dom 18 jan 2026
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Após 30 anos, qual é o impacto dos Faróis do Saber na formação de leitores em Curitiba?

Inaugurado pela primeira vez em 1994, com a proposta inicial de levar espaços de leitura e pesquisa para as regiões periféricas da cidade, os Faróis do Saber marcaram a memória dos curitibanos. Ao longo dos anos, essas bibliotecas foram ganhando novas atribuições, se tornando uma espécie de “Lan House pública” e até em ambientes de inovação, com impressoras 3D e equipamentos de robótica. Mas depois de 30 anos, será que os Faróis do Saber ainda fazem parte da vida dos curitibanos? 

Curitiba é a capital com o maior número de bibliotecas públicas do Brasil, são 202 unidades para mais de 1,8 milhões de habitantes. Entre essas bibliotecas estão um dos maiores marcos culturais da cidade: os Faróis do Saber. O primeiro farol foi inaugurado na 1ª gestão do ex-prefeito Rafael Greca. Desde então, outros 43 faróis foram abertos, sendo 8 deles em praças públicas, 32 dentro de escolas municipais e três como bibliotecas temáticas. 

A especialista em políticas educacionais, mestre e doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Charlene de Lima, explica que os Faróis foram um marco importantíssimo para o incentivo à leitura entre jovens nos anos 1990, impactando principalmente aqueles que viviam em bairros distantes da região central da cidade, onde fica a Biblioteca Pública do Paraná. Além disso, a especialista analisa que essas bibliotecas também se tornaram cartões postais de Curitiba, se tornando também um ponto turístico. 

Mas, para a pesquisadora, após os anos 2000, o conhecimento geral sobre a funcionalidade dos Faróis do Saber decaiu. Ela relata que, ao produzir a sua dissertação sobre os faróis em 2016, a população frequentava apenas os faróis temáticos, e que mesmo com a estrutura e o acervo adequados, os outros faróis não eram conhecidos pelos moradores: “Assim como acontece com a maioria das políticas de distribuição de livros e de incentivo à leitura, o desconhecimento sobre o uso dos Faróis do Saber infelizmente revela a realidade brasileira de descontinuidade. As pessoas passam pelo Farol do Saber, veem a estrutura, mas a maioria nem sabe o que é, nem que pode acessá-lo”, expôs Lima. 

Com a implementação de outras funcionalidades dentro dos Faróis do Saber pela Prefeitura Municipal de Curitiba (PMC), como o acesso a ferramentas de inovação tecnológica, o objetivo inicial da biblioteca – a formação de novos leitores –, acabou sendo desvirtuado. “A formação do leitor já não ocupa mais o centro da proposta. O projeto traz, sim, avanços inegáveis, mas nenhum deles com impacto direto ou resultado efetivo na formação de leitores, o que acaba por deixar uma lacuna na vocação inicial do Farol do Saber como promotor da leitura e da formação de leitores”, declarou a mestre em educação. 

A queda no número de leitores no Brasil 

Segundo a pesquisa “Cultura nas Capitais”, da empresa de consultoria JLeiva Cultura e Esporte em parceria com o Ministério da Cultura (Minc), de 2024, a leitura é a atividade cultural mais realizada pelos brasileiros. Ainda assim, outros dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, conduzida pelo Instituto Pró-Livro no mesmo ano, apresentaram que o número de leitores decaiu de 52% para 47% da população brasileira – primeira vez em que o número de não leitores (53%) superou o número de leitores. 

Para a professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR, Elisa Dalla-Bona, o Brasil é um país que não forma leitores, especialmente entre as camadas mais baixas da população. Ela explica que a atual utilização do texto literário nas escolas é ultrapassada e que o sistema educacional brasileiro não é eficiente em trabalhar com a mediação de leitura, já que a graduação não prepara os profissionais da educação para isso. 

“Não tem no curso de pedagogia uma disciplina específica para o trabalho de formação do leitor ou de literatura infantil. As mantenedoras [escolas], tanto do poder público quanto das mantenedoras particulares, tem que investir na formação continuada dos professores”, declarou a pesquisadora em educação. 

Com a plataformização do ensino no estado do Paraná, que já gastou mais de 218 milhões em softwares educacionais pouco vantajosos para os estudantes e professores, o cenário se torna ainda mais desestimulante. Na aplicação de plataformas como o Leia Paraná, Dalla-Bona revela que “a suspeita inicial é que pouco se tem contribuído para a formação efetiva do leitor”, já que, rapidamente, surgiram formas de burlar as metas estipuladas para a leitura dos alunos. 

Quanto à modernização dos Faróis do Saber, a pesquisadora afirmou: “Bibliotecas não podem se transformar em centros de computação. As bibliotecas já têm uma finalidade”. A mera existência e adição de ferramentas de inovação tecnológica em espaços como os faróis, segundo a professora, não é o bastante quando o que realmente se precisa é de políticas públicas que invistam na formação inicial e continuada de profissionais mediadores de literatura, que instiguem o desenvolvimento de uma nova geração leitora. 

Elisa Dalla-Bona ainda relembra que Curitiba é uma das cidades referência quando se discute índices de leitura no Brasil, mas que, mesmo assim, ainda há muito caminho a ser trilhado. “Não adianta só ter o espaço. Você tem que ter o acervo e os mediadores de leitura”, defendeu a professora. 

As agentes de leitura 

Nos Faróis do Saber, as práticas de leitura mediada ficam, portanto, a cargo dos servidores, que precisam desenvolver dinâmicas atrativas e integradoras para a comunidade envolta à biblioteca – uma tarefa árdua em meio à quantidade de dispositivos tecnológicos que ocupam o tempo dos jovens e das verbas destinadas pela PMC. 

No Farol do Saber Antonio Machado, no bairro Barreirinha, ao norte de Curitiba, as servidoras públicas Elis Schwanka e Evelize Caliari, que recebem o título de agentes de leitura, dizem que a maior parte dos frequentadores do espaço são crianças. O Farol atende três escolas que ficam nos arredores da biblioteca, e fazem parcerias diárias para as contações de histórias e outras atividades lúdicas voltadas ao mundo literário. 

Mas o farol não recebe apenas os alunos matriculados nas escolas. Alguns moradores da região chegam esporadicamente para acessar os computadores, que ficam no mezanino da biblioteca, e, por vezes, emprestar livros. Caliari, servidora desde os anos iniciais do Farol do Barreirinha, explica que os faróis tiveram o seu auge entre a população nos anos 90, mas que, hoje, a estrutura e o acervo dos faróis são voltados para o público infantil. 

Entre as dinâmicas promovidas pelas agentes de leitura do Farol do Saber Antonio Machado estão: rodas de leitura, comentários expostos nas paredes sobre os livros favoritos das crianças, um diário de bordo de leituras, contações de histórias seguidas de brincadeiras temáticas e uma seleção de acervos especiais, como biografias de personalidades femininas e obras da literatura indígena. Para Schwanka e Caliari, são esses exemplos de dinâmicas interativas que formam crianças apaixonadas pela literatura. 

Como no caso do Farol do Barreirinha, a pesquisadora Charlene de Lima retoma que o investimento dos faróis não deve ser dirigido às novidades tecnológicas da vez, mas aos trabalhadores que aproximam os jovens e outros moradores da região dos faróis ao hábito de ler. “O leitor não nasce do acesso, mas da experiência, do contato direto com o texto. É essencial contar com professores e bibliotecários preparados e disponíveis para conduzir propostas significativas com continuidade, avaliação e monitoramento”, constatou Lima.

Edição: Alice Lima e Vitor Beninni.

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