sex 10 jul 2026
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Demolir ou preservar? A disputa pelo Patrimônio Histórico de Curitiba

Por trás de tapumes, demolições e novos empreendimentos, o debate entre memória, mercado e legislação redefine a paisagem urbana da capital paranaense

A fachada rosa resiste no cruzamento entre a Avenida do Batel e a Rua Padre Ildefonso. Cercado por ripas de madeira e tapumes, o Edifício Iza Anitta chama atenção não apenas pela cor, mas pelo silêncio que costuma anteceder mudanças irreversíveis. Não há máquinas, nem anúncio oficial de demolição. Assim, para muitos curitibanos, a cena já parece familiar.

Quando um imóvel histórico passa a ser cercado, fechado ou abandonado, a cidade entra em alerta.

A possível demolição do Iza Anitta chamou a atenção de moradores e gerou comoção nas redes sociais nos últimos meses. O edifício, construído na década de 1950 pelo médico Hamilton Asevedo em homenagem à esposa, Iza Anitta, tornou-se referência visual e afetiva no Batel. Com amplas janelas, varandas generosas e o projeto voltado para ventilação natural e iluminação, a construção representa um período de transformação em Curitiba, quando a verticalização ainda dava seus primeiros passos, dividindo espaço com casas e prédios baixos enquanto ícones como o Edifício Avenida e o Edifício Tijucas surgiam no centro.

Apesar da repercussão, a Prefeitura de Curitiba informou que não há pedido nem alvará de demolição emitido para o imóvel. A Consulta Informativa ao Lote aponta ainda que o terreno está inserido em zona ZR4.9 – Incentivo Batel, classificação que permite construções residenciais e comerciais de médio porte. Porém, o caso reacende um debate que ultrapassa a esquina do Batel.

Um padrão que se repete

O Iza Anitta não é um caso isolado. Nos últimos anos, outros imóveis emblemáticos passaram por processos semelhantes de abandono, disputa jurídica ou demolição, como o casarão de Bento Munhoz da Rocha Neto e a Casa Erbo Stenzel. Em comum, esses imóveis ocupam áreas valorizadas e carregam valor histórico, arquitetônico ou afetivo, uma combinação que frequentemente os coloca no centro de disputas entre preservação e mercado imobiliário.

Em 2024, o casarão que foi residência do ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto foi demolido no Centro de Curitiba. Inaugurado em 1940, o imóvel marcou parte da história política e arquitetônica da cidade antes de sediar, nos últimos anos, o escritório Peregrino Neto & Beltrami. Fotos: jornalista Jean-Philip Struck

Casa Erbo Stenzel. Construída em madeira de araucária, esta casa no Parque São Lourenço foi o lar do famoso escultor Erbo Stenzel e funcionou como museu de sua biografia. Marcada pela história da Curitiba antiga, a estrutura infelizmente foi destruída após um incêndio e uma demolição polêmica em 2017, mas permanece viva na memória cultural da cidade. Casa Erbo Stenzel Fontes: Acervo Curitiba Histórica / Revista Haus / Prefeitura de Curitiba

À medida que Curitiba se adensa e o valor do metro quadrado sobe em bairros como Batel, Centro e Alto da Glória, construções antigas passam a representar um paradoxo: são símbolos urbanos importantes, mas também ativos econômicos extremamente cobiçados.

Patrimônio sob negociação

As políticas de preservação patrimonial em Curitiba começaram a ganhar destaque a partir da segunda metade do século XX, acompanhando debates nacionais sobre tombamento e memória urbana. Ainda assim, a proteção nunca ocorreu de maneira homogênea. Boa parte dos imóveis oficialmente protegidos está concentrada no centro histórico, enquanto regiões de forte valorização imobiliária convivem com substituições constantes.

O mapa reúne casas históricas e UIPs espalhadas pela cidade — construções que ajudam a contar como Curitiba cresceu, mudou e preservou parte de sua memória urbana ao longo do tempo.

Para especialistas, isso revela uma lógica seletiva. “O centro em geral coincide muitas vezes com o núcleo histórico inicial, por isso coincide com a área mais simbólica. Que tem essa carga de memória, pertencimento e identidade. Quando você destrói o patrimônio, você está destruindo não só aquela construção física, mas também uma carga simbólica que está associada àquele edifício”, afirma a arquiteta e professora da UFPR, Maria Carolina Maziviero.

Ela chama atenção para outro ponto: o patrimônio preservado historicamente reflete escolhas sociais e políticas. “Agora, tem um outro lado dessa moeda, que é você pensar: será que patrimônio é só o casarão do barão do café? Porque aqui em Curitiba tem um pouco dessa linha. Enquanto que onde é que morava a população trabalhadora? Quais eram os elementos da memória desses outros grupos? Porque esses são apagados.”

