Por Thais Castro
É quase meio-dia quando o Paço da Liberdade é tomado pelos alunos da Faculdade de Artes do Paraná. Ao redor, o público se instala nos bancos ladeados pelas fontes. O olhar é atraído por atores vibrantes, a maquiagem marcante nos braços e pernas criam uma sensação de movimento que persiste mesmo quando eles permanecem parados.
Comprei um café “das flores” na esquina de cima, e vim direto para o centro. O medo de perder a peça era grande, mas com alguns minutos de sobra, aguardo o início do espetáculo acompanhada de um café com leite. Ao olhar em volta, noto um público dos mais diversos, o catador de recicláveis, a pessoa em situação de rua, idosos que passeiam pela cidade, pais e filhos. É a mistura de gente que só o centro oferece.
Aqui, somos todos iguais e o teatro se torna democrático, onde todos podem ver o espetáculo. Uma sinfonia ecoa das caixas de som; reunidos no centro da praça, os atores formam um círculo, Ofídia vem aí. A mistura dos corpos e os olhares profundos surpreendem pelo ritmo e expressão sem igual. O público se assusta, alguns sentem espanto, enquanto outros permanecem vidrados, sem sequer piscar. Se os atores sorriem, a plateia sorri junto, mas a atmosfera muda rápido, se choram de súbito, o público se sobressalta.
A narrativa dá pistas, mas é necessário prestar atenção. Sou do tipo que busca o significado de cada cena, mas sei que alguns simplesmente se deixam levar, focando mais na sensação que sentem ao assistir. Notamos personagens, uma mãe, uma cobra, surge também um anjo, não sei dizer ao certo. Quando pergunto aos atores, eles me respondem “O que você sentiu?”. Tudo fica no campo da interpretação pessoal. É interessante essa perspectiva: não há certo ou errado, mas, de certa forma, é linear.
Eu diria que começar o dia com Ofídia torna as horas seguintes um misto de sensações. Ainda posso ouvir, no fundo da mente, a canção entoada durante a peça, vinda do fôlego dos atores “Eu sou bem pequenininha, minha rede balanceia”. Tentei chegar a alguns significados, mas sinto que cada um interpreta de uma forma, assim como citei antes.
A recomendação que deixo é que, se um dia puderem, assistam a uma peça em pleno centro da cidade. Vão pelos atores, pelo público, pela arte e pela cidade, que vez ou outra nos oferece um festival tão grande como este.
Confira a entrevista especial com o elenco:
