Eleições 2026: candidaturas negras ainda são minoria no Paraná

Em comparação aos candidatos brancos, negros representam menos de 30% das candidaturas para deputado federal e estadual

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Paraná tem apenas 84 candidatos negros a deputado federal e 161 para deputado estadual. Foto: Sérgio Lima/Poder360.

Por Amábili Gomes

Mais de 8,6 milhões de paranaenses estão aptos a votar nas eleições de 4 de outubro deste ano. Para as disputas no estado, foram registrados 1.090 pedidos de candidatura. Desse total, 73,85% são de pessoas que se autodeclaram brancas, enquanto candidatos pretos, pardos, amarelos e indígenas representam parcelas menores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O perfil racial das candidaturas coloca em evidência uma questão sobre quem ocupa espaço na disputa eleitoral: onde estão os candidatos negros na política do Paraná?

Para entender como essa presença se distribui entre os diferentes cargos, a equipe de reportagem do Jornal Comunicação realizou um levantamento com base nas informações disponíveis no Painel de Candidaturas do TSE. A Justiça Eleitoral fechou, na última quinta-feira (17), o sistema de candidaturas das eleições. Com isso, os números apresentados correspondem à situação dos candidatos registrados no momento da consulta e ainda podem sofrer alterações ao longo do processo eleitoral.

A coleta dos dados utilizados nesta reportagem foi realizada na última sexta-feira (18) e mostra que a presença de candidatos negros é desigual entre os cargos disputados no Paraná nas eleições de 2026. Para a classificação étnico-racial, o levantamento seguiu o critério adotado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que considera como população negra o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas.

Para analisar as candidaturas, o levantamento considerou aquelas com situação “deferida”, quando atendem aos requisitos legais e estão aptas a concorrer; “em julgamento”, quando o pedido foi encaminhado pelo partido, mas ainda aguarda uma decisão da Justiça Eleitoral, e “indeferida com prazo recursal” ou “indeferida com recurso”, quando a candidatura foi rejeitada por algum impedimento ou falta de documentação, mas ainda pode ser contestada por meio de recurso.

Os candidatos em situação “renúncia” não foram contabilizados, pois desistiram da disputa por decisão própria. As candidaturas declaradas como “indeferidas” também ficaram fora da análise, pois não há mais possibilidade de recurso e, portanto, os candidatos não poderão disputar o cargo.

A presença de pessoas negras aparecem principalmente nas disputas para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa do Paraná, que concentram o maior número de candidatos. Ao todo, 428 pessoas tiveram pedidos de candidatura registrados para deputado federal, enquanto outras 613 registraram candidatura para deputado estadual. Esses números correspondem ao total geral de registros, antes da aplicação dos critérios utilizados no levantamento. 

Na análise das candidaturas para deputado federal, dos 428 candidatos registrados em 2026, 405 estão em situações consideradas no levantamento. Desse total, 318 são pessoas brancas, enquanto 84 são negras, entre pretas e pardas. As demais candidaturas correspondem a pessoas amarelas. Não houve, no Paraná, candidatura indígena para deputado federal.

Candidaturas negras ao TSE — Paraná 2026
Cobertura · Eleições 2026

Deputado federal e estadual: a distância entre a urna e a população

Entre os candidatos deferidos ao Legislativo paranaense, a fatia de pretos e pardos ainda fica abaixo do quantitativo da população negra do estado — caiu na disputa à Câmara Federal e avançou parcialmente na disputa à Assembleia Legislativa, na comparação com 2022.

2/10

Deputado Federal2 em cada 10 candidaturas deferidas são de pessoas negras (75 de 376)

3/10

Deputado Estadual3 em cada 10 candidaturas deferidas são de pessoas negras (150 de 567)

Deputado Federal

Perfil racial por situação da candidatura

Candidaturas indeferidas definitivamente (7) e renúncias (16) não entraram neste cruzamento, conforme metodologia do levantamento. Não há registro de candidatos indígenas com candidatura deferida, pendente de julgamento ou indeferida em recurso a deputado federal no Paraná.

