“Mão de obra para apertar botão”: o que o corte das disciplinas de Humanas no Novo Ensino Médio revela sobre o projeto educacional do Paraná
Sob a justificativa de "flexibilização" e adequação à lei federal, governo Ratinho Jr. usa redução da carga horária de disciplinas de humanas para inflar métricas e plataformizar o ensino público
Adequação do NEM na educação do Paraná não pode ser vista de maneira simplista ao considerar o histórico de agressões do estado à categoria. Sobreposição: Marya Marcondes com fotos de Gustavo Gomes (quadro) e Henry Milléo.
Em dezembro de 2025, o Governo do Estado do Paraná, sob a gestão de Ratinho Jr., oficializou a Instrução Normativa Conjunta 15/2025, que estabelece a nova matriz curricular para a rede estadual de ensino. Vendida sob um discurso oficial de “modernização” atrelada ao Novo Ensino Médio (NEM), a medida entregou um esvaziamento das disciplinas de Ciências Humanas. Filosofia, Sociologia, História, Geografia e Artes perderam seu espaço na formação dos estudantes paranaenses, enquanto a gestão estadual escolhe concentrar quase todos os seus esforços em Matemática e Língua Portuguesa. Em um estado com histórico contra professores como é o Paraná, a análise não pode ser feita de forma simplista.
Nos corredores das escolas públicas, nas universidades e nos bastidores do sindicalismo docente, o diagnóstico da atual conjuntura é comum: não se trata de uma mera reorganização técnica da carga horária. O que se desenrola no Paraná, com apoio dessa redução, é um projeto político deliberado que busca transformar o estudante da escola pública em uma mão de obra acrítica e altamente funcional, inflando os indicadores de avaliação estadual às custas de uma verdadeira formação cidadã e das condições de trabalho do professor.
Aprovado inicialmente pela Lei nº 13.415/2017 e modificado recentemente pela Lei Federal nº 14.945/2024, o NEM reestruturou a educação básica brasileira ao dividir a grade escolar em duas frentes: a Formação Geral Básica, que agora conta com 2.400 horas-aula, e os chamados Itinerários Formativos, que ocupam 600 horas-aula. A nível nacional, a reforma abre margem para que cada rede estadual reorganize o currículo.
Com a modificação, houve aumento da extensão da Formação Geral Básica, o que abriu a possibilidade do aumento da oferta das disciplinas de Sociologia e Filosofia. “No entanto, desde a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sob fortes críticas dos setores progressistas, sabíamos que o currículo estaria orientado para uma lógica neoliberal. Os conceitos de “competência e habilidade”, muito comuns nas décadas de 90, foram reativados pelos atuais reformadores educacionais e imprimem à Base Nacional a conformação à lógica atual do capital”, afirma o Sindicato dos(as) Professores(as) e Funcionários(as) de Escola do Paraná (APP Sindicatos).
No Paraná, essa “flexibilização” foi consolidada em dezembro de 2025 com a publicação da Instrução Normativa Conjunta 15/2025 pela Secretaria de Estado da Educação (Seed), que definiu a matriz curricular para o ano letivo de 2026. Sob o argumento oficial de se adequar às diretrizes do Ministério da Educação e à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o documento estadual promoveu um enxugamento das Ciências Humanas (como Filosofia, Sociologia, História e Geografia). O espaço dessas matérias foi substituído por uma concentração ainda maior em Matemática e Língua Portuguesa. Além disso, a normativa também instituiu mudanças polêmicas, como a implementação de horas semanais de ensino híbrido (EAD) para os estudantes do período noturno, parcela que costuma englobar jovens trabalhadores.
O silenciamento na sala de aula e o impacto direto nos estudantes
Para quem vive diariamente a sala de aula, a exclusão das humanidades retira o pilar fundamental para o questionamento sobre a sociedade. Segundo relata um estudante do 3º ano do Ensino Médio, a mudança imposta pelo estado sob a justificativa de dar foco a competências formativas tem o efeito reverso. “Na prática acho que reduz a formação crítica. Tiraram ou diminuíram horas de História, Sociologia, Filosofia e Artes, matérias nas quais a gente discute política, sociedade e pensamento crítico. As opções que sobraram nos itinerários parecem mais técnicas e preparatórias”, analisa o jovem.
O impacto imediato na rotina dos alunos chega a ser alarmante e fragmenta saberes contínuos. Uma aluna do 1º ano do Ensino Médio conta que a disciplina de História Geral foi fatiada em conhecimentos estritamente regionais, como História, Geografia e Arte do Paraná, com uma frequência ínfima. “O professor de Geografia do Paraná dá aula em uma semana, a próxima aula dessa matéria será daqui 3 semanas”, relata.
