ter 19 out 2021
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Lulu x Tubby – Mero revanchismo ou reafirmação dos papéis sociais?


Após a ascensão e os inúmeros debates sobre o aplicativo Lulu, uma nova plataforma “avaliativa” está para ser lançada: o Tubby. Os próprios criadores definem: “Chegou a hora de nossa vingança. Depois de termos nossas aptidões expostas para todas as mulheres, o Tubby chegou para inverter o jogo”.

O que incomoda na ideia proposta pelos criadores do aplicativo – além do desrespeito e violência explícita das classificações – é o revanchismo exagerado nessa suposta “resposta aos ataques femininos”. Não me parece que devolver a pedrada recebida seja uma boa forma de solucionar o problema dos inúmeros egos feridos.

Aliás, cabe colocar em discussão: qual é a questão em jogo? Visto que responder ao ataques é apenas uma forma de reafirmar as opressões e classificações às quais as mulheres são expostas cotidianamente.

Segundo uma Pesquisa do Instituto Avon e do Datapopular divulgada no último  dia 29, 69%  dos homens não concordam que a mulher saia com amigos sem sua companhia e 46% acham que é inaceitável que ela use roupas justas e decotadas. Aparentemente, essas atitudes são de extrema relevância na hora de classificar naturalmente, sem precisar de nenhum aplicativo, uma mulher que merece ser respeitada.

Tanto o Lulu quanto o Tubby são transposições da vida real para a internet. Que mulher nunca soube de amigos que criam grupos ou passam horas discutindo e elencando quem são as mais e menos “gostosas” do seu círculo social? O mesmo vale para as mulheres que passam, sim, horas discutindo sobre as características dos parceiros que já tiveram. Porém a atitude masculina parece ser a única legitimada, afinal, onde já se viu mulher discutir esse tipo de coisa? Esse é um lugar social masculino. Aliás, lugar de mulher continua sendo o lar. Para 89% dos entrevistados da pesquisa do instituto Avon é inaceitável que a companheira não mantenha a casa em ordem.

Então, mulheres, deixemos o Lulu de lado e voltemos a cuidar das nossas casas. O que acham?

Uma questão pessoal

Saindo das discussões de gênero, não me parece aceitável que um relacionamento entre duas pessoas possa ser definido numa gigante seleção de hashtags que criam padrões e que supostamente devem atingir, impressionar ou decepcionar as pessoas da mesma forma. Nesse emaranhado de informações parece que a exposição virtual exacerbada retirou a individualidade e a possibilidade de gostos particulares.

Fazer o que, mas se para você a hashtag #curteromerobritto é positiva, então você não captou a essência dessas enormes redes de classificações que foram criadas. O mesmo vale para o futuro Tubby, se você encontrar a hashtag #engoletudo pode investir direto que, ao que tudo indica, a satisfação sexual é garantida. É a ideia do aplicativo.

Exposição em excesso

Aliás, que direito temos de expor alguém publicamente dentro da ideia de ‘terra de ninguém’ do virtual? Criar espaços públicos em que seu perfil é automaticamente vinculado a um aplicativo de avaliação soa tão infundado quanto expor um vídeo íntimo na internet por mera “vingança”.

As duas atitudes acabam por expor alguém a diversos julgamentos baseados em crenças pessoais, que beiram o preconceito e restringem a liberdade que cada um tem de agir e ver as pessoas de formas diferentes e também de se permitirem descobrir o que está além das  – polêmicas – #.

 

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