Deferida376 candidatos
Brancos
298 · 79,3%
Pardos
52 · 13,8%
Pretos
23 · 6,1%
Amarela
3 · 0,8%
Indígena
0 · 0,0%

19,9% negros (pretos + pardos) entre os deferidos

Pendente de julgamento11 candidatos
Brancos
10 · 90,9%
Pardos
1 · 9,1%
Pretos
0 · 0,0%
Amarela
0 · 0,0%
Indígena
0 · 0,0%

9,1% negros entre os que ainda aguardam julgamento (base pequena: 11 candidatos)

Indeferida (em recurso)18 candidatos
Brancos
10 · 55,6%
Pardos
6 · 33,3%
Pretos
2 · 11,1%
Amarela
0 · 0,0%
Indígena
0 · 0,0%

44,4% negros entre os indeferidos em prazo recursal (base pequena: 18 candidatos)

Comparado a 2022

Proporção de candidatos negros no total de candidatos em 2026 (deferida + pendente de julgamento + indeferida em recurso) frente aos aptos em 2022 — única situação disponível nos dados daquele ano.

2022 (aptos)
26,0%
2026 (todos os candidatos)
20,7%

A fatia de candidatos negros caiu 5,3 pontos percentuais em relação a 2022 (de 153 em 588 candidatos aptos para 84 em 405 candidatos ao todo em 2026, somando deferida, pendente de julgamento e indeferida em recurso).

A distância até a população negra

Cada fileira de bolinhas representa uma escala de 10: quantas, em cada 10 candidaturas ou em cada 10 habitantes, são de pessoas pretas ou pardas — a partir dos números brutos do TSE e do Censo IBGE 2022.

Candidatos negros, por situação da candidatura
2 em cada 10 candidaturas deferidas são de pessoas negras75 de 376 candidatos (19,9%) · Deputado Federal, TSE 2026
1 em cada 10 candidaturas pendentes de julgamento são de pessoas negras1 de 11 candidatos (9,1%) · Deputado Federal, TSE 2026
4 em cada 10 candidaturas indeferidas em recurso são de pessoas negras8 de 18 candidatos (44,4%) · Deputado Federal, TSE 2026
População negra (referência) · Censo IBGE 2022
2 em cada 10 habitantes de Curitiba são pretos ou pardos427.782 de 1.773.718 habitantes (24,1%) · Censo IBGE 2022
3 em cada 10 habitantes do Paraná são pretos ou pardos3.925.818 de 11.444.380 habitantes (34,3%) · Censo IBGE 2022
Candidatos negros (por situação da candidatura) População negra (Curitiba e Paraná, Censo 2022)

Cruzando os dados: candidatos negros × população negra, por situação da candidatura

Deferida

-4,2 p.p. Candidatos negros deferidos (19,9%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 4,2 pontos percentuais abaixo.
-14,4 p.p. Candidatos negros deferidos (19,9%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 14,4 pontos percentuais abaixo.

Pendente de julgamento

-15,0 p.p. Candidatos negros pendentes de julgamento (9,1%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 15,0 pontos percentuais abaixo.
-25,2 p.p. Candidatos negros pendentes de julgamento (9,1%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 25,2 pontos percentuais abaixo.

Indeferida (em recurso)

+20,3 p.p. Candidatos negros indeferidos em recurso (44,4%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 20,3 pontos percentuais acima.
+10,1 p.p. Candidatos negros indeferidos em recurso (44,4%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 10,1 pontos percentuais acima.

*Pendente de julgamento (11 candidatos) e indeferida em recurso (18 candidatos) têm bases pequenas — as porcentagens são mais sensíveis a variações.

Deputado Estadual

Perfil racial por situação da candidatura

Candidaturas indeferidas definitivamente (6) e renúncias (17) não entraram neste cruzamento, conforme metodologia do levantamento.