Medidas intensificam disparidades entre escolas particulares e públicas. Foto: Marya Marcondes.
Além do retrocesso pedagógico, o modelo aprofunda a desigualdade entre estudantes da rede pública e da rede privada, já que muitos dos processos seletivos não aderiram a essa redução. Como desabafa o estudante do 3º ano: “Muitos vestibulares cobram conteúdos dessas matérias, e com menos aulas fica mais difícil pegar todo o conteúdo. Quem não tem grana para reforço fica em desvantagem.”
A “maracutaia” dos dados
Mas por que a Seed decidiu suprimir e limitar justamente as disciplinas que desenvolvem a capacidade de análise crítica de conjuntura? Uma das respostas, segundo pesquisadores e educadores, está na prioridade dada pelo governo Ratinho Jr. aos rankings e às avaliações de larga escala.
Em seu posicionamento institucional, a APP-Sindicato critica a nova matriz curricular proposta pelo governo Ratinho Jr. para o Ensino Médio. A direção estadual do sindicato expõe a tática da gestão: “A ênfase em Matemática e Português (ou língua materna) deve-se, entre outras razões, à possibilidade de serem conteúdos amplamente avaliados por testes de larga escala que servem de comparação entre os estados, como no caso do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), ou entre nações – exemplo, o Programa Internacional de Educação de Estudantes (PISA).” O documento sindical explicita que a valorização desses eixos é uma opção política para atender a interesses de mercado, destacando que “Ratinho Jr. e Roni Miranda [secretário de Educação] estão empenhados em vender o estado do Paraná como o que tem a melhor educação do Brasil. Isso serve aos propósitos eleitorais de ambos.”
A jornalista e integrante da equipe de comunicação da APP-Sindicato, Louize Lazzarim, é contundente ao explicar as manobras com as métricas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). “Eles fazem uma “maracutaia” total para alterar os dados. Por exemplo, a frequência. Eles tão tirando o ensino noturno; o aluno que geralmente falta mais é o que trabalha durante o dia e estuda à noite. E aí, tirando o noturno, essa questão da frequência vai ser burlada”, expõe. Louize é responsável pela autoria do livro-reportagem Sem Intervalo para Sorrir —no qual relata quando, em 2015, a Polícia Militar do Paraná reprimiu violentamente um protesto de professores e servidores estaduais em Curitiba.
“Querem que os alunos se formem e vão para trabalhos operacionais que é só apertar uma tecla, não pensar muito, uma mão de obra para apertar botão”
Louize Lazzarim, jornalista
A profissional ressalta que o corte no pensamento histórico e sociológico atende a intenção de moldar trabalhadores passivos para a economia estadual. “Eles querem que os alunos só saibam fazer o que eles vão usar no no mercado de trabalho, digamos, querem que os alunos se formem e vão para trabalhos operacionais que é só apertar uma tecla, não pensar muito, uma mão de obra para apertar botão”, afirma a jornalista.
Política dos Itinerários formativos e adoecimento da categoria
O apagão da área de Humanas cobra um preço altíssimo dos professores da rede. Com a retirada de disciplinas essenciais, o governo introduziu opções de “Itinerários Formativos” baseados em saberes tecnocráticos e de empregabilidade, forçando o corpo docente a ministrar conteúdos alheios à sua formação.
Em seu trabalho, Louize analisa que, com o golpe à ex-presidenta Dilma Rousseff em 2016 levando ao poder o ex-presidente Michel Temer — até então, vice-presidente —, foram inseridas medidas neoliberais na educação, como a Reforma do Ensino Médio. Posteriormente, essa Medida Provisória foi aprovada como lei, a qual alterou vários artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
No Novo Ensino Médio, estudantes precisam escolher qual itinerário seguir. Foto: Marya Marcondes.
Nos Itinerários Formativos Integrados, o estudante deve escolher: 1) o Itinerário Formativo Integrado de Linguagens e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais; e 2) o Itinerário Formativo Integrado de Matemática e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Ou seja, para Louize, caso o estudante opte pelo Itinerário Formativo Integrado de Matemática e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias, as disciplinas de humanidades não serão mais ofertadas a partir do 2° ano. No entanto, se ele escolher o Itinerário Formativo Integrado de Linguagens e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais, as humanidades serão oferecidas, mas ainda com uma carga horária menor do que disciplinas como Educação Financeira.
