A fé sempre foi considerada um dos grandes pilares da humanidade, responsáveis por dar aos que creem um espaço para se apoiar, encontrar identidade e acolhimento. Partindo dessa lógica, não surpreende que o momento em que estamos inseridos, marcado por instabilidades e polarização, também acompanhe o surgimento de empreendimentos voltados ao público cristão – que aumenta a cada dia. O censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou um recorde no percentual de evangélicos no Brasil, representando 26,9% da população. Este percentual também cresceu entre os jovens: 31,6% dos brasileiros de 10 a 14 anos se declaram evangélicos e entre os adolescentes de 15 a 19 anos, são 28,9%. Dessa forma, das tradicionais livrarias às modernas academias e inusitados sexshops, a fé cristã sai da Bíblia, das igrejas e capelas e se transforma em nichos potenciais de comércio.
O corpo é o templo do Espírito Santo
Considerada a primeira academia evangélica do Brasil, a Sou Mais Cristo conta com 12 unidades espalhadas por Curitiba e Região Metropolitana. De acordo com assessoria de imprensa do estabelecimento, a academia faz parte de uma rede maior, o grupo Sou Mais, e a ideia de sua criação veio quando a equipe estruturava uma nova unidade. “Tivemos um direcionamento muito claro de Deus durante um período de oração. Foi ali que entendemos que não seria apenas mais uma academia, mas um espaço com propósito”, comenta Elise Fiuza, assessora da equipe.
O propósito, em questão, era a criação de um ambiente pensado para o corpo, a mente e o espírito. Por isso, as unidades da Sou Mais Cristo contam com áreas para oração e música gospel. Outro ponto que é bastante divulgado são os preços acessíveis, com mensalidades que iniciam a partir de R$19,90. Entretanto, ao acessar o site, todas as unidades da academia apresentam o plano no valor de R$149,90. “Buscamos criar um ambiente que também cuide do emocional e do espiritual. Temos uma rádio própria tocando somente louvores, versículos e palavras motivacionais em todas as unidades, criando uma atmosfera diferente dentro da academia. Também temos uma sala de oração disponível para alunos e colaboradores, além de líderes preparados para acolher as pessoas quando necessário”, explica Fiuza.
A recepção surpreendeu. De acordo com Fiuza, era esperado que o público fosse majoritariamente cristão, mas hoje a academia conta com alunos de diversas crenças, motivados pelo ambiente acolhedor e respeitoso, o que torna a experiência de frequentar um espaço que está sempre associado a imagem da máxima “sem dor, sem ganho”, uma experiência mais leve.
Ainda assim, a Sou Mais Cristo é um comércio e mesmo que a fé cristã não condene o lucro oriundo de práticas morais, a progressiva expansão da academia em diversas unidades levanta dúvidas com relação à ambição. Para Fiuza, o questionamento é válido e ela acrescenta que faz parte quando se pensa em propósito e fé. A assessora explica que seria mais simples e barato manter uma academia comum e que a Sou Mais Cristo exige gastos maiores: “o projeto vai muito além de uma estratégia comercial (…) exige mais investimento, mais estrutura, mais responsabilidade e um cuidado muito maior com as pessoas. A fé, para nós, não é usada como ferramenta de venda. Ela é a base da cultura da empresa e da forma como escolhemos cuidar das pessoas. O nosso foco nunca foi explorar a fé de ninguém, mas criar um ambiente onde as pessoas se sintam acolhidas, respeitadas e fortalecidas”, detalha.
1 Coríntios 7:5
Em São Roque, São Paulo, Adriana Araújo empreendeu rompendo tabus: criou a Bem Amada Loja, um sexshop online voltado para o público cristão, especialmente as mulheres. A empresária comenta que a sexualidade era um tópico inicialmente nebuloso quando se converteu e buscando apoio na pastora da igreja que frequenta, encontrou o acolhimento que procurava para entender que poderia viver a sexualidade plena e prazerosa dentro do casamento sem romper com a própria fé.
Nesse processo, Adriana quis ajudar outras mulheres. “Surgiu em meu coração um chamado para ajudar mulheres que viviam as mesmas dúvidas e dificuldades que eu vivi. Esse ainda é um assunto pouco tratado nas igrejas, e existem poucas pessoas dispostas a orientar nessa área”, explica.
