ESPECIAL

EXPERIÊNCIAS DE QUEM resiste EM UM DESERTO DE NOTÍCIAS

Deserto de notícias paranaense, moradores de Campo do Tenente têm apenas rádio comunitária e grupo no WhatsApp para se informarem

Em 2019, um dado surpreendente e pouco veiculado chamou a atenção dos comunicadores brasileiros. No Brasil, 62,6% de todas as cidades podiam ser consideradas desertos de notícias. O nome curioso classifica municípios que não possuem nenhum veículo próprio com programação jornalística. Já aqueles que possuem um ou dois veículos são considerados quase desertos de notícias, portanto, verdadeiros sobreviventes.

Os responsáveis pelos dados pertencem ao Atlas da Notícia, iniciativa que surgiu em 2017 de uma parceria entre o Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) – órgão que mantém o nativo digital Observatório da Imprensa – e a agência Volt Data Lab, focada em pesquisas e análises de comunicação, mídia e jornalismo. O estudo foi inspirado no mapeamento America’s Growing News Deserts, realizado pela revista norte-americana Columbia Journalism Review, para entender as mudanças sofridas pelo modelo de negócios no jornalismo e o fechamento de diversos veículos.

coordenador de dados do projeto Atlas da Notícia, Sérgio Spagnuolo, explica que o mapeamento brasileiro leva em conta dois tipos de levantamentos. O primeiro tem como ponto de partida dados recebidos de órgãos governamentais (como a Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República, via Lei de Acesso à Informação, e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). Depois, a própria equipe do Atlas faz uma busca com o apoio do público, com voluntários, colaboradores recrutados e pesquisadores próprios. Uma metodologia baseada em trabalho de formiguinha. “Estamos fazendo nosso levantamento de 2021 e em breve teremos mais detalhes”, revela Sérgio.

Marcos Rodrigues, de 26 anos, é advogado e vive em Campo do Tenente desde que nasceu. Ele, assim como 33,7 milhões de brasileiros, vive em um deserto de notícias. A cidade dele está há pouco menos de 100 quilômetros da capital paranaense e tem uma população estimada em 7.894 habitantes (segundo a estimativa de 2018 feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para saber o que acontece no local, os moradores dependem da cobertura de um jornal regional, do interesse das afiliadas das emissoras de TV, e das notícias que são compartilhadas nas redes sociais – para facilitar, criaram até um grupo no WhatsApp para divulgar informações. Porém, segundo Marcos, o “boca a boca” é o principal meio utilizado, mesmo não sendo o mais confiável.

"“O sonho é lindo e maravilhoso, mas quando você vai para o financeiro, [o jornal] não se sustenta”
Antonio Edson de Souza
Radialista

Iniciativas

Campo do Tenente tentou sair das estatísticas dos desertos de notícias pelo menos três vezes. Antonio Edson de Souza tentou levar um desses projetos adiante, mas encontrou barreiras no orçamento. “O sonho é lindo e maravilhoso, mas quando você vai para o financeiro, [o jornal] não se sustenta”, ressalta. Hoje, ele é radialista e um dos fundadores da Associação Comunitária Cultural e Artística Campo do Tenente – conhecida pelo nome fantasia Campo FM 87,5, que oferece à população programação musical e notícias de serviços. As repórteres Kaila Cristina e Stephanie Pereira conversaram com Edson.

A rádio comunitária não produz conteúdo jornalístico, mas ajuda os moradores a saberem de eventos realizados pela prefeitura, além de divulgar informações importantes sobre a escola e serviços de saúde básica. Fundada em 1998, só foi ao ar em 2008 devido à burocracia para tornar possível seu funcionamento. “Não foi fácil, como até hoje não é. Os meios de comunicação sofrem uma mudança muito rápida e quando a gente é pequeno, pra acompanhar é muito difícil”, relata Rozel de Sá Ribas, 85, primeiro presidente da Campo FM 87,5. Em 2020, pouco mais de 4.500 veículos deste tipo estavam registrados no país, distribuídos em 3.652 cidades. Porém, apenas 572 tinham autorização para funcionar.

De acordo com o último levantamento do Atlas da Notícias, em 2020, o rádio é a principal mídia no Brasil, representando uma faixa de 35,2% das mídias encontradas. No mesmo ano, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) propôs o Projeto de Lei 2.771/20 que altera a Lei do Fust, transformando o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações em Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações e de Radiodifusão Comunitária. O texto incentiva que os recursos distribuídos pela lei também sejam direcionados à instalação de novas emissoras de radiodifusão comunitária em localidades que não contam com o serviço – em especial nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A deputada afirma que a maioria dos pequenos municípios têm estas rádios como principal meio de comunicação, especialmente para se informar sobre a vida local.

Antonio Edson não sabe dizer como seria a vida na cidade sem a rádio comunitária. Um sonho antigo de muitos moradores que se tornou realidade, a Associação Comunitária contribui há 13 anos para a socialização entre os moradores, e permite que aqueles que não estão inseridos digitalmente, possam interagir com quem mora em outros bairros. Por outro lado, não há espaço para cobertura e apuração jornalística em época de eleições.

À Folha de S. Paulo, em 2019, Spagnuolo apontou que o jornalismo sem fins lucrativos pode ser um estímulo à cobertura e fiscalização do poder local nos desertos de notícias, apesar da falta de tradição filantrópica no Brasil. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, a falta de jornalismo nestes locais em época de eleições pode abrir caminho para desinformação e fake news disseminadas principalmente por redes sociais.

Marcos Rodrigues acredita que a população precisa de veículos confiáveis para se informar e encontrar subsídios para debates políticos saudáveis e necessários. Isso porque o município ainda se alimenta do conservadorismo, mesmo com a recente troca de gestores após 12 anos de mandato de um mesmo grupo político. “Hoje esse é o maior problema: fazer uma crítica à gestão do município e sofrer retaliação. Eu mesmo já fui muito criticado, já fui escrachado. Discutir diversidade e violência de gênero, por exemplo, é quase impossível”.

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Prefeitura Municipal, localizada no início da cidade, é palco das principais discussões (Foto: Stephanie Pereira)

Na impossibilidade deste trabalho ser feito por meios sem fins lucrativos como rádios comunitárias, o advogado deseja que outros projetos surjam na cidade – inclusive jornais produzidos no âmbito da comunicação popular. “Acho muito legal porque você diversifica as fontes de informação. Há anos atrás, tiveram algumas iniciativas de jornais locais, mas não faziam ponderações ou críticas necessárias. Se eu não fosse um dos idealizadores, com certeza seria um dos apoiadores”.

Ouça o episódio do podcast Acorda Piá Especiais sobre o assunto, e confira trechos da entrevista com Rozel de Sá e Antonio Edson.

Este material é resultado de uma produção integrada, durante o primeiro semestre letivo de 2021, entre quatro disciplinas do curso de Jornalismo da UFPR: Laboratório de Jornalismo II (prof. Hendryo André), Laboratório de Radiornalismo I (prof. Rosângela Stringari), Laboratório de Telejornalismo I (prof. Élson Faxina) e Laboratório Multimídia de Jornalismo (prof. José Carlos Fernandes).

PRODUÇÃO

KAILA CRISTINA
MARIANA DA SILVA DE SOUZA
STEPHANIE DA SILVA PEREIRA

EDIÇÃO FINAL

CATHERINE GREIN PLOTHOW
EDUARDO MAGALHÃES