Existe uma enorme chance de que as frutas, legumes e verduras que você come ao longo do dia tenham passado por uma das cinco unidades da CEASA Paraná. Presente em Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel e Foz do Iguaçu, as Centrais de Abastecimento funcionam como um dos principais pontos de circulação de hortigranjeiros do Sul do país, conectando produtores rurais, comerciantes, supermercados, restaurantes e feiras livres.
Somente em 2022, as cinco unidades da CEASA movimentaram cerca de 1,3 milhão de toneladas de produtos hortigranjeiros, gerando R$ 4,8 bilhões em transações comerciais. Ao todo, foram comercializados 203 tipos de itens, entre frutas, verduras, legumes, flores, plantas, cereais e produtos granjeiros.
A unidade de Curitiba, localizada no bairro Tatuquara, concentra a maior parte desse fluxo. O espaço recebe diariamente uma média de 18 mil pessoas e comercializa mais de 4 mil toneladas de alimentos por dia — um movimento comparável ao de uma pequena cidade.
Os números ajudam a dimensionar a estrutura do entreposto da capital paranaense. São 510 mil metros quadrados de terreno, 72 mil metros quadrados de área construída e mais de 700 mil toneladas comercializadas anualmente. O local reúne 84 lojas, 644 boxes, espaços destinados à venda direta de produtores rurais — conhecidos como “pedra” — além de setores específicos para flores e alimentação. Mais de 4,5 mil produtores possuem cadastro ativo na unidade.

Para muitos comerciantes, a CEASA também funciona como termômetro dos preços dos alimentos. As cotações realizadas diariamente servem de referência para produtores, distribuidores e até órgãos públicos. Ao mesmo tempo, o sistema ajuda a escoar a produção agrícola e abastecer centros urbanos em larga escala.
Apesar de ser voltada principalmente ao atacado, a CEASA também desperta interesse de consumidores comuns em busca de preços mais baixos, especialmente na compra em grandes quantidades.
Não é errado dizer que a CEASA é um ecossistema com características e nuances próprias. Ainda de madrugada, quando a maior parte da cidade dorme, caminhões começam a ocupar os pavilhões carregados de frutas, legumes e verduras vindos de diferentes regiões do Paraná e do Brasil. Junto a caixas empilhadas, corredores movimentados e negociações rápidas, circulam produtores rurais, carregadores, comerciantes, cozinheiras, funcionários públicos e pessoas que tentam reconstruir a própria vida. Para conhecer um pouco mais a rotina da CEASA, confira a crônica realizada pela equipe de reportagem após a ida ao entreposto.

“A CEASA hoje é frequentada por 15 mil pessoas diariamente. Funcionários, permissionários, produtores rurais, compradores de supermercados, frutarias”, conta Ricardo Oliveira, que trabalha no manuseio e transporte das caixas de alimentos e ficou conhecido nas redes sociais como “Caxeiro Ceasa”. Para ele, o espaço ultrapassa a lógica comercial e se transforma em um ambiente de pertencimento coletivo. “A CEASA aqui é uma família. A CEASA é uma mãe, onde pessoas criam uma história, criam os filhos, vêm aqui, trabalham duro, mas conseguem levar o sustento para casa.”
É nesse último grupo que surge uma das iniciativas mais particulares da CEASA Paraná. Além de funcionar como um dos principais centros de abastecimento hortigranjeiro do Sul do país, a instituição também abriga um projeto de ressocialização ligado ao Banco de Alimentos Comida Boa, programa que une combate ao desperdício, segurança alimentar e reinserção social de pessoas privadas de liberdade.
Projeto de ressocialização
Em parceria com o Departamento de Polícia Penal do Paraná (DEPEN), o projeto oferece trabalho e capacitação aos monitorados do sistema penal. Eles atuam na triagem, separação e processamento dos alimentos doados por produtores e permissionários da CEASA. Produtos que perderam valor comercial, mas seguem próprios para consumo, ganham novo destino antes de chegar a instituições sociais, cozinhas comunitárias e famílias em situação de vulnerabilidade.
Dentro da rotina acelerada da central de abastecimento, os alimentos passam por uma espécie de segunda cadeia produtiva. Parte é distribuída in natura. Outra parte é transformada em sopas, caldos, sucos e alimentos minimamente processados nas cozinhas industriais mantidas pelo programa. O trabalho diário inclui desde descarregar caminhões até higienizar e reaproveitar produtos que seriam descartados.
“Aqui a gente faz um pouquinho de tudo”, explica Larissa Aguiar, engenheira de alimentos do Banco de Alimentos. “Temos a parte operacional, que é a seleção dos produtos que seriam jogados fora e podem ser aproveitados. Alguns são distribuídos in natura para instituições sociais e outros vêm para a cozinha, para produzirmos os minimamente processados.”

