
Por Beatriz Deschamps e Juliana Levandovski
Considerada uma ferramenta de transparência, a declaração de bens pelos candidatos no período eleitoral também permite que a população conheça o perfil e a realidade socioeconômica de cada um dos concorrentes ao pleito. Na prestação de contas que envolve a disputa pelo governo do Paraná, os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram diferenças amplas entre as oito candidaturas vigentes – indo desde patrimônios milionários até autodeclarações zeradas.
Em levantamento realizado pela equipe de reportagem do Jornal Comunicação, a partir das informações obtidas na plataforma Divulgacand (Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais) do TSE, observa-se que o advogado criminalista Alexandre Salomão (MOBILIZA) concentra o maior patrimônio entre os candidatos da disputa.
Com aproximadamente R$ 28 milhões declarados, Salomão representa cerca de 82% de tudo o que os oito candidatos somam e lidera três das cinco categorias patrimoniais analisadas (imóveis, participações societárias e aplicações). Sem o representante do MOBILIZA, o jogo é mais equilibrado, com uma faixa de valor que varia entre R$ 0 a R$ 1,9 milhão entre os candidatos. O patrimônio zerado se refere ao mecânico Adriano Funileiro (PCO), que declarou não haver nenhum bem em todas as categorias.
Ao analisar por cada tipo de patrimônio – veículos, imóveis, participações societárias, aplicações e consórcios – o advogado Requião Filho (PDT) é o único candidato com valor em consórcios e lidera o ranking de veículos, tendo o patrimônio mais pulverizado em bens físicos.
Por outro lado, a categoria de participações societárias se mostra mais concentrada, visto que somente três concorrentes declararam algo nela: Alexandre Salomão (MOBILIZA), o ex-secretário de Infraestrutura e Logística de Ratinho Júnior, Sandro Alex (PSD), e o atual senador pelo Paraná, Sergio Moro (PL). Os candidatos Luiz França (Missão) e Tayná Miessa (UP) possuem 100% do patrimônio concentrados em uma única categoria: a de imóveis.
Veja na infografia abaixo o levantamento completo dos bens declarados pelos candidatos que disputam o Palácio Iguaçu em 2026:
Patrimônio declarado por tipo de bem
Comparativo entre os 8 candidatos ao governo do Paraná, cruzando os valores declarados em cada categoria patrimonial: veículos e bens móveis, imóveis e terrenos, participações societárias, aplicações financeiras e consórcios.
Entenda como funciona a declaração de patrimônios
A autodeclaração de bens é um dos registros obrigatórios para que uma candidatura política seja efetivada. O candidato deve informar à Justiça Eleitoral os bens que compõem seu patrimônio, como imóveis, veículos, aplicações financeiras, ações e outros.
Segundo a advogada especialista em direito eleitoral, Maitê Chaves, “a declaração estimula o acesso do eleitor às informações, além de ser um parâmetro para verificar o autofinanciamento da campanha”.
No entanto, apesar de dar transparência e publicidade ao patrimônio do candidato, o processo declaratório não possui finalidade fiscal, ou seja, com essas informações a Justiça Eleitoral não pretende fiscalizar a situação tributária do candidato. O processo é feito manualmente pelo sistema Candex – geralmente por algum membro da equipe jurídico da campanha, em que a listagem dos bens se utiliza do próprio imposto de renda do candidato.
“A declaração estimula o acesso do eleitor às informações, além de ser um parâmetro para verificar o autofinanciamento da campanha.”
Maitê Chaves, advogada.
A declaração também pode ser importante para candidatos que utilizam seus próprios recursos para o financiamento da campanha. Pela legislação, o candidato pode usar recursos próprios até 10% do teto de gastos estabelecido para o cargo que disputa. No Paraná, os candidatos ao governo poderão gastar até R$ 11.562.724,00– ou seja, com recursos próprios, poderão gastar até R$ 1.156.272,40.
Salários e outros rendimentos não entram na declaração, já que não constituem patrimônio. Dados que permitam localizar ou identificar os bens do candidato (como endereço ou placa do veículo) não precisam estar incluídos.
Como os bens influenciam na disputa eleitoral?
Uma dúvida comum em torno do patrimônio divulgado pelos candidatos é de que forma essas disparidades influenciam no jogo político do pleito. Especialistas alertam que candidatos com maior bens declarados não necessariamente têm mais chances nas eleições. Bruno Bolognesi é cientista político e professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e destaca que “o capital econômico é importante, mas não responde a todas as questões que tangem uma disputa eleitoral”.
“Não existe uma relação direta entre patrimônio e voto, o que existe é a influência no investimento destinado à campanha eleitoral, em que o patrimônio pode se tornar um facilitador e aumentar a projeção do candidato”, alerta Bruno.
“O capital econômico é importante, mas não responde a todas as questões que tangem uma disputa eleitoral”.
Bruno Bolognesi, cientista político.
Em caso de indícios de irregularidades na declaração, as informações podem ser analisadas pela Justiça Eleitoral e resultar em investigação por falsidade ideológica eleitoral, conforme prevê o Art. 350 da Lei n 4737 do Código Eleitoral, de 15 de julho de 1965:
“Omitir, em documento público ou particular, declaração que dêle devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, para fins eleitorais”.
Metodologia dos dados: Este levantamento utilizou as ferramentas de inteligência artificial Gemini, NotebookLM e Claude. O Gemini foi usado como auxílio na estruturação dos tipos de bens, a fim de não cometer redundâncias nas classificações. A conferência sobre os cálculos dos valores totais declarados pelos candidatos por tipo de patrimônio foi conferida através do NotebookLM. Por fim, para a tabela de ranking comparativo dos candidatos por tipo de patrimônio, a IA Claude cruzou os dados da planilha elaborada pela reportagem. Em questões de recursos humanos, o processo de extração foi conduzido por um membro da equipe. Após o cruzamento, os números foram devidamente revisados.