Louize reconhece que, com esse modelo neoliberal que foi acrescentado na educação, se acentuou ainda mais uma prática de desvalorização do professor. Assim como pontua a APP-Sindicato em matéria de 2024, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) realizou uma pesquisa entre pais e alunos para traçar a taxa de aprovação dos professores estaduais. O levantamento apontou que 96% dos estudantes do ensino médio e 94% do ensino fundamental aprovam o trabalho dos professores. Entre os pais e mães, o índice de satisfação é de 96%. No texto de divulgação dos resultados, a Seed teceu diversos elogios à categoria, mas esqueceu daquilo que é o principal meio de promover a valorização do profissional da educação: a garantia dos direitos.
Desde 2019, quando foi eleito pela primeira vez como governador do Paraná, Ratinho Junior impôs uma perda salarial de 34% à carreira docente, além de adoecimentos e diversas outras formas de sucatear a profissão, como pontua a APP-Sindicato. No Paraná, a implementação da Reforma do Ensino Médio teve início no ano de 2022, com a publicação de alguns documentos em 2020 e 2021 pelo governo do estado. No entanto, as questões relacionadas ao neoliberalismo ocorriam no estado desde o fim do último mandato de Roberto Requião, que foi dos anos de 2006 a 2010, destaca a organização.
Para a jornalista, o Governo Temer (2016-2018) ainda inspira a Seed/PR a determinar a forma como a educação é organizada no estado, pois realiza parceria com grupos empresariais, a exemplo do acordo de cooperação entre o Estado do Paraná e o Instituto Lemann firmado pelo governador. A parceria teve como objetivo desenvolver um programa de Gestão Pública para melhorar os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Recentemente, com a política de cívico-militarização das escolas do Paraná, o Ideb tem sido utilizado para justificar a implantação do modelo: O Ideb é calculado com base na taxa de alunos(as) que passam de ano e no resultado de uma avaliação do MEC que mede o aprendizado em português e matemática. Para a APP Sindicato, excluindo os(as) estudantes que não se encaixam nos padrões do modelo militarizado e as turmas do ensino noturno, as escolas militarizadas se esquivam de problemas sociais a troco de reunir condições favoráveis para aumentar a nota do Ideb, sem necessariamente promover políticas concretas de melhoria da qualidade da educação.
O pesquisador Bruno Henrique Lous, doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que a introdução dessas “pseudodisciplinas” esmaga a identidade e o preparo do professor. “Diversos professores estão sendo realocados para uma disciplina de inteligência artificial, por exemplo, que a Secretaria de Educação colocou na grade dos alunos. E o que acontece é que esses professores estudaram por muitos anos uma coisa em específico e não se tem essa formação para essa disciplina nova”, exemplifica Lous.
Para um professor de História da rede estadual, que preferiu não se identificar, a carga horária retalhada gera uma sobrecarga pedagógica impossível de ser gerida com qualidade, somada à baixa adesão dos estudantes no modelo de atividades on-line. “Você posta um quiz no ambiente virtual ou posta uma atividade e você tem ali 5, 6, 7, no máximo 10 % de retorno em relação a isso”, relata o docente, reforçando que essa divisão enfraquece politicamente os trabalhadores. Como o professor bem define, o governo encontrou um modo de impedir greves unificadas: “Fragmentar esse desmonte pedagógico foi a estratégia que o governo utilizou e deu certo. Deu certo porque a gente vai perdendo aos poucos e sempre de uma categoria específica.”
Para dar conta da jornada, os professores se veem exaustos, também fisicamente. O secretário executivo Educacional da APP-Sindicato, Vandré Alexandre da Silva, nota que o professor é castigado fisicamente “tendo que se deslocar por mais que uma, duas, três ou quatro escolas, isso geralmente no mesmo dia.”
A gravidade desse enfraquecimento contínuo também é alvo de repúdio pela comunidade universitária. Em nota pública, a Seção Sindical dos Docentes da Universidade Estadual do Paraná (Sindunespar) acusa o governador de possuir um “projeto deliberado de desresponsabilização do Estado e de mercantilização da educação pública”, denunciando que sua administração “trata a educação como área de investimento em ações pontuais de baixíssimo custo, ineficazes ou prejudiciais, mas aparentemente impactantes e eleitoralmente convenientes”. O sindicato atesta que debater melhorias sem tratar da precariedade do trabalho é apenas “propaganda vazia”.
