seg 18 out 2021
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O ponto crucial da música autoral curitibana

“Queremos continuar fazendo barulho, cara. Nossa missão é fazer barulho”, conta Geraldo Jair Ferreira Júnior, encostado no balcão de madeira do casarão antigo na Avenida Manoel Ribas, que abriga o 92 Graus The Underground Pub desde 2012. Horas antes de abrir a casa, J.R., como é conhecido, é o único no bar. Ele chega antes de qualquer um para checar o estoque de bebidas, organizar o local e até fazer pequenos consertos pela casa.

O silêncio, incomum num dos maiores palcos do underground curitibano, só é quebrado por um freezer barulhento e pela voz calma de J.R. “Eu tocava em bandas e não tínhamos muito espaço. A gente foi garimpando alguns teatros e bares e não era fácil, por ser música autoral”, relembra.

Quando foi desativada a lavanderia que funcionava num imóvel da família de sua esposa, o músico logo decidiu o destino do velho porão. “Era tudo que a gente queria: um lugar pra tocar”. A ideia de ser um espaço aberto a esses artistas “marginais” foi a faísca que deu origem ao 92 Graus, em 1991.

J.R., fundador do 92 Graus, lançou uma campanha no site Kikcante para tentar salvar o espaço (Foto: Divulgação)
J.R., fundador do 92 Graus, lançou uma campanha no site Kikcante para tentar salvar o espaço
(Foto: Pri Oliveira)

Hoje, 24 anos e mais de 10 mil apresentações depois, J.R. encara um desafio que pode ser decisivo na história do 92 Graus. Os donos do imóvel onde funciona o bar decidiram vendê-lo e a preferência de compra de J.R. já expirou. O imóvel, avaliado em R$800 mil pode ser comprado por outro interessado a qualquer momento. O 92° pode estar próximo do fim, pois, como explica J.R., “já mudamos de lugar sete vezes, entre idas e vindas. Não temos mais saúde pra montar e desmontar tudo”.

A salvação do bar pode ser o financiamento coletivo que J.R. lançou no site Kickante. A “vaquinha” virtual foi batizada como “Espaço Cultural 92 Graus, o show não pode parar” e pretende arrecadar R$523 mil com doações a partir de 20 reais. A campanha vai até o dia 29 de julho e já conta com vários vídeo-depoimentos de músicos, atores e jornalistas que foram influenciados pelo 92 Graus. “Estamos apelando para essas pessoas que saíram de Curitiba ou passaram por aqui e que hoje têm uma carreira grande. Elas conhecem nossa história e estão vestindo a nossa camisa”, diz J.R.

O 92° e a música autoral de Curitiba

Depois de mais de duas décadas, a proposta ainda é a mesma. “Quem tem uma música pra mostrar e não tem espaço vem pra cá. Isso já está bem registrado no nosso DNA”, define J.R. Tocando pela 3ª vez no 92°, o guitarrista da banda Armas em Queda, Alan Black, acredita que ter bares que abram seu palco à cena autoral “é o que tem que ser feito para a cena crescer”. “A gente correu por pelo menos um ano tentando vários bares e é bem difícil encontrar lugares como o 92”, comenta Alan.

O guitarrista e vocalista Vlad Urban fez parte da banda Catalépticos, que se tornou referência no psychobilly nacional. Hoje toca com a Sick Sick Sinners e ainda participa da história do 92°. “Comecei a tocar com [a banda] Os Cervejas lá em 1991. A gente fez um dos primeiros shows do 92”, conta. O respeito e a admiração de Vlad por J.R. é só um dos muitos exemplos da relação entre o 92 Graus e os artistas que fazem parte da cena autoral curitibana.

“O ‘Jota’ é um cara incansável. Mesmo sem que ele saiba, o incentivo cultural que ele dá é gigantesco. É um trabalho que qualquer lei de incentivo à cultura deveria apoiar, porque o 92 é um celeiro de bandas e artistas da região”, afirma Vlad.

Bruno Novak toca na banda celta Gaiteiros de Lume e resume a torcida dos músicos da cidade pela continuidade do trabalho de J.R.“Toda a dificuldade que ele já enfrentou ao longo do tempo. Tudo o que ele já superou, o quanto ele se dedicou. E o que ele obteve em troca? Não muito, além da gratidão de centenas de músicos”, recorda Bruno. “Muita banda começou ali sua história. A música local não seria a mesma sem o 92 Graus”, encerra. 

O antigo e o novo em tempos de mudança

Novos espaços se formam à medida que os espaços tradicionais são atingidos pelas circunstâncias. Com uma nova proposta entre os pontos culturais curitibanos, o Damadame foi aberto em 2013 pelo casal paulistano Daniel Silveira e Paola Aniello, junto com o amigo curitibano Tyago Martins. Sediado numa garagem da Rua Tapajós, no bairro São Francisco, o Damadame trazia a multiculturalidade de São Paulo aliada à impessoalidade de quem mora no ambiente de trabalho. Loja de antiguidades, casa de shows, sebo, bar. Tudo funcionando na mesma garagem.

Num passeio de fim de ano, o casal encontrou o lugar que sediaria o Damadame por dois anos. “Era um bazar de uma senhora. Fechamos negócio com ela naquele mesmo dia. Em dois meses, colocamos um balcão e fizemos o bar. Aí começamos a comprar equipamento e fizemos um local para as bandas. Foi quando a gente entrou de cabeça no underground da cidade.”, lembra Daniel.

A nova sede do Damadame, no bairro Mercês deve ser inaugurada em breve (Foto: Douglas Maia)
A nova sede do Damadame, no bairro Mercês deve ser inaugurada em breve
(Foto: Douglas Maia)

Ao lado de Paola no quintal da casa antiga, no bairro Mercês, que em breve abrigará o novo Damadame, Daniel fala dos planos para o futuro do espaço. “Hoje foi o último dia da mudança. Agora temos que organizar as coisas para voltar a funcionar”, conta. Para ele, “o tato de não se importar em conhecer um pessoa nova é o que faz a diferença no Dama”.

Funcionar como um coletivo que englobe diversas formas de arte – não só uma casa de shows – continua sendo o objetivo do Damadame. Agora, de casa nova, as possibilidades são muitas. “A princípio, vai ser um café com estúdio de tatuagem e uma área de exposições de arte e oficinas. Na garagem a gente pensa em fazer um estúdio, pra dar um suporte para a música autoral. Ainda estamos estudando como aproveitar melhor cada espaço, já que a casa é bem grande”, planeja Paola.

O casal conta ainda que o novo Dama também deve se tornar mais diurno. “A ideia é fazer esse espaço ser importante não só pra galera do underground, mas fazer com que qualquer pessoa de qualquer prédio do entorno possa vir aqui pegar um livro e sinta que esse espaço é dela também.”

 

 

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