Projeto e espaços comunitários na capital paranaense representam a principal forma de combate a insegurança alimentar 

Por Vitória Smarci e Thais Castro
Revisão de Rodrigo Matana e Giovani Sella

Virginia Carvalho mostrando a árvore frutífera que plantou há alguns anos e ainda espera, com paciência, para colher os frutos. Foto: Vitória Smarci 

Curitiba, muitas vezes vista como referência em planejamento, não está imune ao cenário de “desertos alimentares”, áreas urbanas onde o acesso a alimentos frescos e saudáveis é escasso ou inexistente, forçando a população a depender de produtos ultraprocessados, mais baratos e fáceis de encontrar, mas nutricionalmente pobres.  

Um estudo da pesquisadora Marina Sutile de Lima, arquiteta e Urbanista formada pela Universidade Federal do Paraná e mestra pelo Programa de Pós-graduação em Planejamento Urbano da UFPR, identificou que a Região Metropolitana de Curitiba possui vastos desertos alimentares. A análise de 19 mil estabelecimentos revelou que essas áreas não estão restritas às periferias, elas também existem em regiões centrais da capital. 


O Urbano Severino 

Embora o Brasil tenha avançado em diferentes indicadores sociais, a insegurança alimentar ainda afeta milhões de pessoas. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios apontam que, em 2024, cerca de 54,7 milhões de brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, cresce a presença de alimentos ultraprocessados no mercado e diminui o acesso a opções saudáveis, principalmente em bairros periféricos e espaços públicos. 

A indústria lançou, nos últimos quatro anos, 62% de produtos ultraprocessados, a oferta de alimentos saudáveis nas escolas e bairros diminuiu. Nas escolas privadas, o ambiente é “obesogênico”, com máquinas de refrigerantes e doces dominando o espaço. Para o trabalhador que atravessa a cidade em ônibus lotados, o tempo e o preço tornam a alimentação saudável uma exceção de luxo, e não uma regra cotidiana. 

O agronegócio responde por aproximadamente 80% das exportações do Paraná e ajuda a consolidar o estado como um dos principais polos produtores de alimentos do país. Entre os destaques estão a produção de soja, milho, carnes, leite, açúcar e derivados agrícolas. Somente a safra de soja alcançou 18,6 milhões de toneladas em 2024, segundo dados do IBGE organizados pelo governo estadual. 

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), divulgou em 2025 pelo Governo do Paraná, que o estado exportou US$14,2 bilhões em alimentos e bebidas para 176 países no mesmo período, consolidando-se como um dos principais fornecedores de alimentos do mundo. Já as importações paranaenses somaram cerca de US$9,9 bilhões em 2025, concentradas principalmente em adubos e fertilizantes, autopeças, óleos e combustíveis, produtos químicos orgânicos e produtos farmacêuticos. 

É nesse cenário que hortas comunitárias, agroflorestas urbanas e feiras agroecológicas aparecem como alternativas para ampliar o acesso da população a alimentos frescos e produzidos sem agrotóxicos. Além de incentivar o consumo de frutas, verduras e hortaliças, esses espaços também fortalecem a segurança alimentar e criam uma relação mais próxima entre moradores e a produção da própria comida.

Nas áreas urbanas, onde o acesso a alimentos saudáveis muitas vezes é limitado pelo preço, pela distância ou pela baixa oferta, iniciativas de cultivo coletivo ajudam a levar comida de qualidade para dentro das comunidades. Os projetos também funcionam como espaços de convivência, aprendizado e troca de conhecimento sobre alimentação, meio ambiente e cuidado com a terra.

Com o intuito de reverter o isolamento nutricional, a cidade investe em uma rede articulada de ações governamentais que visam resgatar a presença de alimentos naturais no cotidiano urbano. O pilar central desta iniciativa reside nas Hortas Comunitárias. Hoje, a capital paranaense conta com 231 unidades de cultivo coletivo. Essas iniciativas geram anualmente uma produção superior a 1,6 mil toneladas de comida, servindo como ferramenta vital no enfrentamento à fome e impactando positivamente a vida de inúmeras famílias curitibanas. 

Para quem enfrenta longas jornadas de trabalho e horas no transporte coletivo, manter uma alimentação equilibrada muitas vezes deixa de ser uma escolha e passa a ser uma dificuldade cotidiana. Nesse contexto, iniciativas ligadas ao cultivo urbano e à agroecologia surgem como alternativas para ampliar o acesso à comida saudável e fortalecer a relação da população com a terra e a produção de alimentos.


“Sempre acreditei que a educação ambiental pode ajudar a mudar o mundo. ” Virginia Carvalho 

A professora de geografia Virgínia Carvalho, aposentada, transformou o terreno onde mora em um espaço cercado por árvores frutíferas, hortaliças e ervas cultivadas por ela mesma. Criada no interior, ela conta que o contato com a terra começou ainda na infância e segue presente no cotidiano, mesmo vivendo na cidade. Virgínia afirma que cultivar alimentos em casa também representa uma forma de cuidado com a saúde, com o meio ambiente e com as futuras gerações. “Eu me criei no interior e sempre tive contato com a horta. A tia com quem eu morava plantava repolho, couve, essas coisas, então eu cresci comendo alimentos que vinham da terra. Quando comprei esse terreno, em 1994, resolvi plantar também. Hoje tenho árvores frutíferas, ervas, cebolinha, hortelã e outras plantas que fazem parte da minha rotina”, relata.

