A empresa americana Miinome inovou ao propor a comercialização do código genético (DNA) de indivíduos. O serviço prevê o sequenciamento das informações genéticas e, a partir disso, o direcionamento desse material para ramos específicos de pesquisas e produtos. No momento, a oferta seria apenas de pessoas que autorizem o compartilhamento do próprio código genético. O DNA, ou Ácido Desoxirribonucleico, é responsável por conter todas as características individuais do ser, desde a cor do cabelo até determinar uma predisposição genética para certas doenças.
Não depende só do DNA
Apesar da genética ter evoluído muito, ainda é preciso avançar mais no conhecimento das funções dos genes. Para o coordenador do programa de Pós-Graduação em Genética da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Lehtonen, essa prática pode não ser tão revolucionária. “A ideia de vender as informações sobre o genoma das pessoas é algo muito complicado. Acredito que pode trazer mais malefícios do que benefícios. Se as empresas de planos de saúde quiserem comprar seus dados, por exemplo, elas podem querer que você pague mais pelo seu plano de saúde por ter alguma predisposição a uma doença”, adverte.
O desconhecimento de boa parte dos genes é um obstáculo na interpretação das informações. Lehtonen salienta que apenas uma parte do genoma não pode garantir a eficácia de uma característica pessoal. “Existem doenças genéticas, como a Síndrome de Christ-Siemens-Touraine, em que apenas uma mutação leva à doença. Mas em outros casos, como obesidade, diabetes, câncer ou Alzheimer, existem muitos genes envolvidos na predisposição e o aparecimento da doença depende da interação desses fatores genéticos com os fatores ambientais. Nessas doenças ainda não se conhece todos os genes envolvidos”, completa.
Alto custo
O custo de uma análise também não é muito viável, apesar dos preços de sequenciamento de DNA ficarem mais acessíveis a cada dia. Em média, essa atividade pode custar de 500 a 10 mil dólares. O estudante de medicina, Ricardo Parolin Schnekenberg, que realizou pesquisas em genética humana na Universidade de Oxford, diz que o custo pode variar de acordo com o tipo do exame. “Depende da análise, pois podemos analisar desde uma minúscula porção do DNA até todo ele. Mas em geral análises de DNA são consideradas caras. Para que possamos sequenciar todo o DNA de um indivíduo o custo gira em torno de 10 mil dólares. Mas esse é um custo falso, pois a análise dos dados obtidos é a parte realmente complicada”, explica.
Para Parolin, a utilidade da iniciativa deve ser considerada. “Para uma pessoa saudável, independente do custo, esses são testes desnecessários. Para um paciente doente ou com história familiar de alguma doença grave e potencialmente tratável a análise de DNA pode nos dar informações medicamente úteis”, complementa.
Futuro próximo
Na contramão do que muitos geneticistas e pesquisadores defendem, o sequenciamento de DNA para outros fins já é uma realidade e está sendo desenvolvida em diversos países. A estimativa é que daqui alguns anos grande parte da população tenha seu código genético inteiro sequenciado. Grandes empresas como a Amazon e o Twitter já teriam interesse em tal serviço e divulgam já possuir suporte técnico para receber e analisar informações de usuários com base em seu DNA. Parolin afirma que iniciativas como a da Miinome só tendem a aumentar. “É o caso da Islândia, que já está há alguns anos sequenciando milhares de habitantes. Além de outros países pequenos que tem projetos semelhantes”, ressalta.