Deferida567 candidatos
Brancos
408 · 72,0%
Pardos
91 · 16,0%
Pretos
59 · 10,4%
Amarela
6 · 1,1%
Indígena
3 · 0,5%

26,5% negros (pretos + pardos) entre os deferidos

Aguardando julgamento3 candidatos
Brancos
2 · 66,7%
Pardos
1 · 33,3%
Pretos
0 · 0,0%
Amarela
0 · 0,0%
Indígena
0 · 0,0%

33,3% negros entre os que ainda aguardam julgamento (base extremamente pequena: 3 candidatos)

Indeferida (em recurso)24 candidatos
Brancos
14 · 58,3%
Pardos
7 · 29,2%
Pretos
3 · 12,5%
Amarela
0 · 0,0%
Indígena
0 · 0,0%

41,7% negros entre os indeferidos em prazo recursal (base pequena: 24 candidatos)

Comparado a 2022

Proporção de candidatos negros no total de candidatos em 2026 (deferida + aguardando julgamento + indeferida em recurso) frente aos aptos em 2022 — única situação disponível nos dados daquele ano.

2022 (aptos)
23,3%
2026 (todos os candidatos)
27,1%

A fatia de candidatos negros subiu 3,8 pontos percentuais em relação a 2022 (de 195 em 836 candidatos aptos para 161 em 594 candidatos ao todo em 2026, somando deferida, aguardando julgamento e indeferida em recurso).

A distância até a população negra

Cada fileira de bolinhas representa uma escala de 10: quantas, em cada 10 candidaturas ou em cada 10 habitantes, são de pessoas pretas ou pardas — a partir dos números brutos do TSE e do Censo IBGE 2022.

Candidatos negros, por situação da candidatura
3 em cada 10 candidaturas deferidas são de pessoas negras150 de 567 candidatos (26,5%) · Deputado Estadual, TSE 2026
3 em cada 10 candidaturas aguardando julgamento são de pessoas negras1 de 3 candidatos (33,3%) · Deputado Estadual, TSE 2026
4 em cada 10 candidaturas indeferidas em recurso são de pessoas negras10 de 24 candidatos (41,7%) · Deputado Estadual, TSE 2026
População negra (referência) · Censo IBGE 2022
2 em cada 10 habitantes de Curitiba são pretos ou pardos427.782 de 1.773.718 habitantes (24,1%) · Censo IBGE 2022
3 em cada 10 habitantes do Paraná são pretos ou pardos3.925.818 de 11.444.380 habitantes (34,3%) · Censo IBGE 2022
Candidatos negros (por situação da candidatura) População negra (Curitiba e Paraná, Censo 2022)

Cruzando os dados: candidatos negros × população negra, por situação da candidatura

Deferida

+2,3 p.p. Candidatos negros deferidos (26,5%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 2,3 pontos percentuais acima.
-7,8 p.p. Candidatos negros deferidos (26,5%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 7,8 pontos percentuais abaixo.

Aguardando julgamento

+9,2 p.p. Candidatos negros aguardando julgamento (33,3%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 9,2 pontos percentuais acima.
-1,0 p.p. Candidatos negros aguardando julgamento (33,3%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 1,0 ponto percentual abaixo.

Indeferida (em recurso)

+17,6 p.p. Candidatos negros indeferidos em recurso (41,7%) frente à população negra de Curitiba (24,1%) — 17,6 pontos percentuais acima.
+7,4 p.p. Candidatos negros indeferidos em recurso (41,7%) frente à população negra do Paraná (34,3%) — 7,4 pontos percentuais acima.

*Aguardando julgamento tem base extremamente pequena (3 candidatos) e indeferida em recurso tem base pequena (24 candidatos) — as porcentagens são mais sensíveis a variações, sobretudo a primeira.

Fontes: TSE, Painel de Candidaturas (2026) e dados de candidaturas aptas (2022) · IBGE, Censo 2022. Candidatos que renunciaram não foram considerados na aba “Situação de julgamento”. População negra = soma de pessoas pretas e pardas.
Infografia: Juliana Levandovski com auxílio de Claude.IA.

Já na disputa para deputado estadual, 17 pessoas estão nas situações de “indeferida” ou “renunciada” e, por isso, não foram incluídas na contagem. Dessa forma, 594 candidaturas foram consideradas na análise. Entre elas, 424 são de pessoas brancas, enquanto 161 são de pessoas negras. Também foram identificadas seis candidaturas indígenas e três candidaturas de pessoas amarelas.

