O Talibã retomou o poder no Afeganistão em agosto de 2021 e desde então, uma série de restrições para a vida das mulheres afegãs foi instaurada no país. Segundo a fundadora do Afghanistan Justice Archive, Mitra Mehran, mais de 230 regras e decretos passaram a limitar os direitos e a liberdade dessas mulheres — declarou durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.
Dentre esses decretos, estão praticamente todos os direitos fundamentais e civis que eliminam a autonomia e a participação feminina na sociedade. Meninas após completarem 12 anos são proibidas de estudar, tornando o país o único no mundo com essa proibição total. As restrições ao trabalho feminino também se intensificaram, fazendo com que a participação feminina na força de trabalho caísse de 16,5% em 2020 para 5,1% em 2026 segundo a Organização Internacional de Trabalho (OTI).
Proibições como circular livremente, frequentar espaços públicos como parques, academias e universidades também estão presentes nas vidas dessas mulheres, além de só ser permitido realizar viagens de longa distância com um acompanhante masculino da família. As restrições também as acompanham até na escolha de suas vestimentas e no volume de sua voz: o decreto do Ministério da Moralidade do Talibã estabeleceu a obrigatoriedade de cobrir totalmente o corpo e o rosto ao sair de casa, assim como as proíbe de falar alto em público.
Quem é o Talibã?
Para entender de onde veio o Talibã, é preciso voltar para as escolas religiosas que surgiram nos campos de refugiados afegãos após a ocupação militar da União Soviética no Afeganistão. Em meados dos anos 1990, a ONU estimava que pelo menos seis milhões de refugiados afegãos fugiram para principalmente o Paquistão e o Irã.
Foi nessas escolas religiosas (madraça) que muitos meninos cresceram durante os anos de guerra. Eles passaram a infância longe de suas casas, sem conhecer praticamente nada além de violência, deslocamento e uma interpretação extremamente rígida da religião. O ensino tradicional tinha sido severamente alterado pelo contexto da guerra e o estudo combinava doutrinação religiosa conservadora, rejeição à modernidade ocidental e preparação militar/ideológica para o combate. Dando origem à base do movimento que, anos depois, tomaria o poder no Afeganistão. O próprio nome do grupo carrega a história da própria origem: “Talibã” significa “estudantes”.
Outro fator que contribui para o surgimento foi que o Talibã não surge nos grandes centros urbanos do Afeganistão mas sim e principalmente no sul rural do país, onde concentrava uma parcela muito grande de conservadores, lá as interpretações rígidas da religião conviviam com estruturas sociais e costumes locais que restringiam fortemente a vida das mulheres. Enquanto, em cidades como Cabul, mulheres já estudavam, trabalhavam e ocupavam espaços na sociedade havia décadas, para o Talibã esse tipo de vida não representava liberdade. Representava uma ruptura com a ordem que eles acreditavam que deveria existir.
É então que, em 1994, em meio à guerra civil, o grupo surge prometendo aquilo que uma população exausta queria ouvir: ordem, segurança e o fim da violência nas estradas. O primeiro governo do Talibã continuou até a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2001 e por vinte anos o grupo ficou fora do poder.
Entenda a justificativa do grupo e como isso afeta toda uma religião
Como forma de justificar suas ações no poder e na interferência direta na liberdade das mulheres, o Talibã afirma que essas regras são baseadas na lei islâmica (Sharia) e nos valores culturais do Afeganistão. A professora e especialista em relações internacionais, Natali Hoff, explica como essa justificativa é usada pelo grupo.
“O Talibã usa a religião como uma linguagem de legitimação para um projeto político de dominação. Em vários momentos, o grupo declarou que as proibições seriam temporárias, mas nunca deixou claro quais seriam as condições para revertê-las. O que existe, de fato, é uma interpretação religiosa que eles tentam transformar em norma obrigatória para toda a sociedade.” Hoff explica.
Alguns dos argumentos que o grupo utiliza em defesa são que suas medidas são necessárias para atingir os seguintes objetivos ideológicos: proteção da honra e segurança feminina, promover a virtude e eliminar o vício, uma vez que sob a ótica do do regime a presença e até mesmo a voz da mulher em espaços públicos são consideradas fontes potenciais de tentação e pecado para os homens.
Mas apesar de todas as justificativas, A Organização de Cooperação Islâmica (OIC), que reúne países de maioria muçulmana, também contestou a justificativa religiosa utilizada pelo Talibã. Em 2022, seu secretário-geral afirmou que a proibição da educação feminina não estava baseada nos textos da lei islâmica e defendeu o direito das mulheres à educação e ao trabalho. O Talibã ao usar uma interpretação específica da religião para justificar essas medidas também gera impactos na forma como o Islã é percebido fora do Afeganistão, atraindo cada vez mais desinformação sobre os ensinos religiosos de uma sociedade que sempre sofreu preconceitos por sua cultura.
A resistência
Entre os anos em que o Talibã estava fora do poder, o Afeganistão construiu uma estrutura muito diferente da que existe hoje.
A Constituição de 2004 reconheceu formalmente a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Também havia uma instituição criada especificamente para tratar dos direitos das mulheres: o Ministério dos Assuntos da Mulher, estabelecido em 2001. Na época, antes do segundo governo do regime, cerca de 2,5 milhões de meninas estavam no ensino primário em 2018 e nas universidades a presença feminina passava de mais de cem mil em 2021. Para quem viveu aquele período, a mudança teve um peso diferente. Ver todos os seus direitos e a vida que estava construindo cair diante de seus olhos era diferente de nunca nem ter tido a oportunidade para tentar.
Nos primeiros meses depois da volta do Talibã ao poder, mulheres foram às ruas de Cabul e de outras cidades para protestar. Elas protestavam contra as novas restrições, contra a perda de direitos e contra o medo de ver desaparecer tudo o que havia sido conquistado nas duas décadas anteriores. Mas o regime rapidamente agiu mais uma vez silenciando essas mulheres. Manifestantes foram ameaçadas, perseguidas e, em alguns casos, agredidas. O medo de prisão e de violência fez com que os protestos abertos se tornassem cada vez mais difíceis.
Hoje, a resistência acontece de forma discreta dentro do país. Professoras e ativistas organizam salas de aula clandestinas em residências particulares, com o apoio de organizações internacionais e da diáspora afegã jovens utilizam a internet para estudar, clubes da leitura secretos, mulheres trabalham dentro de casas gerando renda escondida, reduzindo a dependência financeira dos homens e até mesmo o uso sutil de cores sob a burca tradicional servem como manifestações silenciosas.
Já as mulheres que conseguiram deixar o país passaram a denunciar o que acontecia com quem ficou. Elas conversam com jornalistas, participam de organizações, levam denúncias a fóruns internacionais e ajudam a manter essas histórias circulando fora do país. Em 2024, a ONU Mulheres atuou em parceria com mais de 200 organizações de mulheres das 34 províncias do Afeganistão, apoiando iniciativas voltadas à educação, assistência humanitária e geração de renda.
Cinco anos após o retorno do Talibã ao poder, as restrições impostas às mulheres continuam afetando diferentes áreas da vida no Afeganistão. Enquanto algumas deixaram o país, outras permanecem e buscam alternativas para estudar, trabalhar e manter redes de apoio. As mudanças impostas desde 2021 transformaram a rotina de milhões de mulheres e seguem definindo os limites de sua participação na sociedade. Para saber mais sobre o assunto, acesse o documentário disponível no Spotify.
Reportagem: Heloísa Duarte


