sex 19 abr 2024
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MAE UFPR recebe canoas indígenas centenárias que estavam no Museu Paranaense 

As peças têm cerca de 450 anos e foram encontradas em 2018 no sítio arqueológico Ciudad Real del Guayrá, no oeste do Paraná

Na última terça-feira (31), o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) recebeu em sua Reserva Técnica resquícios de duas canoas centenárias, que estavam sob a guarda do Museu Paranaense (MUPA). A cerimônia de transferência das peças foi marcada por uma reza, conduzida por indígenas Avá-Guarani, que buscavam conectar-se com os espíritos ancestrais, guardiões das canoas. Os artefatos devem ficar com o museu até que seja construído um espaço adequado para a conservação destes na região onde eles foram encontrados.

Em 2013, os indígenas da aldeia Tekoha Nhemboetê revelaram ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) vestígios arqueológicos em uma área próxima ao município de Terra Roxa (PR). A região é, desde então, tombada e monitorada por instituições que se dedicam à preservação deste patrimônio. 

Há evidências de que ali existiu, por volta do século XVI, uma cidade fundada por militares espanhóis, visando expandir a sua ocupação no território guarani. A “Ciudad Real del Guayrá”, como foi batizada pelos colonizadores, utilizou a mão de obra escrava de indígenas, sobretudo da etnia Avá-Guarani, que é predominante na região. As duas canoas estão provavelmente associadas a este contexto. 

Com cerca de 350 e 450 anos, elas foram resgatadas em 2018 de forma emergencial, em uma operação que contou com a participação do IPHAN, da Comissão de Patrimônio Cultural do Paraná (CPC-PR) e de indígenas que habitam áreas próximas ao sítio arqueológico, especialmente da aldeia Tekoha Nhemboetê

Todo o processo foi registrado e divulgado no documentário “Ygá Mirî — Resgate emergencial de canoa localizada no sítio arqueológico Ciudad Real del Guayrá”, que está disponível no YouTube.

Imagem retirada do documentário “Ygá Mirî – Resgate emergencial de canoa localizada no sítio arqueológico Ciudad Real del Guayrá”. Foto: Bruno Perea Chiossi

Na época, foi acordado entre as partes que as canoas poderiam ser levadas ao MUPA em Curitiba, desde que retornassem mais tarde à região oeste do Paraná. Apesar disso, devido a uma mudança na direção do MUPA e também por questões relacionadas ao repasse de recursos públicos, o IPHAN, que é o responsável pela preservação desses artefatos, optou por transferir as peças para o MAE, uma instituição mantida pelo governo federal e com objetivos acadêmicos de pesquisa. 

O processo de transferência das canoas, no entanto, não poderia ser realizado de maneira despreocupada. A chegada das peças na reserva técnica do museu acompanhou uma cerimônia de reza, que envolveu uma dança ritualística e cantos realizados por um grupo de indígenas Avá-Guarani. Segundo o especialista do MAE em etnologia indígena, Victor Hugo Oliveira Silva, estas canoas não são apenas objetos, mas também contêm diversas camadas simbólicas que devem ser consideradas pelo museu. 

Os Avá-Guarani entendem que os artefatos são guardados por espíritos ancestrais, rezadores, enquanto vivem na Terra. “Eles sentem saudade dos cantos xamânicos, e caso não se sintam bem acolhidos, podem provocar algum tipo de inconveniência para o museu e sobretudo para as aldeias de seus descendentes”, explica o especialista. A cerimônia então tratou-se objetivamente de uma maneira de comunicar estes espíritos de que as peças agora estavam sendo guardadas em outro lugar. Além disso, Victor explica que o sagrado não está apenas presente nas canoas, mas sim no que elas representam para essa população indígena. 

Atualmente, os grupos Avá-Guarani, que ocupam o extremo oeste do estado do Paraná, estão em um estado de conflito constante com os ruralistas da região. Devido aos movimentos migratórios que ocorreram, sobretudo, na metade do século passado, a questão da demarcação de terras ainda é precária nos entornos dos rios Piquiri, Paraná e adjacentes. As populações indígenas Avá-Guarani que habitam estes espaços encaram a acusação de serem “paraguaios buscando terras no Brasil”. 

Há 14 aldeamentos na terra indígena Avá Guarani, Tekohá Guasu Guavira, localizada entre os municípios de Altônia, Guaíra e Terra Roxa. A descoberta das canoas, para essa população, é considerada um presente de ancestrais, por conferir legitimidade à reivindicação destes povos à terra. A esse respeito, o especialista do MAE ainda explica que foi considerado o risco de que ruralistas destruíssem os artefatos, em razão dos embates com os indígenas. Um dos motivos pela qual a preservação das peças está sendo realizada em Curitiba, até que seja construído um espaço cultural em Guasu Guavira e o conflito diminua de proporção. 

Devidamente embalada, uma das canoas chega ao MAE UFPR
Foto: Eduardo Gomm Perry / Jornal Comunicação


Eduardo Gomm Perry
Estudante de Jornalismo da UFPR.
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Eduardo Gomm Perry
Estudante de Jornalismo da UFPR.
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