Com 9% do PIB Nacional, o setor de varejo alimentar se redesenha com o crescimento exponencial das grandes redes de supermercados. Só em Curitiba existem mais de 73 filiais de três grandes bandeiras. Entretanto, o crescimento intenso pode representar uma ameaça aos pequenos negócios e à produção local. 

Katia Sato, uma das donas do mercado familiar Micê Sato, localizado no centro da capital, conta que o empreendimento de mais de 50 anos percebeu uma diferença nos lucros após a chegada em massa das grandes redes de mercado: “Sentimos bastante devido à uma certa queda de atendimento, mas a gente tenta se reinventar, atrair os clientes de alguma outra forma mais diferenciada”, relata. 

Mercado de bairro instalado há 50 anos no centro da cidade. Foto: Ana Clara Osinski
Mercado de bairro instalado há 50 anos no centro da cidade. Foto: Ana Clara Osinski

Sem possibilidade de competir com os preços dos atacarejos, que compram e estocam os produtos em larga escala, o Micê Sato busca fidelizar os clientes oferecendo maior qualidade dos produtos, advindos de produtores locais do Paraná. ‘’Temos muito feedback dos clientes, eles percebem que os nossos produtos têm uma qualidade melhor que nos supermercados. Trazemos todos os dias do Ceasa, procuramos trazer produtos mais frescos”, completa Katia.

A realidade enfrentada pelos pequenos comerciantes reflete um fenômeno muito maior. Apenas nos últimos seis anos, Curitiba recebeu aproximadamente 30 novas filiais das principais redes de supermercados. O dado é resultado de um levantamento realizado pela repórter do Jornal Comunicação, Ana Clara Osinski. 

A apuração mapeou a expansão de quatro grandes redes: três delas selecionadas com base no ranking de maior faturamento da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), além de uma quarta marca incluída por seu alto número de unidades na cidade. Tendo como base os endereços listados nos portais dessas empresas, foi possível recriar a linha do tempo de inauguração de cada unidade usando o acervo histórico de imagens do Google Street View.

Questionada sobre os processos de crescimento de grandes redes na região, a assessoria de imprensa da Associação Paranaense de Supermercados (APRAS), que também presta serviços para uma das maiores redes de supermercados de Curitiba, optou por não responder a uma entrevista, afirmando apenas que atende a todos os empreendimentos – sejam eles pequenos, médios ou grandes–  de forma igualitária.

Impactos econômicos

De acordo com a economista Cintia de Souza Netto, o crescimento acelerado caracteriza-se como um sistema de oligopólio –  formado pela presença de um pequeno número de empresas que dominam a oferta de um determinado produto ou serviço. Para ela, o fenômeno possui um efeito duplo sobre a economia: “O pior efeito é sobre a concorrência dos mercados menores. Esses mercadinhos de bairro tendem a sofrer o impacto desses grandes grupos. Já para o consumidor não é tão ruim, uma vez que as redes têm a possibilidade de maior descontos e diversidade de produtos”, explica. 

Além do impacto nos empreendimentos locais, esse aumento produz grande movimento econômico seguido de geração de emprego. De acordo com um levantamento feito pela Abras no Paraná em 2025, as três maiores redes do estado movimentaram R$20,3 bilhões, R$2,9 bilhões e R$1,69 bilhão, respectivamente.

Já a nível nacional, em 2025, os 10 maiores mercados do país concentram cerca de 30% do faturamento total de R$1.145,1 trilhão de reais – considerando formatos como atacarejos, supermercados tradicionais, minimercados, e-commerce e lojas de conveniência.

Esse montante, entretanto, não permanece na economia local. De acordo com o acionista de investimentos Guilherme Matheus Monteiro, após o pagamento da cadeia de fornecedores, que consome mais da metade do faturamento, o lucro é distribuído entre acionistas e sócios que, ao embolsarem quantias milionárias ou bilionárias, raramente mantêm esse dinheiro na região. Na realidade, grande parte dessa riqueza concentrada no topo da estrutura empresarial é direcionada para fora do Brasil por meio de manobras financeiras e contas offshore, uma estratégia comum entre grandes investidores e pessoas físicas de alta renda para reduzir o pagamento de impostos.