Entre as candidaturas consideradas no levantamento, pessoas negras representam 20,74% dos candidatos a deputado federal e 27,10% dos candidatos a deputado estadual no Paraná. Em ambos os casos, o percentual de candidaturas negras fica abaixo do percentual de candidaturas brancas, que corresponde a 78,52% entre os candidatos a deputado federal e 71,38% entre os candidatos a deputado estadual, ou seja, há menos de 30% de candidaturas negras para esses dois cargos. 

Em comparação com as últimas eleições, realizadas em 2022, o percentual de pessoas negras na política para o cargo de deputado federal caiu, enquanto, para deputado estadual, houve um avanço. Considerando o filtro “aptos” na situação de candidatura, disponível para consulta no Painel de Candidaturas do TSE, as eleições de 2022 tiveram, ao todo, 588 candidaturas para deputado federal no Paraná. Desse total, 425 eram de pessoas autodeclaradas brancas e 153 de pessoas negras. Para deputado estadual, foram registradas 836 candidaturas, sendo 629 de pessoas brancas e 195 de pessoas negras.

Na comparação entre os cenários de 2022 e 2026, a fatia de candidatos negros caiu 5,3 pontos percentuais em relação a 2022 na disputa para deputado federal. Já no cenário estadual, houve crescimento: a participação de candidatos negros subiu 3,8 pontos percentuais em relação à eleição anterior. Além disso, também houve uma queda na diversidade racial entre os candidatos ao Senado. Em 2022, quando um terço das vagas da Casa foi renovado, 1 dos 10 candidatos se autodeclarava pardo (10%). Neste ano, entre os 9 candidatos ao Senado, nenhum se autodeclara preto, pardo, indígena ou amarelo. Com isso, a presença de candidatos não brancos passou de 10% para zero.

Na disputa pelo governo do estado, o cenário foi diferente. Em 2022, 1 dos 9 candidatos se autodeclarava pardo (11,1%). Neste ano, entre os 8 candidatos, três se autodeclaram não brancos: dois pardos (25%) e um amarelo (12,5%). Juntos, eles representam 37,5% dos candidatos, enquanto 62,5% se autodeclaram brancos. Em ambas as eleições, não houve candidatos autodeclarados pretos ou indígenas para esses cargos. 

Entre os partidos que mais lançaram candidaturas negras para deputado estadual neste ano estão o PSDB, com 21 candidatos, a REDE, com 16, e o PT, com 15. Na disputa para deputado federal, o PDT aparece em primeiro, com 12 candidaturas negras, seguido pelo PSB, com 8, e pelo PSOL, com 7.

Quando o número de candidaturas negras é comparado ao total de candidatos que cada partido lançou no Paraná, sem considerar as coligações, os dados coletados no DivulgaCand do TSE, mostram uma diferença. Entre os 405 candidatos concorrendo a deputado federal pelo Paraná, o PSD, PL, Novo, Missão, PDT e PSB lideram empatados, com 31 candidaturas cada, seguidos por MDB (30) e Podemos (29). Os únicos que aparecem nas primeiras posições do ranking com maiores quantidades de pessoas negras lançados como candidatos são o PSB e PDT. 

Já entre os 594 candidatos concorrendo a deputado estadual, o PL lidera com 55 candidaturas, seguido por Podemos (51) e  PSD (46). Nenhum dos três partidos está entre os que mais lançaram candidaturas negras para o cargo. Os números mostram que a quantidade total de candidatos lançados por um partido não se reflete necessariamente na presença de pessoas negras entre seus candidatos. Apesar de alguns avanços,  a política paranaense ainda é majoritariamente branca.

Quem mais tem candidaturas negras para deputado federal e estadual no Paraná?

Ranking dos partidos por número de candidatos pretos e pardos com candidatura em disputa nas duas eleições legislativas de 2026, divididos pela situação de julgamento no TSE.