Segundo ela, o impacto social do projeto vai muito além do reaproveitamento de alimentos. Atualmente, o Banco de Alimentos atende cerca de 150 instituições sem fins lucrativos, além de dezenas de famílias que recebem semanalmente frutas, legumes e verduras. “Todo esse alimento que está aqui hoje iria todo pro lixo antes. A gente recupera cerca de 350 mil quilos de alimentos por mês. Produção de alimentos a gente já tem muito neste país. O que falta é a distribuição melhor dessa produção”, conta a engenheira.
Grande parte da equipe do projeto é formada por pessoas que passaram pelo sistema prisional. O trabalho funciona como oportunidade de renda, qualificação profissional e reinserção no mercado de trabalho. Segundo dados divulgados pela própria CEASA Paraná, cerca de 72% das pessoas que passam pelo projeto conseguem inserção profissional após o cumprimento ou progressão da pena. Além da remuneração e da remissão de pena prevista na legislação, os participantes recebem cursos voltados à manipulação de alimentos, gastronomia e educação alimentar.
Leandro Moraes de Brito, auxiliar de produção no Banco de Alimentos, conheceu o projeto durante o cumprimento da própria pena. Hoje contratado em regime CLT, ele descreve o espaço como um lugar de acolhimento. “Foi o meu primeiro emprego depois que eu saí do sistema e, para muitos que conheci aqui, é o primeiro emprego da vida”, afirma.
Para ele, a principal diferença do Banco de Alimentos está no propósito do trabalho realizado diariamente.
“Aqui é o único lugar em que você trabalha e ninguém ganha nada com isso, a gente só leva um mínimo de dignidade para as pessoas.”
Leandro também destaca que o projeto nasce da tentativa de oferecer uma nova chance para pessoas historicamente excluídas. “O banco de alimentos funciona com pessoas apenadas, que hoje estão de tornozeleira eletrônica e vêm para cá. O governo está abrindo oportunidade para pessoas que antes eram excluídas. Eu também fui um desses que saí do sistema prisional e vim para o Banco de Alimentos.”
O programa também busca ampliar o acesso à educação formal. Relatórios institucionais da CEASA apontam que os monitorados são incentivados a concluir os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), numa tentativa de construir alternativas profissionais para além do período de cumprimento da pena.
Essa mudança de perspectiva aparece na trajetória de Letícia Ribeiro, funcionária do Banco de Alimentos e estudante de Psicologia. Egressa do sistema prisional, ela entrou no projeto em 2020, durante a pandemia, por meio da parceria com o DEPEN. Atualmente, divide a rotina entre o trabalho na CEASA e a faculdade.
“Hoje eu só estou onde eu estou por conta da Depen. Se não fosse esse projeto, eu não estaria registrada, não estaria fazendo faculdade”, conta.
Segundo ela, o diferencial do Banco de Alimentos está justamente no acompanhamento oferecido aos trabalhadores. “Aqui realmente é um projeto de ressocialização. Eles querem que você saia daqui e mude de vida”, afirma.
No terceiro ano do curso de Psicologia, Letícia diz que pretende trabalhar futuramente com mulheres vítimas de violência e egressas do sistema prisional. “O passado delas não é o que elas são. Dá para fazer diferente, dá para mudar”, resume.
Após ida à CEASA, a repórter Luiza Yasumoto realizou uma fotorreportagem com bastidores da central e fotos dos entrevistados. O material está disponível no Instagram do Jornal Comunicação.






Relações trabalhistas precárias
Apesar da dimensão econômica bilionária e da importância logística para o abastecimento urbano, parte da engrenagem da CEASA ainda funciona sob relações de trabalho marcadas pela informalidade. Entre os corredores do entreposto, um dos grupos mais presentes é o dos movimentadores de mercadoria — conhecidos popularmente como “chapas” — responsáveis por transportar diariamente toneladas de frutas, legumes e verduras entre caminhões, boxes e áreas de comercialização.