A própria lógica institucional reforça essa dimensão simbólica. Segundo o historiador e coordenador  da Escola de Patrimônio da Fundação Cultural de Curitiba, Gabriel Paris, “patrimônio não é sobre passado. É sobre herança e possibilidade de leitura futura da cidade”. A preservação, portanto, não diz respeito apenas ao que existiu, mas ao que a cidade escolhe transmitir para as próximas gerações. Essa escolha, porém, nunca é neutra. “A cidade escolhe aquilo que considera digno de permanecer”, ressalta.

O que permite uma demolição? 

Em Curitiba, a proteção patrimonial é regulamentada principalmente pela Lei Municipal nº 14.794/2016, que dispõe sobre a proteção do patrimônio cultural e criou o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural (CMPC) e o Fundo de Proteção ao Patrimônio Cultural (FUNPAC). Hoje, a capital possui cerca de 678 UIPs (Unidades de Interesse de Preservação) espalhadas pela cidade. “Só em 2016, com a criação do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, Curitiba passou a ter instrumento próprio de tombamento municipal. Antes disso, o tombamento estava vinculado ao Estado ou ao Iphan”, explica o historiador.

A legislação estabelece que bens tombados ou em processo de tombamento devem ser preservados obrigatoriamente. A norma também determina que qualquer intervenção, reforma, restauração ou adequação em imóveis protegidos precisa de autorização prévia da administração municipal. Na prática, isso significa que imóveis já tombados ou formalmente protegidos não podem ser demolidos livremente. 

Ainda assim, disputas jurídicas podem ocorrer quando proprietários argumentam restrição excessiva ao uso do imóvel. Além da legislação patrimonial, outro fator decisivo é o zoneamento urbano. O lote onde está o Iza Anitta integra a zona ZR4.9 – Incentivo Batel, classificação urbanística que permite construções residenciais e comerciais de médio porte. Isso significa que, caso não haja impedimento patrimonial, o terreno possui alto potencial construtivo, um dos principais motores da pressão imobiliária em bairros valorizados. 

Mesmo em áreas de forte valorização imobiliária, como Centro e Batel, Paris afirma que as UIPs conseguem resistir à pressão do mercado graças à legislação e à atuação da CAPC (Câmara Técnica do Patrimônio Cultural Edificado e Paisagem Urbana) e do Conselho Municipal de Patrimônio Cultural. “Nessas regiões, muitos imóveis ainda contam com camadas extras de proteção estadual e federal, como ocorre com o Centro Cívico, a Estação Ferroviária e a Igreja da Ordem”.

Na prática, qualquer alteração em imóveis históricos, ou até em construções vizinhas a eles, precisa passar por análise técnica. “Se você solicitar a demolição de uma casa lateral a uma UIP para construir um novo empreendimento, a CAPC também precisa ser ouvida”, explica o historiador. O objetivo é preservar não apenas o edifício isolado, mas também a leitura urbana e paisagística do entorno.

Segundo Paris, o tombamento ou inventário do Patrimônio Histórico não impedem o uso do imóvel nem novas construções no terreno, desde que as intervenções respeitem os critérios definidos pela legislação. Além da possibilidade de isenção de IPTU, os proprietários também podem acessar benefícios ligados ao potencial construtivo, que varia conforme o zoneamento da área.

Potencial construtivo como facilitador 

A venda do potencial construtivo corresponde à quantidade de área edificável vinculada ao imóvel. Isso significa que o proprietário de uma UIP pode preservar o imóvel histórico e, em troca, ganhar o direito de construir mais área no terreno ou vender esse potencial para construtoras utilizarem em outros empreendimentos da cidade – caso não haja espaço suficiente no lote para absorver o total do potencial construtivo. 

Assim, o recurso obtido ajuda a financiar obras de restauração e manutenção. O cálculo varia conforme o zoneamento do imóvel e, desde 2020, esse potencial pode ser renovado a cada 15 anos, permitindo novas rodadas de investimento nos imóveis históricos. 

Porém, manter um imóvel histórico preservado nem sempre é simples. Dependendo do estado da construção, dos materiais originais e das exigências técnicas de restauro, os custos podem ser elevados e os processos mais demorados. Reformas e intervenções em imóveis protegidos precisam passar por análise técnica e autorização municipal, o que exige projetos específicos e acompanhamento especializado. 

Apesar disso, a conservação dos imóveis é responsabilidade legal dos proprietários, independentemente de serem patrimônios históricos ou não. “Isso tá no código de posturas. Nós temos como direito e deveres como proprietários manter essas residências, seja ela histórica ou não. Então, o proprietário é obrigado à manutenção dela”, destaca Paris. Segundo ele, a obrigação vale inclusive quando o imóvel pertence ao poder público. “Seja esse proprietário a Prefeitura, o Estado ou um particular.” 