Monteiro explica, que, na prática, o que de fato gira e sustenta a economia curitibana é o dinheiro destinado à base da pirâmide: os salários dos funcionários. Trabalhadores como caixas e estoquistas, que frequentemente enfrentam jornadas exaustivas de 6×1 com remunerações mínimas, gastam  seus rendimentos na própria região, girando a economia local. “Em geral, a movimentação causada pelas grandes redes acontece de forma microeconômica e não macroeconômica”, conclui.

O jornalista investigativo João Peres, coautor do livro “Donos do Mercado: Como os Grandes Supermercados Exploram Trabalhadores, Fornecedores e a Sociedade”, resume o padrão do setor para o aproveitamento dos lucros: “Essas redes vão ter engenharias financeiras que permitem tirar da economia local a maior quanidade possível de recursos”.

Para além do lucro 

Apesar do aparente lucro para as cidades, a mudança do setor alimentício vai além da economia e pode afetar a saúde e o giro da produção local. Para Peres, a promessa de variedade nas grandes superfícies de venda esconde, na verdade, uma restrição na diversidade alimentar que chega à mesa da população, especialmente quando comparada ao modelo de décadas anteriores.

“Por mais que os supermercados consigam aparentar uma certa diversidade, é fato que ela precisa afunilar. Se fizermos uma comparação com as feiras livres de 20 ou 30 anos atrás, nós tínhamos acesso a alimentos muito mais diversos e produzidos localmente. Hoje, a lógica do grande varejo não comporta essa variedade real de produtos naturais.”

Na prática, a engrenagem das grandes redes afasta o pequeno produtor. Sem estrutura para atender às exigências de volume, logística e padronização do grande varejo, os agricultores familiares não conseguem negociar diretamente com os supermercados. Para que seus produtos cheguem às prateleiras, eles são obrigados a recorrer aos chamados “atravessadores”, o que encarece o processo e desestimula a venda. Como resultado, o alimento agroecológico, cultivado por famílias e focado na diversidade, raramente alcança os principais pontos de venda do país.

Os alimentos ultraprocessados também entram na lógica econômica dos varejos. Uma análise realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2016, intitulada “A Influência dos supermercados na disponibilidade e preço de alimentos ultraprocessados consumidos no Brasil”, mostra que, nos supermercados, os alimentos ultraprocessados chegam a ter um preço relativo até 15% menor do que em outros locais de compra, como mercados de bairro, feiras e padarias.

Para o autor de Donos do Mercado, essa política agressiva de preços também molda o hábito do consumidor para pior: “Essas promoções constantes passam para o consumidor a ideia de que os ultraprocessados são mais baratos, vantajosos e fáceis de serem encontrados”.

Julia Barbosa é estudante universitária e, assim como muitos outros curitibanos, faz as grandes compras do mês nas redes de supermercados. “Na minha opinião, os supermercados maiores costumam ter preços mais baratos do que os mercados de bairro, no geral, deixamos a compra mensal para redes maiores e usamos os mercados próximos de casa para reposições rápidas”, conta.

A estudante diz  já ter notado as mudanças do cenário dos supermercados de Curitiba: “Inclusive, um mercadinho aqui da minha rua foi comprado e está sendo reformado para virar outro mercado, aparentemente maior e melhor estruturado. É algo que eu tenho percebido tanto perto de casa quanto em outras regiões da cidade”, completa.

Como mais um reflexo da expansão de mercado, em março deste ano (2026) foi sancionada a Lei 15.357/2026, que autoriza a instalação de farmácias ou drogarias dentro de supermercados de todo o país. Em resumo, ela dá permissão para o comércio de medicamentos na própria área de vendas dos estabelecimentos, concentrando ainda mais os gastos do consumidor em um único local.

Assista ao vídeo para entender as exigências e os impactos da nova Lei:


Para Peres, essa nova dinâmica de consumo sinaliza um futuro de oligopólio ainda mais intenso. A perspectiva é que as grandes redes continuem ampliando sua fatia de mercado, o que deve aumentar progressivamente a concentração do capital financeiro dessas corporações nos próximos anos.


Ficha Técnica
Texto: Alice dos Passos Lima
Revisão do texto e apresentação do vídeo: Isadora Kovalczuk
Fotos e infográfico: Ana Clara Osinski
Edição do vídeo: Giuliano Carbonari
Apuração: Alana Morzelli
Supervisão: Candida de Oliveira