Mais do que fé: a influência do Frei Miguel na Vila Nossa Senhora da Luz 

Uma trajetória focada em fazer o bem ao próximo que ultrapassou gerações

Em 2026, a Vila Nossa Senhora da Luz completa 60 anos de história e é impossível falar sobre a Vila sem mencionar um dos moradores mais influentes da comunidade. Frei Miguel faleceu em 1975, mas sua história ainda é lembrada pelos moradores, principalmente aqueles que estão há mais tempo na região.

Em 1966 foi inaugurado na Cidade Industrial (CIC), o primeiro conjunto habitacional da cidade, construído sob o mandato do prefeito Ivo Arzua. O projeto foi coordenado pela Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), durante a operação de desfavelização da companhia.

Na tentativa de tornar a capital paranaense mais próxima dos modelos europeus, foram construídas 2,1 mil casas no CIC, que receberam famílias em situação de vulnerabilidade social que habitavam a região próxima do Rio Belém, Santa Quitéria e Ahú. O projeto teve a intenção de afastar parte da população curitibana até uma área pouco desenvolvida e muito longe do centro da cidade. De acordo com o portal “Paraná Histórica”, esse afastamento pretendia impedir o crescimento populacional em ocupações irregulares de Curitiba.

As manchetes que cobriam a inauguração da comunidade discorriam a respeito da Vila com imensa satisfação sobre o projeto “inovador”. O que hoje é entendido como tentativa de higienismo social, na época, principalmente para a elite curitibana, era compreendido como solução para os problemas sociais da cidade.

De acordo com a matéria, “Famílias faveladas ganham alegres casas no Barigui”, escrita para o jornal Gazeta do Povo, em 10 de novembro de 1966, os moradores em situação de vulnerabilidade social de Curitiba passaram por uma espécie de “triagem” antes de serem realocados na comunidade. Na reportagem é citado o trecho “Passaram por diversos programas de orientação de curto prazo. A maioria deles é religiosa (católica), não são dados a vícios e têm princípios de higiene naturais ou adquiridos”.

Essa escolha reflete na formação da comunidade atualmente. A maioria do catolicismo da época fundamentalizou uma relação forte entre a comunidade e a religião. O próprio nome de batismo da vila, “Nossa Senhora da Luz dos Pinhais”, já referência a religião católica como uma homenagem à padroeira de Curitiba. A presença do religioso, frei Miguel, na comunidade, também realça o catolicismo e a fé na Vila.

Humanidade e olhar para a transformação 

O legado de frei Miguel para a região revela uma trajetória marcada por uma fé que ultrapassa a igreja. Ao estimular a inserção de projetos e ações sociais na vila, o líder religioso lutou pelo acolhimento das necessidades que os moradores passavam, tendo em vista o contexto vulnerável que fazia parte do cotidiano local. Carecer de recursos básicos de habitação como água, luz e alimentação era algo comum entre muitas famílias.

A fé significou, muitas vezes, uma esperança para as batalhas diárias de desigualdade social que os moradores enfrentavam. Com um espírito acolhedor e uma simplicidade enraizada pelo trabalho missionário, Frei Miguel se tornou um exemplo de transmissão de paz ao visitar, semanalmente, as casas da Vila e ouvir as dores dos habitantes da Vila Nossa Senhora da Luz.

Sua presença marcante é relembrada com carinho pelos moradores, como é o caso de Regina Tufanini, que recorda a simplicidade e a bondade do frei.

Ele nos ensinou a importância de olhar ao ser humano, (…) a aquele que precisava de palavras, aquele que precisava de alimentos, aquele que precisava mais de um abraço e de um ouvido para ouvir.

Regina Tufanini
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O mesmo é relembrado pelo atual frei do Santuário São Leopoldo, frei José, que faz questão de exaltar o atendimento cuidadoso do frei Miguel à comunidade. “O que marca o frei Miguel é a caridade. Ele ganhava muita coisa, mas não ficava com nada, tudo ele distribuía para os pobres. Foi um homem realmente pobre, de oração e que deixou a marca na comunidade.” Relata o religioso.

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Com a sua chegada na região no final da década de 1950, o fiel estimulava a integração entre os moradores e utilizava os recursos da igreja para atender as insatisfações e queixas vivenciadas pela comunidade. Residentes que conheceram Frei Miguel relatam que ele fazia parte da rotina da vila, pois andava pelas ruas procurando novas formas de ajudar.

Pela sua marca histórica no CIC, o frei é considerado um grandes agentes de mudança, pois as suas ações levaram à implementação de espaços importantes de apoio e, inclusive, de educação como a Creche Frei Miguel, inaugurada em 1991. Hoje, o seu legado faz parte do aniversário de 60 anos da Vila Nossa Senhora da Luz pelo fato de utilizar a fé como uma impulsionadora de melhorias sociais.

Nas principais igrejas da região como a Paróquia Vila Nossa Senhora da Luz e o Santuário São Leopoldo Mandic, onde está localizado o túmulo de Frei Miguel e um ambiente destinado para homenagens dos fiéis, são realizadas missas em celebração das marcas deixadas pelo líder religioso na comunidade.

Pela importância da data comemorativa para a vila, a equipe de reportagem produziu, na íntegra, um rádiodocumentário sobre a trajetória do Frei Miguel como um convite para uma imersão no trabalho de luta por melhores condições e humanidade feito na Vila Nossa Senhora da Luz. Confira abaixo o produto sonoro completo sobre o assunto.

Reportagem de Luiza Antoniacomi e Valentina Copack.

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