A arte surda não é silenciosa. O espetáculo “Movimento de Escuta” convida o público a não somente escutá-la, mas também senti-la. Do palco à plateia do SESC da Esquina, vibrações ecoaram durante a performance que integrou a Mostra Surda de Teatro do Festival de Curitiba nos dias 28 a 30 de março. Na performance, graves pulsantes entornam a poesia corporal dos cinco artistas, alcançam o peito do espectador, e vice-versa. “O movimento de escuta significa receber a vibração e a energia. E depois mostrar e distribuir através da dança”, explica Lucas Guilherme, integrante do grupo SOM junto a Alef Felipe, Luiz Augusto, Thayssa Araújo e Thaís Souza.
A escuta como pendência do ouvinte
O movimento de escuta, como explica Kutner, é uma resposta ao lugar de fala. A diretora, que há sete anos iniciou sua trajetória na arte surda, afirma enxergar-se como interlocutora. Resultado da direção co-criativa com os atores, a relação de cada um deles com a performance é íntima. Os conflitos internos dos personagens ganham expressividade que transborda em movimentos corporais tanto de fúria quanto de acalento; olhos nos olhos do público. A batalha é retrato do processo criativo: “a princípio, todos trouxeram histórias da surdez”, relata Clara. O confronto à invisibilização e a autoestima são temáticas referenciadas ao longo da performance, mas não a resumem.
“A gente quer abrir a mente da sociedade, mostrar que os surdos também têm cada um a sua cultura. Cada um apresenta a sua história, a sua identidade”, explica Thayssa. “Depois, mostramos que a gente se apoia, estamos juntos”. Nesse processo, elementos culturais como o funk carioca, a capoeira, o rap e o SLAM — competição de poesia sinalizada— não são apenas referências estéticas, mas símbolos de pertencimento. “A gente pega tudo isso, mistura tudo e mostra através da dança”, explica Alef.

Depois eu te explico
O objetivo da música na performance não é ser escutada pelo ouvinte. Como ressalta Alef, a música, além de melodia, é vibração, ritmo. “Os ouvintes acham que surdo não tem música, mas a gente tem. A diferença é que, além da melodia, a gente sente na pele, dentro da gente”, afirma. A dança surda, não obstante, torna-se outro exercício. O grupo estudou elementos da dança ouvinte e a adaptou a fim de construir uma nova abordagem. “Cada um via os ouvintes dançando e não conseguia se reconhecer”, afirma Lucas. “A gente criou a teoria; temos a dança do surdo, temos o ritmo.”
Os ouvintes acham que surdo não tem música, mas a gente tem. A diferença é que, além da melodia, a gente sente na pele, dentro da gente
, sinaliza Alef, artista do Projeto SOM
Qual é, então, o lugar do ouvinte na plateia do teatro surdo? A discussão surgiu entre o grupo durante a produção do espetáculo, como explica a diretora: “traduzimos ou não traduzimos?” A roda de SLAM que tomou conta do palco após a performance expressa o significado por trás da não tradução da Língua de Sinais. A plateia, majoritariamente não-ouvinte, acolheu-se em meia lua e, em meio a vibração de mãos e bater de pés, compartilharam vivências, processos de conquista e de pertencimento.
“Não entendeu?” Sinalizou Edvaldo Santos, conhecido como Edinho nas rodas de SLAM, aos ouvintes presentes. “Depois eu te explico”, brincou. A provocação é amistosa. Como concluiu Kutner, “Movimento de escuta é esse campo de batalha que a gente vive, essa tentativa de acordo; é sobre o amor. É o amor, no final, que a gente procura”
Ficha técnica
Repórteres: Luiza Yasumoto e Vitor Beninni
Revisor: Marya Marcondes
Edição final: Alana Morzelli