A partir dali, a empreendedora buscou aprofundar os conhecimentos que havia adquirido e passou a aconselhar outras mulheres. Por meio de encontros, Adriana apresentava cosméticos íntimos que poderiam ajudar especialmente em questões de autoestima, libido, lubrificação e conexão conjugal. “Na época, eu nem vendia produtos, apenas compartilhava aquilo que eu mesma utilizava e conhecia. Com o tempo, as próprias mulheres começaram a me procurar pedindo indicações e orientações. Então, a comercialização surgiu de forma muito natural, quase inevitável, como uma extensão desse cuidado e acolhimento”.
Além disso, Adriana considera que a Bem Amada Loja entrega diferenciais importantes, já que acolhe mulheres que, como a própria empresária, encontram dificuldades no que diz respeito ao sexo e ao prazer dentro de uma determinada religião. “Atendo um nicho que muitas vezes se sente perdido, sem apoio e sem representatividade nesse assunto”, comenta.
Trabalhar com esse empreendimento não foi fácil. Adriana precisou encarar o tabu da igreja e de pessoas próximas, mas vencida essa etapa, a comerciante sente que lidar com outros obstáculos ficou mais simples. Em última instância, o trabalho de Adriana é educativo e nem sempre precisa estar alinhado a uma determinada religião, já que educação sexual é um tópico importante para todos e uma questão de saúde pública.
Apesar disso, pensar em um sexshop cristão traz um questionamento: seria uma forma de aliviar a culpa cristã que envolve qualquer assunto relacionado ao sexo e ao prazer? Para Adriana, a resposta é 1 Coríntios 7:5, passagem bíblica em que o apóstolo Paulo orienta casais a não se privarem da intimidade sexual, a menos que haja consentimento mútuo e por um período limitado dedicado à oração e ao jejum. Depois disso, o casal deve retomar as relações para evitar cair em tentação. “Não acredito que exista culpa em viver o prazer dentro do casamento. Pelo contrário: a intimidade saudável fortalece vínculos, gera conexão emocional e faz parte da vida conjugal”, compartilha a comerciante.
O teólogo e fundador do Evangélicxs Pela Diversidade, Bob Luiz Botelho explica que a sexualidade é tratada de diferentes formas no meio cristão, porém costuma ser retratada pela perspectiva conservadora nos grandes veículos de imprensa. “É uma perspectiva machista, misógina, patriarcal, que entende o corpo da mulher como pertencente ao do homem. Reproduz essa lógica machista, e que vai entender, por exemplo, que o sexo tem o objetivo de procriação, e não de desfrute, de prazer, de erótico.”
Bob ressalta que essa visão restritiva não reflete o cotidiano de todas as igrejas, as quais estão lidando com a sexualidade de forma mais abrangente. “Quando você cria um sex shop cristão, você cria uma experiência que dá vazão a esse desejo, a essa vontade de ser e existir num espaço que foi concedido por essa entidade abstrata chamada religião.” Além disso, destaca que esse tipo de comércio possibilita uma forma de resistência e trocas às mulheres que não teriam essa possibilidade em outros espaços.
Fé e comércio
Botelho, que também é pastor pentecostal e biblista, criou um conceito chamado “gospelização dos espaços econômicos”. Para ele, o público cristão tende a criar uma rede autossustentável das suas práticas, consequência da ampliação do mercado e da necessidade de contemplar um público. “É sempre importante perceber que a fé associada ao consumo, sempre será uma fronteira em disputa.- Ser gospel é um critério, porque quando você ouve o gospel ou cristão, se tem a noção que vai ter uma relação de serviço pautada.” Porém, o teólogo avalia que essa fusão pode gerar uma impossibilidade de convivência com a diversidade, levando ao aumento de espaços totalitários. “As disputas vão acontecer dentro do campo da fé, porque essa pessoa já está tão imersa nesse mundo da religião, que ela não vai ouvir nada que não seja dela. Ela está toda envolvida nesse universo e isso a afasta da possibilidade de compreender outras maneiras de ver e de pensar. Porque tudo que ela faz é cristão”, afirma Bob.
