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Esporte de alto rendimento na infância exige equilíbrio e limites para garantir desenvolvimento saudável

Entrevista completa: Judoca Alexia Gusmão e treinador falam sobre alto rendimento na infância 

Reportagem em vídeo: Judoca Alexia Gusmão [Reportagem em vídeo]
(colocar créditos do JC e repórteres)

A sensação de subir no tatame, conquistar o ouro e reconhecer o peso do próprio esforço é “maravilhosa”, descreve a judoca Alexia Gusmão de Mesquita, curitibana de apenas 13 anos que carrega os títulos de campeã brasileira e campeã pan-americana de judô na categoria sub-13 de menos de 34 kg.

Por trás do sorriso confiante e do orgulho de quem atingiu o topo das Américas, há uma rotina que desafia os limites da juventude. “O sacrifício faz parte do processo”, diz a atleta, acostumada desde cedo à rotina de controle rigoroso de peso, restrições alimentares e privações sociais.

A especialização precoce no esporte — quando crianças e adolescentes passam a treinar intensivamente uma modalidade ainda na infância, com rotina competitiva e foco em alto rendimento — é um debate recente da medicina e do esporte. “É muita responsabilidade, você tem que saber trabalhar o psicológico da criança, do adolescente, estudar”, afirma o sensei Valdemar Rosa da Silva, técnico de Alexia.

Desafios da especialização precoce

Um dos casos mais conhecidos no esporte de alto rendimento é o da ginasta norte-americana Simone Biles. Iniciada ainda criança na ginástica competitiva, Biles se tornou uma das maiores atletas da história da modalidade.

Em 2021, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, ela se retirou de provas para preservar a saúde mental. O episódio ajudou a ampliar o debate sobre os impactos da pressão competitiva sobre atletas e reforçou discussões que também alcançam o esporte infantojuvenil e a necessidade de equilibrar desempenho, desenvolvimento, saúde e bem-estar.

De acordo com Fabio Eon, Coordenador dos Setores de Ciências Naturais e de Ciências Humanas e Sociais da Unesco no Brasil, a perspectiva do órgão internacional sobre o esporte infantojuvenil é baseada na premissa de que toda criança tem o direito de brincar, ter um desenvolvimento integral, acesso à educação e uma prática esportiva que seja, antes de tudo, segura e inclusiva.

A própria Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte da Unesco estabelece que a prática esportiva deve servir como ferramenta de desenvolvimento humano, saúde, cidadania e inclusão social — e nunca focar exclusivamente em resultados competitivos.

“Quando o esporte de alto rendimento é introduzido precocemente, existem riscos específicos, porque crianças e adolescentes ainda estão em processo de desenvolvimento físico, emocional e cognitivo”, diz Eon.
Diferente dos adultos, o público-mirim possui estruturas musculares, ósseas e hormonais em plena fase de formação, com maior vulnerabilidade a lesões por sobrecarga, problemas articulares, distúrbios de crescimento, fadiga crônica, transtornos alimentares e ao burnout (esgotamento físico e mental).

“Seguimos à risca o planejamento nutricional para que ela mantenha o peso da categoria de forma saudável, sem prejudicar o seu crescimento”, afirma Raquel Gusmão de Barros, 40, mãe de Alexia. Ela acompanha a filha nas viagens país afora durante os campeonatos.
“É delicado, porque você tem que conhecer o perfil da criança, saber qual é a disciplina que ela pode alcançar”, explica o sensei Valdemar. Os treinos vão de 18h a 21h, de segunda a sexta-feira, com treinamento funcional aos sábados. “Você nunca vai fazer uma criança chegar a treinar de forma exaustiva”, diz o sensei.

“Quando ela vence, a felicidade é indescritível e celebramos muito. Mas quando o resultado não é o esperado, é onde o acolhimento mais importa, aquele abraço forte sabe para acalmar o coração”, diz a mãe da judoca.