Ela explica que o cultivo doméstico também desperta reflexões sobre preservação ambiental e qualidade de vida nas cidades. “Eu fico aqui escutando os passarinhos e olhando para essa floresta. Isso traz uma sensação muito boa. Ao mesmo tempo, eu penso muito nas futuras gerações, principalmente na questão da água e da poluição. Sempre acreditei que a educação ambiental pode ajudar a mudar o mundo, e cuidar da terra também faz parte disso”, afirma.

Para a professora, consumir diretamente de pequenos produtores é uma forma de incentivar práticas mais sustentáveis e garantir uma alimentação de melhor qualidade. “Eu procuro sempre comprar de produtores agroecológicos, porque a gente sabe a diferença que faz consumir um alimento produzido sem veneno. Além de cuidar da nossa saúde, também é uma forma de apoiar quem trabalha respeitando a terra e o meio ambiente”. 

Agrotóxico, o inimigo (in)visível 

Em 2025, o cenário agrícola nacional alcançou um patamar alarmante com o novo recorde histórico na autorização de substâncias químicas e biológicas. De acordo com informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o governo viabilizou 912 registros, o que representa um salto de 37% comparado ao período anterior. Esse movimento consolida uma curva de crescimento ininterrupta observada desde o início do milênio.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o perigo não está apenas no consumo dos alimentos, mas em todo o processo de produção. A contaminação atinge trabalhadores rurais durante o manuseio, a mistura, a aplicação e até na limpeza dos equipamentos ou no descarte das embalagens. Além disso, o risco continua mesmo após a aplicação, durante a colheita ou quando as pessoas circulam pelos campos tratados.

Para o consumidor final, a exposição acontece principalmente pelo consumo frequente de alimentos que carregam resíduos desses produtos químicos.Um dos produtos mais utilizados é o glifosato, um herbicida usado para eliminar mato em plantações de soja, milho e trigo. O impacto de seu uso contínuo já é visível no Sul do Brasil. Uma pesquisa da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, realizada em Francisco Beltrão, identificou a presença de glifosato no leite materno de todas as 67 mulheres que participaram do estudo em 2022. 

O engenheiro florestal e ex-professor universitário Otávio Sampaio, coordena oficinas de agrofloresta em um espaço comunitário de Curitiba que reúne crianças, adolescentes e idosos em torno do cultivo da terra. A iniciativa busca aproximar a população da produção de alimentos sem agrotóxicos e fortalecer o debate sobre alimentação saudável e sustentabilidade nas periferias urbanas. Segundo ele, a agrofloresta vai além do plantio de alimentos e funciona também como uma ferramenta de educação ambiental e conscientização social.

“Essa agrofloresta começou entre 2020 e 2021 e hoje é a única agrofloresta urbana de Curitiba. Aqui nós realizamos oficinas durante toda a semana com diferentes temáticas, trabalhando a importância da agroecologia, da alimentação saudável e do cuidado com a terra. Atendemos desde crianças até idosos da comunidade, mostrando que é possível produzir alimentos sem veneno, sem adubo químico e sem desmatamento”, explica.

Otávio critica o uso de agrotóxicos na produção de alimentos e defende a agroecologia como alternativa para uma alimentação mais saudável e sustentável. Segundo ele, o projeto busca conscientizar a população sobre os impactos do modelo agrícola baseado no uso de venenos. “A saúde entra pela boca. Hoje o veneno está na mesa das pessoas, porque grande parte da produção do agronegócio utiliza agrotóxicos. O nosso contraponto é mostrar que é possível produzir alimentos sem veneno, sem adubo químico, sem queimadas e sem desmatamento, trabalhando em harmonia com a natureza”, afirma.

Como participar de Hortas Comunitárias?

A Secretaria Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (SMSAN) coordena um projeto de agricultura urbana na cidade. Contando com 147 hortas comunitárias urbanas espalhadas pelo município, o projeto conta com mais de 37 mil pessoas envolvidas. Para contribuir com o funcionamento de uma dessas hortas é necessário entrar em contato com a Associação de Moradores responsável pela horta comunitária, essas informações ficam disponíveis através do site da Prefeitura. 

Para cultivar uma horta no próprio bairro, é possível realizar um pedido via a Central de Atendimento 156 (chat ou web) ou telefone 156. Uma vez que o terreno receba o aval técnico e a permissão de uso seja devidamente estabelecida, o processo de instalação da horta é concretizado em um prazo de até dois meses.

Ao integrar hortas comunitárias no cenário urbano da cidade, Curitiba sinaliza que a solução para os desertos alimentares passa pela ocupação consciente do território. O desafio para o futuro é garantir que essas hortas se multipliquem cada vez mais, transformando o acesso cotidiano ao alimento um direito de todos.