal cartão postal de Curitiba. Foto: Valentina Copack. 

Curitiba celebra 333 anos de história em 2026 e durante todos esses anos, a personalidade fechada dos curitibanos é algo que chama a atenção principalmente para pessoas de fora da cidade. Mesmo que esse estereótipo não represente o todo, a imigrações de europeus no século XIX e a tentativa de manter a cidade como um pedaço da Europa no Brasil ajudam a entender o motivo do comportamento tão reservado dos cidadãos.

A imigração europeia e o apagamento da memória

A capital paranaense, antes chamada de Vila Nossa Senhora dos Pinhais de Curitiba, era povoada principalmente por indígenas, portugueses e espanhóis até o século XVIII. Depois da criação da Província do Paraná, a cidade foi escolhida para ser a capital e foi renomeada como o nome atual, Curitiba. A partir desse momento, a cidade começou a passar por mudanças mais radicais na estrutura social. Começaram os esforços para colonizar a cidade com imigrantes europeus, que vieram principalmente da Itália, Alemanha, Polônia e Ucrânia.

Entretanto, Curitiba não foi formada apenas por europeus. A população indígena e imigrantes oriundos da Ásia, como japoneses e libaneses também participaram ativamente da construção e desenvolvimento da cidade. Também vale ressaltar a presença da identidade negra na capital paranaense. De acordo com o portal “Turistória”, na década de 1870 a população negra representava mais de 20% do total de moradores de Curitiba, mas essa presença sofreu uma tentativa de apagamento para reafirmar a falsa noção de “cidade europeia” que a Curitiba buscava.

A partir do século XX iniciaram as tentativas de transformar Curitiba em um pedaço da Europa no Brasil, e para isso, foi iniciado o processo de urbanização que se inspirava no modelo europeu. Esse plano desconsiderou as demais culturas e influências na cidade para protagonizar a presença europeia, como afirma a doutora em antropologia, Tiemi Costa:

“existe esse estereótipo de uma Curitiba branca mas na verdade ao mesmo tempo existe um apagamento da presença negra e indígena na cidade.” 

O comportamento europeu como modelo de cidade 

Foi esse processo de urbanização que moldou a dinâmica da cidade com o intuito de ser reservada à produtividade e ao trabalho, o que limitava a presença de espaços públicos onde a população de  diferentes locais da cidade pudessem se reunir para interagir. Essa organização metódica foi fundamental para a reclusão dos moradores em seus locais de moradia e trabalho, dificultando a integração social. 

O planejamento urbano e a sustentação das tradições europeias que remetem ao comportamento reservado contribuíram para que os moradores da cidade agissem de maneira mais reclusa. Toda essa frieza visava alcançar um modelo de cidade europeia, que acabou por distanciar Curitiba do restante do país. 

 Atualmente, esse comportamento reservado ainda permanece em muitos moradores, mas além da origem histórica, a frieza do curitibano esconde preconceitos enraizados desde o período colonial. De acordo com Tiemi, esse comportamento serve como uma “cortina de fumaça”, que exclui grupos sociais, evitando a interação entre a população. 

Mesmo com essa frieza presente em alguns moradores, hoje Curitiba é formada por muitos grupos étnicos diferentes, para além dos que participaram da formação da cidade. Essa presença de outras culturas somado ao resgate das histórias apagadas no século XX tendem a reduzir cada vez mais o estereótipo antipático do curitibano. 

Confira abaixo a audioreportagem completa sobre o assunto.

Reportagem de Valentina Copack e Loize Antoniacomi