qui 29 set 2022
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Mulheres ou meninas? A infantilização dos corpos femininos com deficiência

Segundo IBGE, Brasil tem 10,5 milhões de meninas e mulheres com deficiência, condição que amplia luta por direitos

Em tempos de reconhecimento dos direitos das mulheres e da ascensão dos diversos feminismos, no momento em que o Dia Internacional da Mulher, mais do que um momento de presentear com flores, é percebido como um dia de luta, há pessoas com útero tão excluídas que nem mesmo são consideradas mulheres. Vistas e tratadas como meninas sem desejos, ambições, relacionamentos e carreiras, as mulheres com deficiência vivem uma batalha própria e, aparentemente, distante, mas que em muito contribuiu com as lutas das mulheres sem deficiência.

A concepção de infantilização é uma consequência do capacitismo estrutural, que vem de um longo período de exclusão e permeia a questão da capacidade e da normatividade dos corpos para ambos os gêneros. No caso das mulheres, contudo, o entendimento de que são sempre crianças é uma questão de sexologia, como explica a professora do curso de Curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e colaboradora no Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Especiais (NAPNE)UFPR, Adriana Dalagassa:

“A sexualidade é sempre tratada com menos tabu com relação aos meninos. E aí o que acontece? Essas mulheres são infantilizadas, colocadas muitas vezes como incapazes. São tratadas como pessoas assexuadas, que não amadureceram, não têm desejos – não só sexuais, mas também enquanto profissão, enquanto relação de amizade, enquanto relacionamentos. Existe um mito de que elas não têm opinião sobre suas próprias vidas”.

A pesquisadora, escritora e influenciadora digital com deficiência Amanda Soares, de 21 anos, confirma que, para as pessoas sem deficiência, “a gente é para sempre uma criança”. “O fato é que as pessoas não são vistas para além da deficiência, na verdade elas são vistas sendo a deficiência. Então quando você assume que tem uma deficiência ou quando você não tenta esconder, e às vezes nem adianta muito, meio que você perde o gênero, a sexualidade, a identidade. Tudo fica em torno da deficiência”.

Soares já passou por diversas situações de infantilização e acredita que vá enfrentar isso por toda a vida: “Quando saio na rua, as pessoas se sentem confortáveis em me tratar pelo o diminutivo das palavras, e fazem voz de criança. Acontece sempre. Se estou com alguém, essa pessoa vai passar por todas as possibilidades de ser alguém da minha família, menos uma pessoa com quem estou ficando ou namorando, porque as pessoas sempre me veem como uma criança, como se não estivesse saindo como uma mulher.”

Com mais de 24 mil seguidores, Amanda Soares fala dos riscos de se tratar uma pessoa adulta com deficiência como uma criança.

E as situações capacitistas não param por aí. As pessoas se impressionam quando ela fala sobre sexo ou qualquer coisa considerada adulta. “Até mesmo o papo menstruação é ainda tabu para mulheres com deficiência. A gente não consegue, hoje, bater um papo com mulheres da mesma forma que uma pessoa sem deficiência, por exemplo. Normalmente, a gente fica numa questão mais infantil, as pessoas não falam como se a gente tivesse crescido”, afirma Soares.

Embora o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146 de 2015) represente um avanço na luta pelos direitos das pessoas com deficiência, assegurando que não sejam chamadas, por exemplo, de incapazes, provendo escolas, descontos para compra de veículos, passe livre nos transportes terrestres  em  linha  interestadual,  descontos  e “prioridade”  no  plano  de  habitação  Minha  Casa, Minha  Vida  e  prioridade  nos  atendimentos em estabelecimentos diversos, a realidade ainda é de uma exclusão social importante. 

As pessoas com deficiência ainda são raridade nos ambientes de lazer, de trabalho e nas instituições de ensino não especializadas. 

Autopercepção e autoestima

De acordo com a digital influencer, a infantilização afeta profundamente a autopercepção e a autoestima das pessoas com deficiência, já que dificulta o desenvolvimento delas enquanto mulheres: “Sinceramente é até difícil de eu entender o que é ser mulher, porque a gente é tão desvalorizada, inferiorizada, humilhada, que não parece que a gente tem direito de ser mulher. A gente não entende esse imaginário de mulher. Acho que pra gente se descobrir enquanto mulher é muito mais demorado que para outras pessoas. Isso implica em muitos fatores. A gente pode sofrer machismo sem saber, achar que é inferior às outras mulheres, não conseguir lutar nas mesmas batalhas por causa disso. Enfim, não ser contemplada, inclusive pelas outras mulheres, por isso.”

Como terapeuta ocupacional, Dalagassa trabalhou com muitas jovens com deficiência que tinham dificuldade de se entender enquanto mulheres, de perceber seus corpos. A baixa autoestima é uma consequência, reforçada por uma sociedade que não aceita o diferente e prefere falar em “normalização” do corpo, em vez de adaptar-se à diversidade. Faltam políticas públicas relacionadas aos direitos sexuais para todas as mulheres, mas políticas específicas para as mulheres com deficiência são ainda mais raras.

Amanda Soares sofre diariamente com a infantilização da mulher com deficiência. Foto: reprodução / Instagram

Pessoas com deficiência e feminismo

Para Soares, a verdadeira inclusão passa por começar a repensar o feminismo, já que uma de suas bases é o entendimento de que as mulheres precisam ser independentes. “Quando se fala em independência, se fala em não depender, e isso é tóxico para as pessoas com deficiência, porque elas naturalmente dependem das outras pessoas”, diz a escritora. “Não é que as pessoas sem deficiência não dependam também, é que a dependência das pessoas sem deficiência foi naturalizada. Aí fica muito mais difícil conversar, porque as pessoas começam a compreender que a dependência é tóxica e, logo, todas as nossas relações são tóxicas, que a gente é tóxica.”

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 8,4% da população brasileira acima de dois anos – o que representa 17,3 milhões de pessoas – têm algum tipo de deficiência. Dentre elas, 10,5 milhões são meninas e mulheres, essencialmente excluídas da luta feminista. 

A escritora afirma que é preciso entender que a dependência também é uma forma de liberdade, até porque todo mundo depende de outras coisas e pessoas. Depende-se do motorista do ônibus para a locomoção, do ar para a respiração, da natureza, em geral, para viver. Trata-se de uma cadeia de dependência pela qual os seres humanos transitam. “É necessário começar a naturalizar que as mulheres são sim livres ao serem dependentes. A dependência não é tóxica naturalmente. Ela acontece de maneira tóxica quando o ser humano a direciona para ser tóxica, quando ele a percebe como uma vulnerabilidade e quer usar isso para exercer poder sobre a outra pessoa”, reflete Soares.

Rafaela Moura
Estudante de Jornalismo da UFPR.
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Estudante de Jornalismo da UFPR.