Entre a Geração Z, a expressão “Dar um Google” já está ficando ultrapassada. Agora, é mais comum ouvir: “Pergunta pro Chat”. Segundo o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), em 2024, 7 em cada 10 estudantes do Ensino Médio utilizaram plataformas de Inteligência Artificial (IA), como o ChatGPT ou o Gemini, nos estudos. Nesse mesmo cenário, as instituições de ensino se encontram despreparadas para receber esse tipo de tecnologia – a mesma pesquisa aponta que apenas 32% desses estudantes receberam algum tipo de orientação sobre como utilizar a ferramenta.
O professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação (PPGGI) e chefe da Superintendência de Educação à Distância e Inovações Pedagógicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Glauco de Menezes, explica que a IA generativa é capaz de auxiliar professores na adaptação de conteúdos, na personalização de métodos de ensino e na inclusão de estudantes, respeitando as particularidades e limitações de cada indivíduo em sala de aula.
Por outro lado, o professor ressalta que a utilização de IA de forma acrítica e sem mediação docente pode ser prejudicial para o estudante, substituindo o esforço cognitivo e limitando a autoria dos alunos nas atividades escolares. O uso inadequado da ferramenta ainda pode gerar dependência e tornar o aprendizado superficial, visto que, muitas vezes, ela é falha: “a IA generativa também está sujeita à geração de informações imprecisas, ou mesmo inventadas”, evidencia Menezes.
Com a promessa de aumentar a equidade no ambiente escolar, a IA, na verdade, pode se tornar um fator agravante da desigualdade educacional devido à falta de estrutura dos ambientes escolares. Segundo a professora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora do Centro Universitário UNINTER, Glaucia Brito, a inserção dessas ferramentas é ainda mais dificultosa no Brasil: “essas promessas ainda enfrentam um caminho longo até se concretizarem, devido a fatores como desigualdade de acesso, carência de formação docente e limitações estruturais das escolas”.
Para a professora, a responsabilidade pela falta de orientação aos estudantes acerca do tema, como indicado pela pesquisa do Cetic, não deve ser atribuída aos professores, já que os mesmos não foram preparados para lidar com esse tipo de ferramenta em sala de aula. “A formação [dos educadores], em grande parte, ainda não integrou de forma consistente nem mesmo as tecnologias digitais ao currículo, quem dirá a IA”, expôs Brito.
A especialista ainda afirma que é necessário a correção curricular da formação docente, incluindo a inserção de novas ferramenta tecnológicas como recurso pedagógico, já que o uso dessas ferramentas não pode ser simplesmente apagado do cotidiano do aluno: “torna-se urgente investir em formação docente continuada, preparando o professor para usar a IA como recurso didático, compreender seus limites e orientar os alunos em práticas éticas, criativas e críticas”, completou a professora.
A relação do aluno com a IA
Em uma pesquisa realizada pelo Jornal Comunicação com 15 estudantes do Ensino Médio de Curitiba e Região Metropolitana, todos os alunos indicaram usar IA nos estudos, sendo o ChatGPT o mais utilizado. E ainda, 60% dos estudantes relataram não se sentirem dependentes da ferramenta. Todavia, 40% deles disseram se sentirem inseguros ao não utilizarem a IA ou não saberem dizer se se sentem seguros ou não. Veja mais no infográfico:
A predileção por utilizar a inteligência artificial é algo natural, estimulado pelo nosso cérebro: “o cérebro humano busca naturalmente o caminho mais fácil, e a inteligência artificial reforça esse conforto ao entregar respostas prontas”, explica o professor de Psicologia da PUCPR e membro do grupo de pesquisa Processos Psicológicos em Contextos Educacionais da UFPR, Wallisten Garcia.
Esse “conforto” se torna ainda mais complicado quando quem utiliza a ferramenta, sem qualquer mediação, é o jovem. Além de não estimular funções essenciais do ser humano como a memória, a atenção, o raciocínio lógico e a criticidade, o aluno perde o momento de interação entre os colegas e professores.
“Quando a criança se acomoda nesse uso passivo, ela deixa de exercitar habilidades que sustentam formas superiores de comportamento necessárias para viver em sociedade, o que fragiliza não só a aprendizagem, mas também o desenvolvimento e o social”, revela Garcia, que ainda declara que a eliminação da tecnologia no contexto infantojuvenil não é a solução.
Como pesquisadora, Glaucia Brito propõe passos para a inserção da inteligência artificial, ou de qualquer outra tecnologia emergente, de forma adequada no ambiente educacional, e ressalta a importância do professor como mediador e orientador ético:
Em algumas instituições de ensino suecas, a IA já é inserida dentro do ambiente pedagógico, de forma a instruir o estudante a como utilizá-la de maneira crítica, ética e eficaz. Brito vê essa realidade no Brasil como algo distante, ainda assim, destaca que as escolas devem “preparar os estudantes não apenas para usar IA, mas para criar, interpretar e inovar com ela”, de forma a continuar desenvolvendo e aprimorando as capacidades humanas.
Edição: Alice Lima e Vitor Beninni.