A referência a possíveis disputas leva a outro questionamento: existe um limite teológico onde o comércio deixa de ser um serviço à comunidade e passa a ser uma exploração da identidade religiosa? A resposta é sim, segundo o teólogo Paulo Davi Povedano Júnior. Formado pela faculdade de Teologia de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, ele defende que este limite é traçado pela doutrina de vocação e mordomia. “O comércio deixa de ser um serviço e passa a ser exploração quando incorre no pecado da simonia, definido como o comércio dos dons de Deus ou o uso de pretextos religiosos para lucro pessoal.” E completa, dizendo: “Além disso, a antropologia reformada alerta que o coração humano é uma “fábrica de ídolos”, e transformar a identidade religiosa em um produto para alimentar o ego ou a ganância é uma forma de idolatria. Portanto, quando a oportunidade de lucro entra em jogo, o limite foi atingido.”
Alcançando a solidificação em diferentes nichos, entre bares, baladas, bibliotecas e até revendedoras de carros, estima-se que o mercado gospel fatura cerca de R$21,5 bilhões por ano no Brasil. Povedano Júnior destaca que a teologia bíblica reformada rejeita a validação da fé por meio do sucesso empresarial ou poder de consumo. Entretanto, ele avalia que o crescimento de comércios evangélicos pode ser considerado positivo, se levado em consideração a ideia da soberania de Deus em todas as áreas da vida. “Esse nicho se diferencia não por ser um “universo paralelo”, mas por ser um instrumento de transformação da cultura. Enquanto o comércio secular pode ser guiado pela autonomia humana, o comércio cristão genuíno deve ser guiado por uma visão de mundo teocêntrica, onde o profissional (seja médico, operário ou empresário) busca refletir a imagem de Deus e agir com justiça e amor em sua vocação”, declara o teólogo.
Futuro comercial
Atuando no mercado evangélico desde 1993, Everlan Douglas Scheffel busca formas de se reinventar. Dono da livraria evangélica MD gospel, ele acredita que o maior desafio está no comércio virtual, o qual apresenta valores mais baixos. “ Estamos levando nossos clientes a conscientização da importância da loja física e sua missão. Como vantagem, por exemplo, da garantia e agilidade na disponibilidade dos produtos. Também destacamos a importância do relacionamento pessoa a pessoa como cliente e fornecedor, onde e-commerce não existe”, afirma.
Embora os dados apontem mudanças no perfil etário, Everlan diz que o público das livrarias continua o mesmo: evangélicos entre 30 e 70 anos. Para ele, a tendência é que o mercado se torne completamente digital, ficando somente o setor de presentes no meio físico. Esse tipo de transformação levou Scheffel a investir em alternativas como um clube de descontos para clientes fixos.
Para o economista Sérgio Luiz Galvão de Moura, toda empresa visa lucrar e, teoricamente, não há problema nisso. Na verdade, é fundamental que exista lucro para manter o empreendimento vivo. Contudo, é preciso entender até que ponto a união entre religião e comércio pode ser benéfica, especialmente para o consumidor. “Se o usuário desses estabelecimentos sente que precisa investir cada vez mais [dinheiro] no espaço em que está para sentir o que esses empreendimentos pregam como ‘pertencimento’, ele pode acabar comprometendo gravemente a própria renda”, explica. Ainda segundo o economista, essa lógica é parecida com os casos de pastores e igrejas que se valem da cobrança de dízimos para lucrar em cima da fé dos fiéis.
Assim como o economista, o repórter João Marcelo Simões analisou a relação entre o consumidor e o comerciante dentro da lógica do uso da religião e sintetizou a reflexão em uma crônica. De tom crítico e humor ácido, o repórter criou uma narrativa que acompanha a vida de Armando e o envolvimento do personagem com comércios cristãos. Para conferir a produção na íntegra, clique aqui.
Ficha técnica
Repórteres – Francielle Lacerda e Maria Flávia Ferreira
Editora – Fernanda Gomes de Siqueira
Crônica – João Marcelo Simões
Infográfico – Matheus Neme
Orientação – Cândida de Oliveira
