A divulgação científica no Brasil apresenta um crescimento nos últimos anos. Em artigo, o Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Ronaldo Lopes Oliveira, constata que em relação a 2023, foram publicados 3.538 artigos científicos a mais em 2024. Número que representa um aumento de 6% na produção de material científico no Brasil.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com mais de 6,5 milhões de cidadãos com deficiência visual — sendo 500 mil cegas e cerca de 6 milhões com baixa visão — e 10 milhões de pessoas surdas, das quais 2,7 milhões possuem surdez profunda. Quando somadas, com inclusão de casos com ambas as deficiências, essas pessoas representam 8,22% da população brasileira.
Com a expressividade destes números e com o aumento de distribuição dos materiais científicos, era de se esperar uma crescente na acessibilidade dessas produções. Quando se trata da produção científica em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Braille, o crescimento foge do esperado.
A partir da promulgação da Lei nº 10.436/2002 em 2002, a produção científica sobre Libras foi fortemente impulsionada. Entre 1987 e 2001, foram publicados 39 artigos sobre Libras. Depois da promulgação da lei, entre 2002 e 2014, 202 artigos foram publicados — um aumento de 417% na média de publicações anuais. E com junção das melhorias tecnológicas e uso o de vídeos como alternativa científica, novas formas de propagar a ciência em Libras são possíveis. Mas isso não soluciona todos os problemas.
A física Ana Carolina Guilhen verifica que ainda existe a falta de incentivo a divulgação científica em Libras e que isso acontece devido a exigência de uma tradução gramatical complexa do português para a Libras. Segundo ela, a língua de sinais funciona com uma lógica estrutural diferente da escrita em português.
“Se você está fazendo vídeo em Libras, você não está interpretando do português para Libras. A língua e a comunicação principal desse vídeo são a libras. Então você o faz pensando propriamente na estrutura gramatical da Libras” explica a pesquisadora. Muitas vezes, alguns termos científicos não têm tradução para Libras. Não têm um sinal específico. “Existem alguns termos na física, que é o meu caso, que não existe uma tradução certa na Libras”, relata Ana.
Para resolver esse problema, é necessário encontrar soluções visuais, como imagens ou classificadores — maneira de representar algo com gestos, a fim de simbolizar um termo ou objeto que não tem um sinal próprio.
“É claro que melhorou, mas ainda tem muito a melhorar, ainda tem muito preconceito e muitas barreiras que têm que ser quebradas”, alerta Ana.
Desuso do Braille
Em Braille, a situação da produção científica nacional é preocupante. Nos últimos 15 anos, 7 publicações de relevância nacional foram encontradas em pesquisa feita pelo Jornal Comunicação. O mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) Wagner Bittencourt, indica alguns motivos para a falta de produções em Braille.
“Primeiramente, o Braille não é uma língua. É uma forma de se pensar o alfabeto diferente. Com o avanço da tecnologia a gente lê muitos leitores de tela. A leitura em Braille é muito mais lenta, gasta muito papel. É custoso, não vejo muita eficiência”. O profissional, que também é deficiente visual, explica.
Com as novas tecnologias, surgiram novas formas de garantir acesso à leitura que são menos complexas que o Braille. Aplicativos como o Voice Aloud Reader, transformam textos, artigos e escritos no geral, em áudios. Outros como o Be My Eyes fornecem um serviço de assistência remota. Quando uma pessoa com deficiência visual pede ajuda, o aplicativo o conecta com o primeiro voluntário disponível para ajudá-lo. O Orcam My Eye são óculos inteligente que produz um áudio-descrição do que a câmera acoplada à armação capta. Além do dispositivo Linha Braille, que quando conectado ao computador, possibilita a leitura do conteúdo.
“É quase obsoleto”
Wagner Bittencourt, mestre em Filosofia e deficiente visual.
Por muito tempo o Braille foi a principal forma de leitura para pessoas com baixa visão e cegueira, com novos meios mais práticos de interpretação de conteúdos, nos dias de hoje “é quase obsoleto”, revela Bittencourt.
As poucas produções sobre Braille ou com adaptação para esse sistema de leitura são mantidas sob responsabilidade de instituições tradicionais como o Instituto Benjamin Constant, do Rio de Janeiro, e a Fundação Dorina Nowill, de São Paulo as quais, segundo a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), têm um acervo com mais de seis mil títulos produzidos e dois milhões de volumes impressos em braile. Comumente, no entanto, esses materiais são escritos para fins didáticos e paradidáticos, e não científicos.
Seção Braille na Biblioteca Pública do Paraná
A Biblioteca Pública do Paraná, localizada no centro de Curitiba, possui uma seção inteira destinada a livros traduzidos em Braille ou em áudios e outras formas alternativas, como os códigos QR, que direcionam para uma versão em áudio dos livros. O espaço também conta com materiais educativos sobre o Braille e com profissionais especializados no auxílio de pessoas cegas.

Foto: João Pedro Mello

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Foto: João Pedro Mello.

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