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terra mais quente

temperatura do planeta pode chegar a 60º em futuro próximo

No Paraná, aquecimento do planeta pode trazer consequências graves para mais de 30 cidades

Você já deve ter parado para pensar: “Parece que este ano está mais quente do que o ano passado”. Ou então: “Sinto que as estações do ano são indefinidas agora, pode ser frio no verão e quente no inverno”. Suas perguntas não são equivocadas. A Terra está passando por mudanças climáticas e não é algo recente. Esse fenômeno já foi explorado em diversas obras, como as distopias futuristas que mostram um planeta inabitável e sem recursos para sustentar os seres humanos. Infelizmente, essa realidade tem deixado de ser algo abstrato.         

Estudos comprovam que a temperatura da Terra está mudando. Ela tem se tornado mais quente, em consequência das atividades humanas, como o uso de petróleo, gás e carvão que são utilizados nas fábricas, casas e transportes públicos. Quando queimados, esses compostos liberam gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2), que retêm o calor do sol, causando um aumento da temperatura.

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Esse aumento afeta a vida útil de todo o planeta, sendo totalmente nocivo para a permanência e o desenvolvimento das espécies. De acordo com o Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil), se existem 100 milhões de espécies diferentes na Terra e o índice de extinção é de apenas 0,01% ao ano, significa que pelo menos 10 mil espécies são extintas anualmente. De acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), cerca de 26,5 mil espécies estão ameaçadas de extinção.   

No ano passado, a espécie pica-pau-bico-de-marfim foi retirada da lista de espécies ameaçadas. Contudo, o fato não ocorreu por conta de um bom motivo. A espécie já pode ser considerada extinta. De acordo com a National Geographic, a extinção foi causada, em grande parte, pela exploração descontrolada da madeira.  

A Universidade de Harvard possui 60 espécimes do pica-pau-bico-de-marfim capturados por cientistas entre 1869 e 1914. O maior acervo que se tem conta (Foto: Reprodução/JOEL).

As mudanças climáticas não afetam apenas a vida animal, elas trazem consequências drásticas para a vida humana. O gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, André Ferretti, aponta os principais impactos dessas mudanças climáticas.

“Teremos quebra de safras agrícolas, aumento de eventos climáticos, o que causará secas, inundações e grandes incêndios. Enfrentaremos problemas com doenças que irão se proliferar, principalmente doenças tropicais que se espalharam em áreas que não eram tão frequentes”, avalia. Além desses problemas, Ferretti ainda reforça que, se o mar subir, como está previsto, as zonas costeiras serão altamente impactadas. Isso trará prejuízos para toda a infraestrutura e também para os ecossistemas dessas áreas, que são importantes para atividades econômicas, como a pesca familiar.  

As expectativas do especialista não são boas. “O aumento do nível do mar, causado pelo aquecimento, pode modificar e inviabilizar a atividade econômica e a vida da população que mora nas zonas costeiras”, acrescenta.

De acordo com pesquisas, a crise climática pode forçar 216 milhões de pessoas em seis regiões do mundo a migrarem dentro de seus próprios países até 2050. Esse movimento deve surgir até o final desta década e se intensificar nos próximos 20 anos. De acordo com Ferretti, a migração entre as regiões do Brasil é um grande desafio para a gestão pública, pois os gestores precisam proporcionar condições mínimas de sobrevivência, além dos desafios culturais que os migrantes enfrentam. Já houve problemas como isso no século passado, sobretudo, a partir das secas na Região Nordeste. Essas dificuldades são muito bem retratadas no romance Vidas Secas, de de Graciliano Ramos, onde acompanhamos a história de uma família sobrevivendo a seca do sertão.  

Por ser a sede de uma universidade pública, Curitiba recebe anualmente diversos migrantes que se mudam para estudar na capital. A professora Héllen dos Santos Reis, 22 anos, nasceu no Rio de Janeiro, morou três anos em Curitiba e, recentemente, voltou para o Rio. Para ela, há uma enorme diferença na temperatura climática das duas cidades. “Voltei ao Rio recentemente, mas senti muita dificuldade de lidar com o calor novamente. Em Curitiba, minha relação com o inverno não era muito amigável, mas a saúde dos meus cabelos e pele apresentou melhora significativa”, conta.

A estudante Julliana Faé, de 21 anos, se mudou do Rio de Janeiro para Curitiba. “O calor excessivo deixava meu corpo mole, às vezes tinha dor de cabeça, minha saúde melhorou em Curitiba”, comenta. A confeiteira Vanessa Correia, de 37 anos, também é migrante do Rio para Curitiba e reclama do calor. “Ele me causava mal estar, inchaço e indisposição”, diz. Questionada sobre voltar a morar no Rio, Vanessa responde: “Sempre amei o Rio enquanto não conhecia outro lugar para morar. Hoje, não voltaria a morar lá”. 

Héllen, Juliana e Vanessa apontaram que sentiram uma melhora na qualidade de vida depois de se mudarem para Curitiba, principalmente na saúde. Ferretti comenta sobre a forte migração para Curitiba de brasileiros nascidos em regiões mais quentesl, mas não acredita que a cidade possa se tornar um grande pólo de atração nos próximos anos. “As mudanças não afetaram apenas a temperatura. Teremos eventos climáticos extremos, como o regime de chuvas, tempestades, dias de secas e épocas de quebra de safras. Uma série de fatores atraíram as pessoas para determinadas regiões, o maior deles é a facilidade de acesso a essas áreas e os serviços oferecidos. Então não vejo Curitiba como um atrativo para os migrantes”, defende.

"Precisamos urgentemente mudar a nossa forma de interação com os recursos naturais e com a vida na Terra"
André Ferretti
Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

De acordo com a Sanepar, 13 cidades paranaenses estão em alerta pela seca e em 18 municípios há racionamento de água. Curitiba é um deles. Há alguns meses, o Paraná enfrenta uma crise hídrica, com metade do reservatórios vazios e com rodízio de água na capital e na região metropolitana. A crise, além de afetar a vida dos paranaenses, está gerando impacto na economia. Em 2021 houve um aumento na conta de luz, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica aumentou o preço de cada 100 kwh na bandeira vermelha patamar 2.

Grande parte das mudanças climáticas é causada pelos seres humanos. A situação parece crítica, mas segundo Ferretti, ainda há esperança. “A temperatura aumentou cerca de 1,1 grau e 1,08 está relacionado com as atividades humanas. Se a causa foi humana, temos como reverter esse processo. Precisamos urgentemente mudar a nossa forma de interação com os recursos naturais e com a vida na Terra, como o uso de combustível fóssil e desmatamento por queimadas”, finaliza André.

Este material é resultado de uma produção integrada, durante o primeiro semestre letivo de 2021, entre quatro disciplinas do curso de Jornalismo da UFPR: Laboratório de Jornalismo II (prof. Hendryo André), Laboratório de Radiornalismo I (prof. Rosângela Stringari), Laboratório de Telejornalismo I (prof. Elson Faxina) e Laboratório Multimídia de Jornalismo (prof. José Carlos Fernandes).

PRODUÇÃO

ANA CRISTINA
THAYSLA NEVES

EDIÇÃO FINAL

VITOR HUGO BATISTA