Inteligência artificial muda rotina da comunicação e acende alerta sobre informações falsas

Inteligência artificial entra nas redações, mas apuração continua sendo responsabilidade humana

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A inteligência artificial deixou de ser uma possibilidade distante e já participa de diferentes etapas da produção jornalística. Ferramentas capazes de transcrever entrevistas, resumir textos, traduzir conteúdos e auxiliar na pesquisa passaram a fazer parte da rotina de profissionais e empresas de comunicação. A expansão dessas tecnologias, porém, traz uma questão que vai além da velocidade de produção: como utilizar a IA sem comprometer a qualidade e a credibilidade da informação? 

A discussão foi levantada pela professora Luciana Pank, especialista em comunicação política e digital, durante entrevista ao podcast do Jornal Comunicação, da Rádio Uni FM 94,5. Para ela, a chegada da inteligência artificial pode ser comparada a outras mudanças tecnológicas que provocaram desconfiança quando começaram a ser utilizadas. A diferença, agora, está na velocidade com que essas ferramentas estão sendo incorporadas à comunicação. Dados do Reuters Institute ajudam a dimensionar essa mudança. Uma pesquisa publicada em 2025 mostrou que 87% dos responsáveis por empresas jornalísticas entrevistados consideravam que suas redações estavam sendo transformadas, em algum nível, pela inteligência artificial generativa. O levantamento também apontou que 96% dos entrevistados consideravam a IA importante para melhorar a eficiência de processos internos. 

Na prática, a tecnologia já aparece em atividades que não envolvem necessariamente a publicação automática de notícias. Pesquisa, transcrição, edição, tradução e produção de títulos e resumos estão entre os usos que vêm ganhando espaço. No Reino Unido, por exemplo, um levantamento do Reuters Institute com 1.004 jornalistas apontou que 56% utilizavam inteligência artificial profissionalmente pelo menos uma vez por semana. Esse cenário ajuda a explicar por que a discussão não pode ser reduzida à ideia de que a IA irá simplesmente substituir jornalistas. Em muitos casos, a tecnologia é utilizada justamente para diminuir o tempo gasto em tarefas repetitivas e permitir que o profissional se concentre em outras etapas da produção. O problema começa quando a ferramenta deixa de ser um apoio e passa a ser tratada como uma fonte de informação. 

Foi justamente esse ponto que chamou a atenção de Luciana Pank durante a entrevista. A professora contou que já utilizou uma ferramenta de inteligência artificial para preparar slides sobre seus próprios livros. Apesar de o sistema reconhecer a obra, algumas informações apresentadas estavam erradas. Entre os problemas estavam referências bibliográficas com data, editora e cidade diferentes das informações reais. O exemplo mostra uma característica importante dos sistemas de IA generativa: uma resposta pode parecer segura e bem escrita mesmo quando contém erros. Para o jornalismo, isso representa um risco maior do que um simples problema de edição. Uma informação incorreta publicada por um veículo pode chegar a milhares de pessoas antes que o erro seja identificado. 

A preocupação também aparece entre o público. Segundo pesquisa do Reuters Institute publicada em 2025, apenas 12% dos entrevistados em seis países disseram se sentir confortáveis com notícias produzidas inteiramente por inteligência artificial. Quando existe participação humana no processo, a aceitação aumenta: 43% se mostraram confortáveis quando um profissional lidera a produção e utiliza IA como auxílio. Já o conteúdo totalmente produzido por humanos teve aprovação de 62%. Os números indicam que a presença humana ainda é um fator importante para a percepção de credibilidade. O público parece aceitar melhor a IA quando ela atua nos bastidores, ajudando em tarefas como correção gramatical ou tradução, do que quando assume diretamente a produção do conteúdo jornalístico. Na mesma pesquisa, 55% dos entrevistados demonstraram conforto com o uso da tecnologia para correção de ortografia e gramática, enquanto apenas 19% se mostraram confortáveis com apresentadores ou autores artificiais. 

A própria forma como as pessoas buscam informação também está mudando. Em 2025, 54% dos entrevistados nos seis países pesquisados pelo Reuters Institute disseram ter encontrado uma resposta gerada por IA em uma busca na internet durante a semana anterior. O dado é relevante para o jornalismo porque essas respostas podem apresentar informações sem que o usuário necessariamente acesse o site original da notícia. Esse processo cria outro desafio para os veículos de comunicação: não basta produzir informação, é preciso disputar espaço em um ambiente em que plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial também passaram a funcionar como intermediários entre o público e as notícias. Diante desse cenário, a apuração continua sendo uma das principais responsabilidades do jornalista. A IA pode ajudar a localizar informações, organizar dados ou acelerar determinadas etapas, mas não substitui a necessidade de consultar fontes, conferir documentos e verificar aquilo que será publicado. 

A experiência relatada por Luciana Pank reforça essa necessidade. Se uma ferramenta pode apresentar informações incorretas até mesmo sobre um livro escrito pela própria pessoa entrevistada, confiar cegamente em uma resposta se torna ainda mais arriscado quando o profissional não domina o assunto ou não possui outras fontes para fazer a conferência. A questão, portanto, não é simplesmente escolher entre usar ou não a inteligência artificial. As ferramentas já estão presentes na comunicação e tendem a ocupar um espaço ainda maior. O desafio para jornalistas e veículos é estabelecer limites para esse uso e deixar claro em quais momentos a tecnologia pode contribuir e em quais situações a decisão precisa continuar nas mãos do profissional. 

Para saber mais sobre o assunto, acesse o documentário disponível no Spotify:

Reportagem: Jhennifer Moura, Alexandre Ponciano, Carlos Eduardo, Jonatas e Gabriel