qui 18 abr 2024
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Análise: Um passeio pela psiquê esquisita de Marie Steuber

Com estreia nacional no Festival de Curitiba, O Tempo e a Sala segue para temporada no Teatro Firjan SESI Centro, no Rio

Uma das primeiras atrações da Mostra Lúcia Camargo no 31° Festival de Curitiba, O Tempo e a Sala é uma peça difícil. O texto é uma adaptação de O Tempo e o Quarto, do dramaturgo alemão Botho Strauss, e não tem compromisso algum com a linearidade. No palco, categorias como presente, passado, o real e a psicose coexistem em caos. Nem a sinopse dá conta. Por outro lado, dado o esclarecimento no segundo ato, o enigma é quase que secundário. A experiência estética é também o prazer de bater os olhos em um espetáculo extremamente bem montado.

A peça gira em torno de Marie Steuber, interpretada pela curitibana Simone Spoladore. Marie é uma mulher fragmentada, em alto grau de sofrimento, que de tanto se adaptar — às salas e aos homens —, conversa com uma pilastra gigante. Aqui, a vilã é a certeza. No entra e sai da sala de estar, fica claro o tesão da peça em deixar perguntas em aberto, o que, às vezes, não sai tão interessante como esperado. Exemplo disso é a cena em que o personagem totalmente desconhecido, interpretado por Adriana Seiffert, invade a sala e grita: “ECTOPLASMA! Eu sou totalmente desconhecido pra vocês?”, ou algo por aí.

Em certa medida, O Tempo e a Sala é um estudo sobre as questões que perturbam a cidade contemporânea, como a despersonalização da mulher e as decorações de natal que se estendem até fevereiro. Uma outra palavra que aparece com frequência nas descrições da peça e que de fato consiste em um objeto de investigação é a indiferença. A indiferença do homem que julga os pedestres pela janela ou da mulher robotizada que está disposta a mostrar seus seios por um emprego, ambas abordadas pela peça.

Com mais personagens do que atores, na direção de Leonardo Daniel, a atuação e a técnica formam um conjunto impecável. É prazeroso escutar a melodia que a porta faz ao se abrir para a introdução de um novo personagem depois do toque da campainha. Visto do balcão do Guairinha, é curioso o grotesco da cena em que a iluminação deforma o corpo de Maureen Miranda, no papel da impaciente, quando ela chora agarrada ao chão. De orçamento escasso, o espetáculo supera a problemática financeira com maestria.

Serviço

Apesar de contar com um elenco recheado de figuras curitibanas, a peça é uma produção carioca e retorna para o Rio de Janeiro para temporada de um mês no Teatro Firjan SESI Centro, às quintas, sextas, sábados, sempre às 19h, e domingos, às 20h, dos dias 13 de abril a 14 de maio. Os ingressos estão disponíveis no Sympla e variam entre R$ 20 e R$ 40.

31° Festival de Curitiba

O Festival de Curitiba, que começou no dia 27 de março e vai até 9 de abril, conta com mais de 350 atrações e cerca de 2 mil artistas. Um dos maiores festivais de artes cênicas da América Latina, tem como lema “O festival para todos” na sua 31° edição. Como espelho das transformações sociais, a curadoria das mostras apresenta programação diversa, com representatividade em temáticas, artistas e públicos. Os ingressos chegam a R$ 80 e são vendidos de forma presencial e on-line. Confira a programação oficial.

Francisco Camolezi
Estudante de jornalismo na UFPR
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