Controlando a mente e os sentidos

Dois pequenos lances de uma escada estreita levavam até o afetuoso e amplo espaço da sala. No primeiro, a recepção vinha de um sorriso sutil e sereno de lábios cerrados. Era uma larga pintura de Ardhanarishvara, uma divindade indiana que representa a união entre homem e mulher, e segundo o hinduísmo, é o princípio da criação do universo.

Alguns degraus acima, ornava a parede uma imagem de Buda. A nona encarnação de Vishnu, para os hindus, uma das três grandes divindades indianas, que segundo a crença, encarna na terra através de seres humanos ou animais sempre que o planeta sofre com alguma transformação. No mito, Buda assumiu a forma do príncipe Sidharta Gautama e apareceu para purificar o hinduísmo das contaminações e desvios de princípios, o que daria origem ao budismo.

As decorações da sala referem-se às religiões indianas conhecidas pelos ensinamentos do yoga. (Foto: Heloisa Nichele)

Os adornos da sala, harmonicamente dispostos,trazem consigo mitos e crenças que datam milhares de anos e remontam às longínquas terras do oriente. Diferentes povos e religiosidades que disseminaram, através dos anos, ensinamentos que se unem por um exercício em comum: a prática do yoga.

 

Concentração de pensamentos e pacificação da mente

 A palavra yoga vem do sânscrito “yuj” que significa “atrelar, religar, juntar”. Portanto, de acordo com o hinduísmo de onde se originou, yoga significa a união do controle entre corpo e mente através da meditação, prática física e relaxamento, que proporcionam um estado especial para a consciência, atingindo serenidade, quietude e controle do espírito.

Luciana Melara, praticante de yoga há oito meses, já consegue notar a diferença da prática em sua vida. “Aprendi a ser menos ansiosa, a controlar minha respiração e a ter maior flexibilidade. A aula de yoga é o momento no dia em que você relaxa e acalma a mente”, declara.

O espaço amplo relembra os antigos templos orientais usados para meditação. (Foto: Heloisa Nichele)

Para adentrar à sala é necessário retirar os calçados. A amplitude do espaço e o piso de madeira, relembram o interior dos templos japoneses nos filmes de um dos melhores diretores do cinema japonês, Akira Kurosawa. O odor aromatizante logo se adequa às formas do nariz. A luz amarela artificial misturada com o entardecer, ofereciam ao espaço o aconchego necessário para relaxar a mente depois de um dia agitado na cidade grande.

As cinco alunas sentadas na posição de lótus em seus tapetes paralelamente dispostos no chão, voltam-se atentas à voz da professora Jaqueline Marques Corrêa, que dá aulas a mais de dois anos. “Quando comecei a praticar eu gostei demais. Me interessei a ler e estudar a respeito e logo decidi que faria o curso para ser professora de yoga”, relembra  Jaqueline, que antes de encontrar o yoga, atuou um ano na área de química, curso no qual é formada.

 

A arte de coordenar o corpo

Concentração. Os olhos fechados aguçam a audição. Lá fora os carros passam ligeiros, roncando o motor. Mas os pássaros retornavam o foco para dentro da sala – cantavam compassadamente no ritmo do pianíssimo sonoro que embalava o ambiente.

Lentamente, com o corpo em posição vertical, começa a prática. Do lado esquerdo e depois do direito, seguindo os comandos da professora. Um movimento após o outro. Como os passos de uma dança lenta – as vezes dificultada pela falta de experiência e dor nos alongamentos -, mantendo a postura ereta e a leveza nos gestos, a mente inquieta vai refreando e centrando em cada músculo que se manifesta.

Além de trazer benefícios ao corpo, como o fortalecimento e tonificação da musculatura, resistência física e alongamento, a prática do yoga também trabalha a pacificação do espírito. Zaira Célia, começou a praticar yoga aos 30 anos por indicação médica devido às dores no peito e stress do trabalho. Agora com 54 anos, vê os resultados positivos e não pensa em parar. “É uma maravilha, um exercício físico e espiritual, você retorna o corpo à seu estado mais calmo. Me visualizo no futuro sempre fazendo yoga”, declara Zaira.

O último exercício da aula é o relaxamento. As janelas foram fechadas desvinculando quase que por completo o contato com o mundo exterior. O silêncio é enternecedor. O corpo é leve. Aos poucos retornavam à posição de lótus para ouvir o último mantra. Em uníssono proclamavam o “om”, “presente, passado e futuro”. O mundo inteiro em uma sílaba. E a professora abendiçoou dizendo: “Amor, luz e paz”.

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