A França levou 115 anos para dobrar a proporção de idosos com mais de 65 anos em sua população, passando de 7% para 14% entre 1865 e 1980. O Brasil, por sua vez, percorrerá o mesmo caminho em apenas 19 anos, entre 2012 e 2031. Os dados são do estudo “An Aging World” — Um Mundo Envelhecendo, em tradução livre — realizado pelo Departamento de Censo dos Estados Unidos.
O envelhecimento acelerado da população, combinado à baixa taxa de fecundidade e à queda dos investimentos em inovação, coloca a indústria brasileira diante de um grande desafio: manter o crescimento da produtividade em um cenário de escassez de mão de obra e envelhecimento da força de trabalho. No Paraná, a tendência demográfica reforça esse cenário. Segundo o Censo Demográfico de 2022, a taxa de fecundidade no estado é de 1,59 filho por mulher, ligeiramente acima da média nacional, de 1,55. Ainda assim, o indicador registra uma queda acentuada nas últimas décadas. Para efeito de comparação, em 1991 a média era de 2,54 filhos por mulher.
Para os especialistas consultados nesta reportagem, a resposta passa pela adoção de novas tecnologias, pelo fortalecimento da inovação, pela ampliação das políticas de qualificação profissional e por estratégias voltadas à retenção e valorização de trabalhadores mais experientes.
No Paraná a inversão demográfica já está na porta: em 2027, pela primeira vez na história, haverá mais paranaenses com 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes abaixo dos 15 anos, conforme as projeções demográficas oficiais do painel interativo de estimativas populacionais do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) . É uma mudança que o país, na média, só atingirá em 2029, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o mercado, a tradução desses dados é essencial não só para o futuro da produtividade, mas também para o presente.
Se na virada do milênio o desafio do gestor industrial era a escala, a palavra que pode definir a produtividade do setor na próxima década é retenção, além da qualificação da mão de obra. Os microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, mostram que a força de trabalho jovem (17 a 29 anos) responde hoje por apenas 32% do mercado formal paranaense, enquanto a faixa dos 30 aos 49 anos concentra a esmagadora maioria: 58%. Cruzando esses dados, o Sebrae alerta para um efeito cascata iminente: na próxima década, ao menos 21% da atual força de trabalho do estado migrará, compulsoriamente para a faixa dos 50 anos ou mais.
A urgência matemática apontada pelo IBGE, contudo, colide com dificuldades corporativas. Enquanto muitos dos departamentos de Recursos Humanos (RH) das indústrias acusam um “apagão de talentos”, uma pesquisa nacional realizada em 2023 pela startup Maturi em parceria com a consultoria Ernst & Young (EY) expõe um gargalo de gestão: 93% dos profissionais brasileiros com mais de 50 anos estão em busca de recolocação no mercado. O levantamento revela que 76% desse público possui ensino superior completo ou pós-graduação, e quase 90% realizaram cursos de atualização recentes em ferramentas vitais para a Indústria 4.0, como Excel e Power BI.
Ainda assim, o etarismo atua como uma barreira invisível para a produtividade. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) compilados no estudo mostram que, nos últimos cinco anos, 9% das empresas não contrataram um único profissional acima dos 50 anos, e 42% limitaram essas admissões a um teto máximo de dez colaboradores. O sintoma mais agudo da contradição é que as vagas afirmativas abertas especificamente para o público 50+ sofreram uma queda de 53% no período de doze meses.
A inovação como alternativa

Considerando o envelhecimento acelerado da população e a queda de nascimentos , uma crise da mão de obra disponível no mercado se torna cada vez mais próxima. E para o engenheiro e colunista do Estadão Franklin Weise, este problema já é uma realidade. “A crise da força de trabalho é atual, e os dados indicam que a população nas faixas etárias que estão entrando no mercado de trabalho agora (a partir dos 15 anos) começaram a cair”, ele afirma. A pesquisadora e consultora de inclusão organizacional, Jessica Rosa, segue na mesma linha. “A inversão da pirâmide etária não é uma tendência futura. Ela já está acontecendo. Isso significa que as empresas terão menos jovens disponíveis para contratação e uma parcela cada vez maior da força de trabalho será composta por profissionais acima dos 45 e 50 anos”, conclui.