Fiscalização e participação popular

A gestão do patrimônio envolve a Fundação Cultural de Curitiba, a Secretaria Municipal de Urbanismo e o IPPUC. Ainda assim, a fiscalização depende também da população. “Se a população identifica um imóvel degradado ou suspeita de descaracterização, pode abrir protocolo junto à Secretaria Municipal de Urbanismo para fiscalização”, orienta Paris. 

A justificativa é prática: “Não é possível que a prefeitura monitore continuamente mais de 600 unidades de interesse de preservação. Por isso, a participação da sociedade é fundamental.”, complementa. Ou seja: preservar patrimônio em Curitiba não depende apenas de legislação, mas também de vigilância coletiva. “Patrimônio não é sobre passado. É sobre herança e possibilidade de leitura futura da cidade. Quando um patrimônio cai, não desaparece apenas uma fachada. Desaparece uma materialidade de memórias.”

Uma casa amarela

Nem todo imóvel histórico, porém, tem como destino a demolição. Alguns casos apontam caminhos alternativos de preservação e requalificação urbana, como o da Casa Amarela, no São Francisco. Localizada na Rua Inácio Lustosa, a edificação de número 416 passou recentemente a integrar um novo capítulo de restauro após ser adquirida pelo empresário Arley Smanhotto, conhecido por iniciativas de recuperação patrimonial na capital. 

Construída por volta de 1910 pela família Reinhardt, a residência reúne elementos dos estilos eclético e protomoderno e carrega uma trajetória diretamente ligada à memória curitibana. O imóvel abrigou por décadas o antiquário do marchand Raul Reinhardt Venhaz, morador da casa por mais de 70 anos, além de ter sido residência de Anna Reinhardt, bisavó de Raul. Nascida na Alemanha em 1876, Anna teve papel relevante na história local como parteira em Curitiba. 

O décimo imovél que Arley Smanhotto está reformando é a “Casa Amarela”, situada no número 416 da Rua Inácio Lustosa. A edificação pertenceu à família Reinhardt desde a primeira década do século XX e teve o antiquário e marchand Raul Reinhardt Venhaz como morador por mais de 70 anos. Fotos: Giovana Bonadiman

O projeto atual de restauro busca preservar características arquitetônicas e elementos originais do imóvel, conciliando conservação e novo uso. O antigo quintal da residência será adaptado para receber estacionamento e um jardim paisagístico, mantendo árvores frutíferas já consolidadas no terreno, frequentemente visitadas por aves como jacus, além da preservação de um antigo poço existente no local.

Confira podcast completo sobre a história de Arley Smanhotto e sua trajetória com a restauração de casas históricas em Curitiba.

A conta do patrimônio 

Esse debate também envolve a criação de mecanismos capazes de tornar a preservação economicamente viável. Entre as vozes mais atuantes sobre o tema está a vereadora do PDT e arquiteta urbanista, Laís Leão, que ganhou destaque nas últimas semanas ao expor nas redes sociais a situação do edifício Iza Anitta. Para ela, Curitiba ainda falha em transformar a preservação em uma política atrativa para proprietários e investidores. “A legislação tem que garantir a criação de um ecossistema que permita essa preservação. É isso que a gente tá falhando, porque a gente tem uma legislação que às vezes é muito permissiva e que não incentiva, não dá tantas vantagens coletivas para que se preserve.”  

A revisão do Plano Diretor prevista este ano pode recolocar esse debate no centro das políticas urbanas, incluindo possíveis revisões de zoneamento e incentivos. “Ir contra essas demolições não necessariamente vai de encontro a algum interesse ou outro. Acho que quando a gente pensa em política pública, a gente tem que pensar na melhor política pública que endereça a maior quantidade de interesses. Não acho que a iniciativa privada, por exemplo, seja contra a preservação do patrimônio. Mas acho que tem que ser viável a partir da legislação”, destaca a vereadora. 

Apesar desses mecanismos, a lógica do mercado ainda costuma favorecer a substituição desses imóveis. “Tem muitos interesses, como o da incorporadora, porque você não vai construir uma coisa sozinho. Você é o dono do terreno, você tem quem vai fazer a incorporação, às vezes um terreno sozinho não dá, você tem que incorporar outros. Têm construtora, quem vai vender, um monte de gente envolvida, que muitas vezes faz pressão para não requalificar edifícios antigos vazios ou até patrimônio em área central”, ressalta a professora e arquiteta da UFPR, Maria Carolina Maziviero. 