Ano passado, Alexia venceu o ouro no Campeonato Brasileiro de Judô Sub-13 e Sub-15, o que classificou a atleta para o Campeonato Pan-Americano de Judô Sub-13, em Lima, no Peru. Lá, ela conquistou o ouro novamente.

Em maio deste ano, a judoca participa da edição de 2026 do campeonato brasileiro, em João Pessoa, na Paraíba, agora na categoria sub-15. A etapa nacional é classificatória para a disputa pelo ouro no Pan-Americano deste ano, mas a ambição de Alexia vai além. “O meu objetivo é chegar nas Olimpíadas, representar o Brasil, o Paraná, Curitiba, de onde eu vim”, decreta.

Recomendações

Em outubro de 2019, a National Athletic Trainers’ Association (NATA), apoiada por cinco das principais sociedades de treinamento de esportes profissionais dos Estados Unidos (ligadas ao futebol americano, beisebol, basquete, hóquei e futebol), além do Conselho Intercolegial de Medicina do Esporte dos EUA, publicou um posicionamento oficial com recomendações para reduzir o risco de lesões decorrentes da especialização esportiva.

Em entrevista à BrazilHealth, o ortopedista e especialista Adriano Marques de Almeida, que preside a Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (SBRATE), afirma que “em vez de acelerar carreiras ainda em formação, o caminho deve ser mais amplo, valorizando o desenvolvimento global do jovem atleta para reduzir riscos de lesões que podem comprometer não apenas o desempenho, mas também a saúde a longo prazo”.

A NATA classifica de forma oficial a especialização precoce como um “problema de saúde pública em evolução” entre adolescentes e jovens atletas. Um estudo publicado no The Orthopaedic Journal of Sports Medicine em 2021, liderado por pesquisadores do Rothman Orthopaedic Institute, acompanhou atletas do ensino médio norte-americano e concluiu que estudantes especializados sofrem lesões mais frequentes e mais graves do que aqueles que praticam múltiplos esportes. 

O estudo detectou que as áreas mais afetadas de forma aguda e crônica são os joelhos, tornozelos e a cabeça. As rupturas do ligamento cruzado anterior (LCA) representam mais de 30% de todas as lesões que encerram precocemente a temporada de um jovem competidor.
Para conter esse cenário alarmante, as diretrizes da NATA e de órgãos como a NBA e a USA Basketball sugerem um protocolo de proteção aos menores:

  • Retardar a especialização: Adiar a escolha de uma única modalidade até, aproximadamente, os 14 anos de idade.
  • Foco em uma modalidade por vez: Praticar apenas um esporte organizado por temporada (evitando sobrepor escolinhas ou clubes diferentes no mesmo período).
  • Limite anual: Não treinar a mesma modalidade por mais de 8 meses em um único ano.
  • Descanso semanal: Garantir cerca de 2 dias completos de descanso por semana sem atividades físicas estruturadas.
  • Período de transição: Tirar semanas de férias completas longe de cobranças desportivas ao término de cada temporada competitiva.

Diversificar no esporte evita riscos

Para combater o desgaste de treinar uma única modalidade, os estudos apontam uma estratégia: a prática poliesportiva. Em vez de focar em apenas  uma atividade desde cedo, a recomendação é de que a criança experimente diferentes esportes ao longo da infância.

De acordo com a NATA, o estímulo a movimentos variados é fundamental para que o corpo cresça mais forte e resistente. Quando um menino ou uma menina combina atividades diferentes — como natação, futebol e atletismo —, o corpo se desenvolve de forma mais equilibrada. Isso acontece porque os estímulos mudam de um esporte para o outro, o que evita que os mesmos ossos, músculos e articulações sofram impactos repetitivos todos os dias.

Alexia complementa os treinos com outros esportes. O jiu-jitsu ajuda a consolidar o Ne-waza, luta de chão no judô. “Traz mais recursos técnicos, transições rápidas e controle durante os combates”, explica a mãe, Raquel. A judoca também pratica ginástica, que fortalece flexibilidade e agilidade, e triatlo, que reúne corrida, natação e ciclismo, e trabalha resistência física e o controle da respiração.