É neste contexto que a inovação surge como alternativa para enfrentar a escassez de trabalhadores. Países que envelheceram em ritmo semelhante ao do Brasil, como a Coreia do Sul, responderam ao desafio com investimento em tecnologia industrial, especialmente robótica e automação, para amenizar os impactos da redução da mão de obra. No entanto, a conjuntura brasileira apresenta entraves significativos para a adoção dessa alternativa.
Para a implementação de novas tecnologias e otimização de processos, o acesso ao crédito aparece como um elemento central. O coordenador de inovação do Sebrae/PR, Alan Debus, confirma este ponto. “O acesso ao crédito é primordial para haver investimento. E quanto mais caro o dinheiro para investimento, mais estrito fica o acesso à inovação”, afirma.
O Brasil passa por uma alta histórica na SELIC, a taxa básica de juros da economia brasileira, que chegou a atingir 15% ao ano em 2026. Juros altos encarecem o acesso a recursos pelos empreendedores, e segundo o IBGE, a taxa de inovação na indústria brasileira apresenta quedas contínuas desde 2021. Cruzando os dados desta categoria de investimento com a linha histórica da SELIC, é perceptível uma influência da taxa de juros na inovação.

O empreendedor Carlos Raimundo, dono e administrador da “Beca Indústria”, uma fábrica de sucos naturais em Quatro Barras, na região metropolitana de Curitiba, decidiu investir em inovação mesmo neste contexto desafiador para os empreendedores. Em fevereiro deste ano, ele captou recursos para a compra de uma máquina gaseificadora industrial. Para escapar da SELIC, ele optou pelo crédito da linha Inovação+, da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), ligada ao Governo Federal, e que oferece taxas muito menores do que nas instituições financeiras privadas. Essa iniciativa faz parte de um projeto do governo para retomar a industrialização e implementar novas tecnologias e equipamentos no mercado brasileiro.
“A gente busca aumentar a produtividade, normalmente, com inovação, com aquisição de novos equipamentos para viabilizar novos produtos. Para se manter competitivo, tem que estar sempre investindo nestas áreas”, conta. Ele também aponta a alta nos juros e a falta de mão de obra qualificada como entraves para o crescimento, e relata que o alto valor para investimentos diminui a margem de lucro. “A SELIC é um dos principais empecilhos. Hoje, se você realiza um investimento, não é possível repassar todo o custo para o preço dos produtos. E aqui em Quatro Barras, uma cidade de poucos habitantes, também há uma grande falta de pessoal qualificado. Chegam muitos currículos, mas a maioria com baixa qualificação. E não se vê uma iniciativa do poder público para reverter este quadro”, relata.
Políticas públicas de crédito, como a linha Inovação+, podem ser uma alternativa para estimular os investimentos em inovação na indústria. No Paraná, essa discussão ganha ainda mais relevância diante do desempenho do setor: em 2025, a produção industrial do estado cresceu apenas 0,3%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE, ficando abaixo da média nacional de 0,6%.



Para Carlos Raimundo, linhas de financiamento com condições mais acessíveis são fundamentais para ampliar a capacidade de investimento das empresas. “Essa política governamental, que oferece recursos para pequenas e médias empresas, é essencial. Ter acesso ao crédito com um custo menor é muito importante”, afirma.
Alan Debus também defende que ampliar os investimentos em inovação é uma medida urgente para preservar a competitividade da economia brasileira. “Com certeza precisamos investir mais nessa área. O Brasil ocupa hoje a 52ª posição no ranking de países mais inovadores. E, se você pesquisar, verá que a nossa produtividade também não é boa”, afirma.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa a 94ª posição em um ranking de produtividade que avalia 184 países, ficando atrás de nações como Cuba e Uruguai. No entanto, ampliar os investimentos em inovação, por si só, não é suficiente para reverter esse cenário.
