Por Caetano Sogayar e Rodrigo Wozniack

“Toda unanimidade é burra” é uma das frases mais conhecidas do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues. Passados 46 anos desde sua morte é possível afirmar que, pelo menos na 34º edição do Festival de Curitiba, Nelson Rodrigues é talvez uma das mais celebradas unanimidades. Presente em dose tripla no evento — duas vezes pela mesma companhia —, o autor que já foi chamado de “tarado” e assumiu o título de “anjo pornográfico” mostra sua vivíssima força dramática de formas diversas durante as duas semanas do Festival.

O Centro de Artes Segundo Ato apresentou 3 sessões lotadas de “Senhora dos Afogados”, de 1948, no Teatro Enio Carvalho pela Mostra Fringe, no feriado de Páscoa. A obra, originalmente dirigida por  Bibi Ferreira, chegou aos palcos pelas mãos habilidosas de Wendell Leitte, diretor geral, e Thomas Mello, diretor artístico. Os fundadores do Centro Segundo Ato, localizado no bairro Capão Raso, adaptaram a linguagem de Rodrigues para caber nas bocas de seus alunos mais avançados, que formam um elenco afiado para interpretar a tragédia de “Senhora dos Afogados”.

O drama gira em torno da derrocada da família Drummond frente a traições, mortes e violência enquanto são cercados por um mar traiçoeiro e vizinhos sempre à espreita. São estes — os vizinhos  — a tela na qual Leitte e Mello tornam visível seu estilo: mascarados e vivendo um eterno carnaval, os personagens marcam o ritmo e o humor da montagem. E são os vizinhos que deitam e rolam ao observar e comentar o inferno particular dos Drummond. “A montagem original é muito cativante, então a primeira coisa que veio na nossa cabeça foi o Carnaval. É o formato, mas também toda a densidade humana que a gente gosta de ver, como se fôssemos animais olhando para nós mesmos.”, disse Mello. Mas as inovações do texto e da montagem não param por aí.

O palco italiano tradicional — atores de um lado, plateia do outro — é substituído por um corredor em que os espectadores ficam frente a frente enquanto a ação ocorre no centro. Além disso, são adicionados elementos visuais — o samba, luzes intimistas — e elementos simbólicos como o próprio mar, mesclando o texto original com a atualidade. “Senhora  dos Afogados” integra o Teatro mítico de Nelson Rodrigues, que integra peças que, como “Anjo Negro”  e “Álbum de Família”, debruçam-se sobre obsessões, culpa, pecado, morte e revela a face escondida da sociedade brasileira por meio dos vícios morais das personagens.

Os vizinhos que vivem um eterno carnaval e fazem comentários irônicos sobre a Família Drummond. Crédito: Caetano Sogayar

A obra reimaginada proporcionou novas leituras do clássico de Nelson Rodrigues. Isso se deve principalmente ao fato de Alice Mendes, uma atriz trans, interpretar a personagem Moema, que desejava ser a “única mulher” na vida de seu pai. A frase característica já era potente no texto original, mas ganha nova força — uma muito além do que Nelson poderia ter pretendido originalmente — nesta nova montagem, o que demonstra que a discussão proposta na obra permanece relevante e atual. “Tem um grande adicional que é o gênero da Moema, não sei se já foi feito antes e foi algo que pesou no texto para mim, quando ela diz ser a única filha de Misael, foi bem intenso.”, diz Mendes. 

As apresentações esgotadas durante o feriado provam que o público ainda se conecta com os temas abordados por Nelson, por mais polêmicos que eles sejam. A produtora executiva Beatriz Borges ressaltou que a abordagem de misoginia e da complexidade das relações familiares presentes na obra permanece muito atual e relevante para a leitura de mundo que o público tem hoje em dia. Décadas depois de sua montagem original, o texto segue com o mesmo propósito de causar reflexão e desconforto intencional em seu público. 

O grupo Koluderê também fará sua interpretação de Nelson Rodrigues em 4 sessões esgotadas de “O Beijo no Asfalto”, nos dias 8 e 9 de abril e, no dia 12, o Centro de Artes Segundo Ato retorna a se debruçar em Nelson Rodrigues, com uma leitura dramática também de “O Beijo no Asfalto” na Rua Mário Chaubald Biscaia – 157, com ingressos ainda disponíveis.

Nelson Rodrigues. Talvez, no Festival de Curitiba, nem toda unanimidade seja burra.

Nelson, que acreditava em encher o palco de “assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros” para purificar os pecados da plateia e era julgado como “obsceno”, agora prova a força inesgotável de seu Teatro em pleno 2026. Talvez, no Festival de Curitiba, nem toda unanimidade seja burra.