“Acho que quando a gente pensa em política pública, a gente tem que pensar na melhor política pública que endereça a maior quantidade de interesses.”

Vereadora do PDT, Laís Leão

Segundo dados do Índice FipeZAP Residencial, o valor do metro quadrado para venda em Curitiba é de R$11.694, com variação mensal de 0,62% e acumulado de 5,65% em 12 meses. A cidade está na 8ª posição dentre os 56 municípios monitorados pela pesquisa. 

O Batel continua sendo o endereço mais caro da cidade. Porém esse aumento foi de apenas +6,5% em 12 meses, mesmo desempenho do índice agregado da cidade. A explicação é que a Lei Complementar 16.361/2024 liberou edifícios de 10 andares no bairro (antes 6), e 2025/26 viu lançamentos de grandes edifícios ao mesmo tempo como Porto Batel, Sublime, Grand Lodge, A. Andersen, Emiliano 724.

Tanto para proprietários e incorporadoras, preservar não é apenas decisão cultural, é cálculo financeiro. “Você tem um custo alto da compra do terreno. Sempre tem o primeiro estudo, se ela é uma UIP, o que está preservado, o que ela não está, para ver se realmente vale a pena. Porque você não pode simplesmente dizer vou comprar e restaurar. Tem todo esse trabalho que às vezes você gasta muito mais do que você vai receber de volta”, explica Luana Jochinsen , arquiteta responsável pela restauração da Casa Amarela. 

Além da questão econômica, outro ponto discutido por especialistas é o fato de que preservar pode ser mais sustentável do que demolir. “Existem cálculos que provaram que era mais barato você requalificar do que construir o novo. Sem contar que quando você demole, você vai gerar um monte de dejeto, resto de construção civil, que é o que mais polui”, aponta Maria Carolina Maziviero. 

A revitalização do Centro Histórico

Há também um movimento recente da Prefeitura de Curitiba lançado no mês de abril deste ano, voltado à requalificação da região central, o programa Curitiba De Volta ao Centro. Nele estão previstos investimentos de até R$163 milhões, entre incentivos fiscais e subvenção econômica. O pacote engloba retrofit de prédios, restauro de imóveis históricos, habitação popular e fortalecimento do comércio e da cultura, o que tem feito crescer o interesse pela preservação de imóveis históricos. 

Segundo Gabriel Paris, essa mudança ajuda a transformar a visão de que um imóvel tombado estaria “congelado”. “Era muito comum o entendimento de que a casa estava congelada, que depois do tombamento não poderia mais fazer nada. E não é assim que a banda toca”, afirma. Hoje, além de incentivos como isenção de IPTU e potencial construtivo, os proprietários passaram a enxergar esses imóveis com outros olhos. “As pessoas têm tido um contato mais benéfico com isso, não mais como uma perda da casa ou impossibilidade de venda”, completa. 

“Patrimônio não é sobre passado. É sobre herança e possibilidade de leitura futura da cidade. Quando um patrimônio cai, não desaparece apenas uma fachada. Desaparece uma materialidade de memórias.”

Historiador e coordenador da FCC, Gabriel Paris

A discussão, portanto, não se resume à nostalgia ou resistência à modernização. O que está em jogo é o modelo de cidade desejado. Enquanto isso, moradores e comerciantes assistem à transformação gradual da paisagem. Prédios, casas e esquinas deixam de ser apenas estruturas físicas e funcionam como pontos de referência, memória afetiva e identidade coletiva. O Iza Anitta segue de pé, cercado, observado e fotografado. Por ora, ainda é possível vê-lo na esquina. Mas sua situação traz uma questão maior, que atravessa bairros, planos urbanísticos e decisões administrativas: quando uma cidade cresce, quem decide o que pode desaparecer?

Mais do que um edifício, o Iza Anitta se tornou um símbolo da memória urbana de Curitiba. Com linhas marcadas pela arquitetura modernista e pela verticalização que transformou a cidade ao longo do século XX, o prédio carrega não apenas valor arquitetônico, mas também afetivo. Entre debates sobre preservação e mercado imobiliário, o edifício evidencia como a paisagem urbana também guarda histórias, modos de viver e fragmentos da identidade curitibana. Fotos: 1, 2, 3 /Washington Cesar Takeuchi. 4 /Flavio Antonio Ortolan

Pauteiros: Gustavo Gomes, Luísa de Cássia, Manoel Salvador, Marya Marcondes.
Texto: Giovana Bonadiman 
Entrevistas: Giovana Bonadiman, Gustavo Beckert
Infográficos e Mymaps: Giovana Bonadiman e Vitoria Panza
Podcast: Eduardo Gomm
Edição e revisão final: Eduardo Gomm e Vitoria Panza
Orientação: Cândida de Oliveira

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