“O primeiro grande obstáculo hoje é ter mão de obra qualificada na própria fábrica, tanto para prospectar quanto para implantar o projeto”, diagnostica Alan Debus. “A inovação reduz o custo de produção e aumenta a produtividade, mas para fazer a roda girar, você precisa do especialista”, acrescenta.
Novas rotas: o envelhecimento como regra, não como exceção
Com mudanças tão grandes batendo à porta, a sobrevivência da produtividade paranaense exige adaptar rotas. A primeira é conceituada pelo Manual de Oslo, considerada a bíblia internacional da área da inovação, referenciada por Debus: inovar não exige, necessariamente, a compra de um robô de custo milionário. “Recomendamos a inovação de baixo custo: em processos, gestão ou modelo de negócio. A inovação não é sobre a qualidade épica de um lançamento, mas sobre a quantidade. Você precisa testar pequeno, validar com o cliente gastando o mínimo possível, errar rápido e ajustar”, orienta o coordenador do Sebrae.
A segunda rota é entender a adaptar a previsão do engenheiro Franklin Weise: “Os idosos, forçosamente, voltarão ao mercado de trabalho.” Para a pesquisadora Jessica Rosa, o mercado comete um erro primário de diagnóstico ao tratar a longevidade como um projeto de responsabilidade social, quando, na verdade, ela é uma pauta estratégica de negócio.
Na prática, com menos jovens disponíveis no mercado paranaense, a especialista aponta que a competitividade das empresas dependerá de cinco frentes estruturais, a começar por uma varredura rigorosa na porta de entrada: os processos de recrutamento. Muitas barreiras começam de forma invisível nas triagens e nos vícios de RH, através de filtros implícitos que exigem “perfis jovens”, trajetórias lineares ou teto de experiência. Para ganhar agilidade, a fábrica precisa parar de confundir juventude com inovação e maturidade com obsolescência.
Esse destravamento, contudo, não será eficaz se a cultura interna não for reconfigurada. Rosa alerta que as manifestações mais nocivas de etarismo no ecossistema corporativo são silenciosas: vão desde a exclusão de veteranos em projetos de vanguarda até a presunção automática de que eles terão barreiras cognitivas com novas tecnologias. Por isso, preparar a liderança intermediária para gerenciar times multigeracionais passa a ser um investimento de produtividade tão vital quanto a manutenção das máquinas.
O ganho da “simbiose geracional”
É no time multigeracional que a métrica da produtividade ganha uma nova dimensão. A consultora defende que as empresas mais inovadoras serão aquelas capazes de promover uma simbiose entre repertórios: enquanto o jovem recém-chegado contribui com tração digital e novas linguagens, o profissional maduro estabiliza a operação com visão sistêmica, inteligência emocional em crises e bagagem acumulada de mercado.
A retenção desse capital humano, entretanto, exige enterrar o modelo de “carreira de tiro curto”. Em uma economia de longevidade onde um colaborador de 50 anos tem, facilmente, mais duas décadas de vida produtiva pela frente, o setor industrial precisa redesenhar suas trilhas de requalificação contínua e transições internas de função.
“A retenção depende da experiência cotidiana”, pontua Jessica Rosa. Para a especialista, de nada adianta a indústria abrir vagas afirmativas para maiores de 45 anos se o operário entra em um galpão onde a linguagem, as piadas e a falta de escuta ativa o lembram, diariamente, de que ele não pertence àquele espaço. Quando o ambiente acolhe e respeita, o giro de pessoal despenca e a produtividade deixa de ser só uma promessa. E não é só na teoria. A transição já começou em gigantes multinacionais citadas como modelo de inteligência de mercado, como a Unilever, que ao adotar programas de suporte médico e bem-estar focados no público 50+, registrou queda na falta de mão de obra e ganho direto de produtividade.
Reportagem: Manoel Salvador e Marya Marcondes
Fotografia: Luiza Yasumoto
Orientação: Cândida de Oliveira