Deputado federal
84candidaturas negras
em disputa
Deferido 75Pendente 1Recurso 8
  1. 1º
    PDT
    12
  2. 2º
    PSB
    8
  3. 3º
    PSOL
    7
  4. 3º
    MISSÃO
    7
  5. 4º
    PODE
    5
  6. 4º
    PT
    5
  7. 4º
    REDE
    5
  8. 5º
    PSD
    4
  9. 5º
    PSDB
    4
  10. 6º
    CIDADANIA
    3
  11. 6º
    MDB
    3
  12. 6º
    NOVO
    3
  13. 6º
    PL
    3
  14. 6º
    SOLIDARIEDADE
    3
  15. 6º
    DEMOCRATA
    3
  16. 6º
    PRD
    3
  17. 7º
    UNIÃO
    2
  18. 8º
    PCDOB
    1
  19. 8º
    REPUBLICANOS
    1
  20. 8º
    UP
    1
  21. 8º
    PCO
    1
Deputado estadual
161candidaturas negras
em disputa
Deferido 150Pendente 1Recurso 10
  1. 1º
    PSDB
    21
  2. 2º
    REDE
    16
  3. 3º
    PT
    15
  4. 4º
    MDB
    13
  5. 4º
    PODE
    13
  6. 5º
    PDT
    10
  7. 6º
    NOVO
    8
  8. 6º
    UNIÃO
    8
  9. 7º
    MOBILIZA
    7
  10. 8º
    MISSÃO
    6
  11. 8º
    PSD
    6
  12. 8º
    REPUBLICANOS
    6
  13. 8º
    AVANTE
    6
  14. 9º
    PL
    5
  15. 9º
    PP
    5
  16. 10º
    SOLIDARIEDADE
    4
  17. 11º
    CIDADANIA
    3
  18. 12º
    DEMOCRATA
    2
  19. 12º
    PSOL
    2
  20. 13º
    PCDOB
    1
  21. 13º
    PRD
    1
  22. 13º
    PV
    1
  23. 13º
    UP
    1
  24. 13º
    PCO
    1

Candidaturas indeferidas definitivamente ou com renúncia (9 no federal, 10 no estadual) não entram no total nem na ordem do ranking.

Candidaturas negras: candidatos autodeclarados pretos ou pardos. Partidos com o mesmo total dividem a posição.

Fontes: TSE, Painel de Candidaturas (2026). Infografia: Juliana Levandovski com auxílio de Claude.IA.

A autodeclaração racial é suficiente?

Os candidatos que irão concorrer às eleições precisam informar ao TSE uma série de dados pessoais, entre eles a autodeclaração racial. Nesse procedimento, cada candidato declara sua própria cor ou raça, podendo se identificar como preto, pardo, indígena, amarelo ou branco. Diferentemente do que ocorre em alguns processos de cotas raciais, a análise da identidade racial não é obrigatoriamente feita por uma comissão de heteroidentificação. A legislação eleitoral permite que partidos, federações e coligações criem suas próprias comissões para analisar a declaração de candidatos que se identificam como pretos ou pardos, porém não é obrigatória. 

A diferença entre os dois procedimentos também levanta discussões sobre a possibilidade de fraudes na autodeclaração racial. Na heteroidentificação, uma comissão avalia características fenotípicas para verificar a compatibilidade entre a aparência da pessoa e a identidade racial declarada. Já na autodeclaração, essa identificação parte do próprio candidato.

Para Djiovanni França Marioto, pesquisador político, cientista social e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), apesar das críticas às bancas de heteroidentificação, especialmente pelas discussões sobre colorismo e pelas diferenças na forma como a raça é percebida em diferentes regiões do país, esse mecanismo pode ser uma alternativa para aumentar a segurança do processo e evitar possíveis fraudes. A discussão ganhou ainda mais importância com o aumento da destinação de recursos públicos para candidaturas negras.

Em 2024, a Emenda Constitucional nº 133 estabeleceu na Constituição que os partidos devem aplicar pelo menos 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário em candidaturas de pessoas pretas e pardas. A regra tornou a autodeclaração racial ainda mais relevante no processo eleitoral, já que a informação também é utilizada como referência para a distribuição dos recursos públicos destinados às campanhas.

“A política ainda é de homens brancos.”

Djiovanni Marioto, cientista político

A medida, no entanto, estabelece regras para o financiamento das campanhas, e não para a quantidade de pessoas pretas e pardas que os partidos devem lançar. Apesar de haver uma porcentagem mínima de recursos destinada a essas candidaturas, a regra não determina um número mínimo de candidatos negros, e o descumprimento das normas de financiamento pode resultar em penalidades para os partidos. Diferentemente da legislação eleitoral para mulheres, que estabelece um percentual mínimo de candidaturas por gênero, não existe uma reserva semelhante para pessoas pretas e pardas. 