Em entrevista ao The New York Times, o ex-presidente da NATA, Tory Lindley, defende que “existe o mito de que o sucesso exige especialização em um único esporte desde cedo”. Ele explica o benefício prático de abrir o leque de modalidades: “As evidências práticas mostram que o potencial atlético melhora quando expomos o corpo a esportes e movimentos diferentes”, afirma.

Fabio Eon destaca o valor de curto e longo prazo dessa escolha e lembra que “a prática variada favorece desenvolvimento motor mais amplo, reduz lesões e contribui para uma relação mais positiva e duradoura com a atividade física ao longo da vida”.

Abandono do esporte

Quando o equilíbrio falha e o esporte deixa de cumprir seu papel formativo, o resultado é o dropout — abandono definitivo da modalidade. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Universidad de Las Palmas de Gran Canaria (ULPGC), da Espanha, avaliou 332 jovens brasileiros entre 10 e 20 anos que praticavam futebol, basquete, natação, ginástica artística e handebol. 

Os resultados indicam que os três principais motivos gerais para o abandono do esporte competitivo são: a pressão dos estudos (34%), a falta de tempo para amigos, namoro e lazer (17%) e o surgimento de outros interesses fora do esporte (16%).

Outra pesquisa, também da UFJF, investigou 385 atletas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O trabalho reforça que, enquanto o início no esporte é motivado por fatores como “diversão”, “ocupação do tempo livre” e “busca por entrar em forma”, a curva de abandono é impulsionada pela pressão excessiva de pais e treinadores, lesões recorrentes e o excesso de responsabilidade associado às competições. 

Os dados apontam que cerca de 95% das crianças que iniciam uma modalidade esportiva competitiva aos 7 anos de idade a abandonam de alguma forma antes de completarem 14 anos. Apenas cerca de 5% permanece na atividade de origem.

O papel da família

Em meio aos desafios, pesagens e treinos exaustivos, a base afetiva se torna fator de permanência do jovem no esporte. O sensei e a judoca concordam: a família é um pilar.  “A minha família é muito importante para mim, sem ela eu não ia conseguir. Se ela não me desse o apoio amoroso e financeiro, eu não ia conseguir chegar até aqui. Eles sempre me ajudam no psicológico, no mental”, diz Alexia.

O sensei Valdemar analisa o cenário geral das academias brasileiras. “Muitos atletas não têm apoio em casa, e a família é o pilar principal para que o atleta vá para frente”, diz.

A mãe da campeã, Raquel Gusmão, afirma que a família faz o possível para dar apoio da alimentação até a hora de entrar no tatame. “Como mãe de atleta, sei que o meu papel vai muito além do incentivo físico. O apoio psicológico é fundamental para que minha filha consiga colocar em prática no tatame tudo o que treina”, diz.

Alexia não é referência apenas entre outros atletas da mesma idade, mas também dentro de casa. A mãe e o irmão foram inspirados por ela a abraçar o esporte. Hoje, ele é faixa laranja e ela faixa azul.

Campeã das Américas no sub-13, Alexia busca o ouro novamente em 2026, agora na categoria sub-15 – Foto: Giovani Sella

Como identificar os sinais de alerta?

As recomendações internacionais apontam que pais e treinadores precisam agir como bases de apoio, e não como fontes geradoras de estresse crônico. O representante da Unesco, Fabio Eon, elenca uma lista de sinais de alerta de natureza física e psicológica que devem acender o sinal de emergência nas famílias e equipes:

Compilação dos dados Rodrigo Matata. Arte feita com IA no Notebook LM.

Reportagem e Edição: Giovani Sella e Rodrigo Matana
Revisão: Vitória Smarcci e Thais Castro
Imagens: Giovani Sella
Supervisão: Cândida de Oliveira

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