Plataformização
Esse modelo mercadológico consolidou no Paraná o que tem sido chamando de “plataformização do ensino”. O investimento público é desviado do suporte humano para licenças de softwares privados de corporações de tecnologia. Entre 2021 e 2024, o Governo do Paraná destinou R$153,3 milhões para a contratação de plataformas digitais educacionais. O número foi apurado a partir de dados do Portal da Transparência e sistematizado no artigo “Do trabalho digital ao ensino plataformizado”, da pesquisadora e professora da UFPR, Carolina Batista Israel.
Plataformas de ensino já fazem parte do dia a dia das aulas dos professores no Paraná. Foto: Marya Marcondes.
O doutor Bruno Lous aponta que essas ferramentas automatizadas retiram o cerne do que é aprender em conjunto. “Você não cria interação entre professor e o aluno que seria essa zona proximal: o aluno aprenderia com o que o professor tem a ensinar ele e o computador não tem isso porque ele te diz exatamente onde você errou e você vai lá e corrige”, detalha o pesquisador.
O governo percebeu que se fragmentar as ações, ele desmobiliza [a categoria]
Professor de História da rede estadual
Para o professor de História, esse desmonte histórico é uma tentativa de não criar uma identidade entre escola e comunidade. “A ideia é justamente essa, né? Quando você tem uma identidade, você tem uma coesão, você luta por uma coisa de maneira compacta, ela é muito mais eficaz. Então, de um tempo para cá, o governo percebeu que se fragmentar as ações, ele desmobiliza [a categoria]”, ressalta.
Trecho do livro “Sem Intervalo para Sorrir: memórias de 29 de abril de 2015, o dia em que professores entraram em batalha para defender o ensino público” de Louize Lazzarim sobre o dia 29 de abril de 2015. Captura de tela: Marya Marcondes.
Exemplo para municípios
A Prefeitura de Curitiba, na gestão do atual prefeito Eduardo Pimentel (PSD), mesmo partido de Ratinho Jr, diminuiu a carga horária de aulas de história e geografia na grade do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, conforme alterações definidas na Instrução Normativa nº 16, publicada em dezembro de 2025. A norma também estabelece a adoção da docência compartilhada, com a formação de trios de professores responsáveis por duas turmas.
Além da redução dos conteúdos de Ciências Humanas, a nova grade recupera as aulas de língua inglesa, porém apenas no 3º ano. Em 2025, a cidade já havia ofertado cursos de línguas no 2º e no 4º ano por meio do programa Multilíngues Mirins, que substituiu o antigo Curitibinhas Poliglotas, criado na gestão de Rafael Greca.
O que diz a Seed
Questionada sobre a redução das disciplinas no estado, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) assumiu uma postura defensiva e eximiu-se da responsabilidade política do corte. Em nota, a Secretaria afirma que “as adequações na matriz curricular do Ensino Médio seguem determinações da legislação federal e não são uma decisão autônoma da rede estadual”, amparando-se nas diretrizes do Ministério da Educação (MEC) e na Lei Federal nº 14.945/2024. O governo sustenta que a nova organização “busca garantir o cumprimento dos direitos de aprendizagem dos estudantes.” Embora, como já mostrado, a nível nacional, a reforma abriu margem para que cada rede estadual organizasse as demais áreas, além de que o foco não é apenas a implementação do NEM, mas essa “maracutaia” dos dados para benefício da gestão estadual.
Contudo, os sindicatos alertam que as escolhas sobre o que complementar e onde colocar a verba pertencem sim ao estado, e os danos são irreparáveis. Como sintetiza de forma direta o secretário Vandré da Silva: “Quem perde é a sociedade inteira, que é uma geração que não está tendo direito aos saberes de forma integral. Está sendo reduzido, está sendo impedido. Eles estão sendo cerceados do conhecimento.”
Precisamos de fato de um currículo que olhe para educação pública como direito social
Vandré Silva, secretário executivo educacional da APP-Sindicato
Diante do colapso anunciado, um Grupo de Trabalho (GT) da APP-Sindicato iniciou as formulações de uma matriz curricular alternativa que encare “as humanidades como eixo da emancipação intelectual” dos estudantes paranaenses. Como conclui o secretário da APP-Sindicato, “nós precisamos de fato de um currículo que olhe para educação pública como direito social e não como redução de custos ou controle ou apenas é voltada para a mensuração de índices.”
Pauta e produção: Luísa de Cássia, Marya Marcondes e Vitor Benini
Apuração e entrevistas: Marya Marcondes e Manoel Salvador
Texto: Marya Marcondes
Revisão do texto: Luísa de Cássia
Repórter podcast: Gustavo Gomes
Suporte e edição podcast: Gustavo Gomes, Manoel Salvador e Vitor Beninni