Por exigir intenso esforço físico e pouca qualificação formal, o trabalho dos movimentadores acaba sendo ocupado, em muitos casos, por pessoas em situação de vulnerabilidade social — entre elas, egressos do sistema prisional. Dentro da dinâmica da CEASA, os chamados “chapas” frequentemente encontram no carregamento de mercadorias uma das poucas possibilidades imediatas de renda após deixarem o cárcere. A atividade, marcada por jornadas que começam ainda de madrugada e pelo pagamento diário, acaba funcionando como porta de entrada para trabalhadores que enfrentam dificuldades de reinserção no mercado formal. Ao mesmo tempo, a ausência de regulamentação e garantias trabalhistas faz com que muitos permaneçam em condições precárias, mesmo exercendo uma função essencial para o funcionamento do entreposto.
Segundo Casemiro Laporte, advogado da Associação dos Movimentadores de Mercadoria da CEASA de Curitiba (AMMCC), a rotina desses trabalhadores começa ainda antes do amanhecer. “Eles chegam lá às 4 horas da manhã, às vezes 3h30. Ficam esperando serem chamados no pátio, na pedra ou nos boxes. Sempre foi dessa forma”, explica.
Atualmente, grande parte dos movimentadores atuam como diaristas, recebendo por jornada de trabalho sem o vínculo formal. Na prática, o pagamento acontece diretamente pelos produtores rurais ou permissionários dos boxes.
De acordo com Laporte, a categoria vive uma situação contraditória: embora muitos trabalhadores atuem diariamente nos mesmos espaços e para os mesmos contratantes, ainda não possuem garantias trabalhistas ou previdenciárias. “A partir do momento que isso já é fixo, tem que receber os direitos trabalhistas. Até o próprio chapa teria que receber como avulso, não como chapa”, argumenta.
A principal reivindicação da AMMCC é a formalização da atividade. A proposta prevê a criação de um cadastro de trabalhadores, além da regulamentação do serviço por meio de convenções coletivas e reconhecimento da categoria como trabalho avulso organizado. “O que a gente quer é formalizar esse trabalho, garantindo proteção social e previdenciária”, afirma o advogado.
Além da informalidade nas relações de trabalho, existe também uma espécie de economia paralela em torno da atividade dos movimentadores. Os carrinhos utilizados para transportar as mercadorias, na maioria das vezes, não pertencem aos “chapas”. Eles são alugados de empreendedores que atuam dentro da própria CEASA e que chegam a possuir mais de 100 carrinhos disponíveis para locação. Na prática, os movimentadores dependem desse aluguel diário para conseguir trabalhar. Cada transporte realizado rende, em média, cerca de R$15 ao trabalhador, valor que varia conforme a distância, o peso da carga e a negociação feita no momento. Em dias de maior movimento, a renda pode aumentar significativamente, mas ela continua diretamente condicionada ao esforço físico e ao número de viagens realizadas ao longo da madrugada e da manhã.
Outro ponto destacado pela associação é o alto índice de acidentes envolvendo os movimentadores. Sem equipamentos de proteção individual e submetidos a longas jornadas de esforço físico, muitos trabalhadores acabam desenvolvendo problemas de saúde relacionados à atividade. “Imagine carregar carrinhos com mais de 20 caixas, com mais de 25 quilos cada uma. Às vezes passa de 800 quilos. E sem nenhum EPI (Equipamento de Proteção Individual)”, diz Laporte.

Segundo ele, a ausência de regulamentação faz com que os trabalhadores fiquem expostos tanto aos riscos ergonômicos quanto às condições climáticas. “Quanto mais você carregar, quanto mais produzir, mais você ganha”, afirma. Os chapas vão até o limite das condições físicas e mentais todos os dias de trabalho.
Mesmo diante da precarização, os movimentadores seguem sendo peças centrais da rotina da CEASA. São eles que garantem a circulação diária das mercadorias que abastecem mercados, sacolões, feiras livres e restaurantes de diferentes regiões do Paraná.
Entre projetos institucionais de ressocialização e relações de trabalho construídas informalmente ao longo de décadas, a CEASA revela duas faces distintas de um mesmo processo de reinserção social. De um lado, o Banco de Alimentos oferece capacitação, acompanhamento e possibilidade concreta de reconstrução de vida para egressos do sistema prisional. De outro, os corredores do entreposto seguem sendo ocupados diariamente por “chapas” que encontram na força física uma das poucas portas ainda abertas depois do cárcere, muitas vezes sem garantias trabalhistas ou proteção social. Em comum, ambos os cenários ajudam a mostrar como a CEASA ultrapassa a função de abastecimento urbano e se transforma também em espaço de sobrevivência, acolhimento e recomeço para trabalhadores historicamente marginalizados.
Pauta e Produção: Camila Calaudiano
Texto: Gabriel Costa
Entrevistas: Gabriel Costa, Luisa Yassumotto
Infográfico: Ana Lívia Barboza
Fotografia: Luisa Yassumotto
Edição e revisão final: Ana Lívia Barboza, Camila Calaudiano
Orientação: Cândida de Oliveira


