Dizer “sim” no budismo

Uma benção. Isso é o que a cerimônia de casamento representa para a religião budista. Nada de dever religioso ou ato sagrado: o evento celebra, na verdade, uma mudança de estado como qualquer outra da vida humana.

É o que explica a presidente do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (Cebbe), Bernadete Brandão. “O budismo trata o casamento como o desenvolvimento de uma identidade. E isso vale para todas as escolhas da vida, como a troca de emprego ou o início de uma pós-graduação, por exemplo”.

O mais importante, segundo ela, é que os noivos saiam da cerimônia com a capacidade de perceber a natureza de Buda um no outro. Essa lucidez serve para guiar a vida do casal depois da união. “A ideia é encontrar no parceiro uma maneira de contemplar a si mesmo”, afirma.

Os rituais variam de acordo com as escolas budistas e, em alguns casos, até incorporam elementos das celebrações católicas – como o tradicional vestido de noiva. Confira alguns exemplos:

Casamento Mahayana

No caso do budismo tibetano mahayana, do qual Bernadete é adepta, a cerimônia envolve o canto de poemas (mantras) e é realizada pelo chamado “Lama”, professor que conhece os ensinamentos da religião.

Primeiro, o Lama faz uma prece inicial, que estabelece conexão com o Buda Shakyamuni, o mais recente do budismo (nasceu em 800 d.C.). Depois de ouvir meditações sobre a vida do guru, os convidados cantam uma oração para abençoar todos os casais.

O mantra de Shakyamuni invoca cinco sabedorias que devem ser trabalhadas pelos noivos: o acolhimento, a capacidade de destacar as qualidades positivas do parceiro, o planejamento, o corte de negatividades e a transcendência. “Um serve para o outro como um caminho para que esses estados de mente se tornem realidade. Isso é uma grande responsabilidade, não só para os noivos, mas em qualquer tipo de relacionamento”, completa Bernadete.

Casamento Zen

Para o Zen-budismo, outro segmento da religião, o casamento é um compromisso que reafirma a transitoriedade dos fenômenos. “Por mais que você passe o resto da sua vida com outra pessoa, isso acaba com a morte. Tudo é passageiro para o budismo”, explica Leonardo Kendô, monge há 12 anos.

A cerimônia começa com a entrada dos noivos, que é bem parecida com a da celebração católica. A noiva pode usar o vestido tradicional e levar o buquê de flores. Ela carrega também uma vela vermelha, que é colocada no altar. Depois da troca de alianças, o monge explica o significado do casamento para os convidados e recita o mantra específico do segmento.

Para o Zen-budismo, um dos rituais mais importantes é a Cerimônia do Saquê. A bebida, tradicional do Japão, é servida para os noivos em três xícaras. Cada uma delas tem um significado: juventude, flexibilidade e coragem. O casal toma um gole de cada taça, até completar nove goles cada um. O saquê pode ser substituído por champagne.

Casamento Nitiren

“Eu usei o vestido tradicional e entrei com o meu pai no templo. Depois, foram os padrinhos, da mesma forma que a cerimônia na igreja católica”, conta Susi Zaniboni, que casou com o marido, Marcelo, há 26 anos pela religião budista. A celebração aconteceu no templo Nitiren Shoshu, em São Paulo, e é similar ao celebrado pelo Zen-budismo.

Toda a cerimônia é realizada em sânscrito, a língua original do budismo. “Quem é budista entende as orações, mas quem não é fica perdido”, comenta Susi. Diferente da celebração católica, os noivos e padrinhos permanecem sentados na frente do monge. Além disso, a decoração do templo não é permitida, para que não haja diferença entre os casamentos, e o altar não pode ser fotografado.

Susi lembra que uma das orações feitas no seu casamento significava a “vibração que te coloca no ritmo do universo”. “Foi só começar a ler sobre a filosofia do budismo que eu me encantei”, confessa.

No casamento budista Nitiren, a cerimônia é realizada em sânscrito, língua mãe da religião, e os noivos permanecem sentados em frente ao monge. Créditos: Foco Estúdio

Budismo

O budismo é o conjunto de tradições religiosas que surgiu a partir dos ensinamentos de Buda, líder espiritual que viveu na Índia há 2500 anos a.C. O fundador da religião não é considerado uma divindade, mas um homem comum que foi “iluminado pela verdade”. Atualmente, o budismo tem cerca de 400 milhões de seguidores no mundo todo.

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