qui 21 out 2021
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Projeto de estudantes digitaliza documentos norte-americanos da ditadura no Brasil

Em primeiro de abril de 2014 completou-se 50 anos do Golpe Militar de 1964. E, esse também é o ano de lançamento de um projeto audacioso de parceria entre a Brown University e a Universidade Estadual de Maringá (UEM) sobre a ditadura. Denominado “Opening the Archives” (tradução: abrindo os arquivos), o projeto visa digitalizar cerca de 10.000 documentos de posse dos Estados Unidos, sobre o período da ditadura brasileira. O objetivo dos coordenadores do projeto, James N. Green e Sidnei Munhoz, é tornar o acervo acessível a todos. Em entrevista ao Jornal Co:::unicação, o professor da UEM Sidnei Munhoz comenta sobre como se deu o processo de digitalização e como será usado esse material.

O Projeto “Opening the Archives” é uma parceria da UEM com a Brown University. Foto: Acervo de Priscila Borba da Costa

Jornal Co:::unicação: Como se iniciou o Projeto?

Sidnei Munhoz: Formamos um grupo com doze estudantes. Foram dois da UEM (Antonio Bianchet Jr. e Priscila Borba da Costa) e dez da Brown, além do professor James N. Green e eu. Rumamos para Washington onde iniciamos os trabalhos no dia 3 de junho de 2013. No National Archives and Record Administration (Nara) fomos recebidos por uma equipe da diretoria. No primeiro dia, fizemos nosso cadastro, recebemos uma sala exclusiva para nosso uso durante a execução do projeto (conforme nos informou um dos diretores, esta foi a primeira vez que o Nara concedeu uma sala exclusiva a um grupo de pesquisa). Depois, participamos de reuniões com membros da diretoria e técnicos. Sublinho o papel ímpar desempenhado por David Langbart que colocou os seus 36 anos de experiência no Nara ao nosso dispor. Recebemos um treinamento especializado, para compreendermos a metodologia empregada na organização do acervo documental daquela instituição. Depois nos pusemos a trabalhar.

JC: Como aconteceram as digitalizações?

Munhoz: Eu fiquei duas semanas nos EUA, e a equipe de estudantes trabalhou por dois meses e meio. Eles digitalizaram os documentos, aplicaram OCR nas imagens digitalizadas e, depois alimentaram, um banco de dados. Posteriormente, por cerca de 6 meses, estudantes da Brown e da UEM leram documento por documento e os indexaram por meio de palavras chaves. Na sequência, técnicos alimentaram o Brown Digital Repository existente na biblioteca daquela instituição. O material disponível na Internet é resultado de todo esse trabalho.

JC: Como aconteceram as seleções dos estudantes para participar do Programa?

Munhoz: Eu selecionei estudantes que trabalhavam com a história da ditadura militar brasileira ou com história dos EUA e que possuíam um ótimo domínio da língua inglesa. Neste universo, Antonio e Priscila foram as escolhas naturais.

Doze estudantes e dois professores são os responsáveis pela digitalização dos documentos. Foto: Acervo de Priscila Borba da Costa

JC: Após o fim da digitalização, o material será de domínio de qual instituição?

Munhoz: O site está hospedado num domínio da Brown e terá um espelho na UEM. O endereço será público, portanto, o acesso será irrestrito a qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo.

JC: Qual a importância do Projeto para o Brasil?

Munhoz: Os EUA e o Brasil são os dois maiores países do continente. Regra geral, ao longo do tempo mantiveram intensas e cordiais relações. Contudo, ao se analisar esse processo, se observa momentos de maior proximidade nessas relações e momentos de tensões e distanciamento. Queira-se ou não, historicamente, os EUA são o maior parceiro do Brasil, mas ao mesmo tempo muitas vezes atuam como uma espécie de adversário quando os interesses do Brasil se distinguem daqueles defendidos pelos EUA. Hoje, se estuda muito pouco os EUA no Brasil. Isso é inadmissível. É extremamente importante conhecer melhor os EUA, a sua história e a história das relações entre os EUA e o Brasil. O “Opening the Archives Project” tornará acessíveis milhares de documentos sobre as relações entre os dois países e isso será de inestimável valia para o nosso país.

JC: Houve verba do governo para ele acontecer?

Munhoz: A urgência da implementação do projeto e a sua relevância levaram tanto a UEM quanto a Brown a apoiarem a iniciativa com recursos próprios. Na UEM, os recursos foram viabilizados pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-graduação, por intermédio do Pró-Reitor Mauro Ravagnani.

JC: Há previsão para mais parcerias UEM-Brown?

Munhoz: O projeto terá continuidade nos próximos anos, uma vez que os dez mil documentos disponíveis agora, representam apenas metade do acervo relacionado ao nosso tema. Voltarei ao EUA e, além de participar do lançamento oficial do site, terei uma série de reuniões com Dr. James Green para definir os próximos passos do projeto e da parceria.

“Foi uma experiência muito marcante e proveitosa. [O National Archives] é muito rígido com tudo que envolve segurança, além, obviamente, da preservação e organização dos arquivos. Além disso, por lá transitavam também pesquisadores de todo o mundo, o que foi muito interessante para um pesquisador em formação como eu. Tudo isso me proporcionou uma grande experiência de trabalho e estudo. Acredito que hoje estudo a história com um olhar mais aprofundado.”

Depoimento de Antonio Bianchet Júnior.

“Por si só, o projeto me dava todas as razões para aceitar a proposta. Fazer parte da história daqueles que contribuíram para o esclarecimento de um período tão doloroso do Brasil era uma possibilidade muito inspiradora. Por mais que não tenhamos vivido os tempos sombrios da Ditadura Militar, seus rastros, marcas e feridas estão por toda parte. É impossível não se sensibilizar e não querer saber mais sobre aquela traumática época do nosso país. Entrar em contato com o trabalho dos arquivistas, manusear importantes documentos como aqueles e vasculhar trechos de documentos que outrora eram secretos me deixou muito realizada como historiadora.”

Depoimento de Priscila Borba da Costa.

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