Para o cientista político, a adoção de uma medida desse modelo poderia contribuir para ampliar a presença de pessoas negras nas disputas eleitorais, mas não seria suficiente, por si só, para enfrentar a desigualdade racial na política. Para ele, o financiamento específico e uma reserva de candidaturas precisam caminhar juntos.

O pesquisador usa como comparação a cota de gênero. Hoje, mesmo com a reserva de vagas para mulheres, que representa um passo necessário para reduzir a desigualdade de gênero, ele afirma que “Não necessariamente são 30% de mulheres que têm chance na eleição, que estão recebendo dinheiro para que elas possam fazer uma campanha decente”. Para Marioto, “ A política ainda é de homens brancos”.

A partir disso, ele destaca que não basta estabelecer uma cota se não houver financiamento adequado. O mesmo raciocínio se aplica à questão racial: além da reserva de vagas, é necessário garantir um financiamento que realmente funcione na prática e ofereça condições para que candidatos negros possam disputar as eleições. “Além de ter a oferta das pessoas ali dentro, você precisa que elas possam ter condições de chegar a esse cargo, condições de serem votadas e que possam ser vistas ali dentro”, afirma Marioto. 

A dificuldade, segundo o pesquisador, também está relacionada a desigualdades raciais construídas historicamente no país. Desde o período da escravidão, a população negra foi submetida a processos de exclusão que, mesmo após a abolição, continuaram produzindo desigualdades no acesso à educação, à renda, ao mercado de trabalho e a espaços de poder. Essas desigualdades ainda têm impacto na participação política, já que as condições sociais e financeiras também podem influenciar as possibilidades de uma pessoa disputar uma eleição. 

Para o cientista político, portanto, não é possível atribuir a baixa presença de pessoas negras na política à falta de interesse em participar das eleições. Embora existam candidatos negros disputando os cargos, há obstáculos entre o momento da candidatura e a conquista de um cargo. “Não dá para dizer, hoje em dia, que as pessoas pretas e pardas não querem entrar na política ou que não estão se tornando candidatas. Elas estão. O problema é na transição entre ser candidato e ser eleito”, explica. 

A discussão sobre a presença de pessoas negras na política, no entanto, vai além da criação de uma cota. Para Marioto, ter mais candidatos negros nas eleições é importante não apenas para aumentar o número de representantes, mas também para que a população possa se identificar e se sentir representada. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, 55,5% da população brasileira é preta ou parda, o que corresponde à maioria dos habitantes do país. A presença de candidatos negros nas disputas eleitorais amplia a possibilidade de que essa parcela da população se reconheça nos espaços de poder. 

A representatividade também pode influenciar as pautas que chegam ao debate político. Marioto afirma que, com mais pessoas negras ocupando esses espaços, aumentam as chances de que questões relacionadas à população negra sejam discutidas e tenham espaço nas decisões. “Quanto mais representantes negros a gente tiver, maior a chance de que essas pautas e essa população sejam ouvidas, seja representada e que tenha políticas voltadas a ela”, afirma.


Metodologia: Este levantamento utilizou como base os dados do Painel de Candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As informações sobre os partidos foram coletadas no portal DivulgaCand, também do TSE. Para obter o número total de candidaturas de cada partido, as planilhas disponibilizadas pelo TSE foram extraídas e organizadas com o auxílio da ferramenta de inteligência artificial Claude.

A ferramenta também foi utilizada no cruzamento dos dados raciais, permitindo estabelecer um recorte comparativo entre a representação de pessoas negras nas candidaturas e a proporção dessa população em Curitiba e no Paraná. A construção da infografia também contou com o auxílio da ferramenta. As etapas de extração, cruzamento e revisão final dos dados foram acompanhadas e realizadas por duas pessoas. Os dados foram coletados em 18 de setembro de 2026.

Texto: Amábili Gomes. Edição e infografia: Juliana Levandovski.