ESPECIAL

Paradesporto no Brasil

do treinamento aos Jogos Paralímpicos

Conheça a rotina e as dificuldades de quem pratica esportes adaptados no país

É de conhecimento geral que a introdução de atividades físicas no cotidiano é importante e positiva. A todo momento as pessoas são bombardeadas com publicações e campanhas que as convidam a movimentar o corpo em prol de uma vida mais saudável e ativa. Entretanto, muitas vezes esse convite não parece ser para todos. É o caso das pessoas com deficiência (PCDs), que são preteridas quando o assunto é esporte.

O que acontece com esse grupo em relação às práticas esportivas é um reflexo da falta da inclusão que se dá também em outras esferas da sociedade — a acessibilidade é uma questão no transporte público e em estabelecimentos comerciais, e nos centros de atividade física não é diferente. A exclusão fortalece a ideia de que esporte e PCDs “não combinam”.

Segundo o ex-atleta e hoje head coach da seleção brasileira de parataekwondo Rodrigo Ferla, essa visão afasta as pessoas do esporte antes mesmo de tentar. “O maior desafio dentro do cenário paradesportivo é você começar. A gente vê muitas resistências de familiares, achando que o filho não tem capacidade, não pode, não dá pra aquilo, que ele vai entrar e se machucar. Acho que o mais difícil é captar o atleta, convencer a família e, muitas vezes, convencer a própria pessoa”, conta.

Para a neuropsicóloga Myrtes Prokopovicz, dentro do esporte a pessoa com deficiência pode focar nas próprias capacidades e desenvolvê-las, descobrindo novas possibilidades: “O ponto mais importante nesse aspecto é o potencial de cada um, a subjetividade de todos. Nós temos capacidades e dificuldades, mas todos temos habilidades. Com essas habilidades e com as potencialidades é possível enfatizar que PCDs são capazes, e isso precisa ser estimulado”.

E não é só Prokopovicz que crê nos benefícios das práticas esportivas para esse público. Segundo estudo A reabilitação de pessoas com deficiências através do desporto adaptado, de Vinícius Denardin Cardoso, os benefícios do esporte são diversos, incluindo a melhoria da autoconfiança para a realização das atividades diárias, valorização pessoal, autoestima, aprimoramento da condição e das capacidades físicas gerais, prevenção de deficiências secundárias e reabilitação motora.

Basta analisar o cenário paradesportivo e de esportes adaptados para perceber o quanto a ideia de que pessoas com deficiência e esporte não combinam é equivocada. A prática esportiva não só pode acontecer como também ocorre a nível de competições de alto rendimento, como é o caso das Paralímpiadas, que há 60 anos mostram que o esporte é, sim, para todos. 

Um reinício após a guerra

Na Grécia Antiga, berço das Olimpíadas, pessoas com deficiência não eram consideradas capazes de competir. Em Esparta, por exemplo, o corpo e a força física eram amplamente cultuados pelos cidadãos e líderes do Estado, e isso fazia com que crianças com deficiência fossem sacrificadas ao nascer.

Por conta dessas dificuldades, há registros de esportes praticados por PCDs datados no século XIX. Existem relatos de que em 1888 alguns clubes espalhados pela Alemanha contavam com a participação efetiva de surdos nos esportes. Em 1896, houve o renascimento dos Jogos Olímpicos, mas essa inclusão nem chegou a ser cogitada. Foi apenas após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que as competições com paratletas ganharam força mundialmente.

Histórico brasileiro nas Paralimpíadas

Esportes adaptados na mídia

Outro ponto que chama atenção ao se falar de esportes adaptados no Brasil é a relação deles com a mídia. Ainda há uma enorme discrepância quanto a veiculação dos esportes adaptados em relação aos convencionais nos grandes veículos de comunicação do país. Durante os últimos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, realizados em Tóquio, apenas os esportes tradicionais tiveram ampla cobertura da imprensa, mesmo que a classificação brasileira tenha sido superior nas paralimpíadas — a seleção paralímpica ocupou a sétima posição com 22 medalhas de ouro, enquanto a seleção geral foi a décima segund, com sete medalhas de ouro.

Enquanto as maiores emissoras do país paravam a programação para exibir grande parte das disputas dos Jogos Olímpicos na íntegra, a comunicação relacionada às Paralimpíadas ficou quase que restrita a notas discretas nos noticiários. Além disso, o tratamento dado aos atletas é distinto entre as categorias. Enquanto os olímpicos são vistos quase como sobre-humanos ou heróis, os atletas paralímpicos são ligados exclusivamente ao discurso de superação.

A cobertura da mídia influencia diretamente como o público geral vê os atletas. Em uma pesquisa realizada com um grupo de 80 brasileiros (ver infográfico), apesar de 97,5% conhecerem os esportes paralímpicos, 52,5% não acompanharam os jogos realizados em Tóquio ou em alguma edição anterior.

 

Além disso, a pesquisa destacou que, ao serem questionados se conhecem locais que oferecem este tipo de treinamento na sua cidade ou alguém que pratica esportes adaptados, a grande maioria alega não conhecer.

Para o técnico Rodrigo Ferla, a mídia falha quando o assunto é esportes para PCDs. “Muito se fala sobre a questão da inclusão na mídia, de mostrar todos os esportes, mas não vivemos essa inclusão. Não fomos mostrados por causa do business. Eu avisei empresas que iriam transmitir os jogos, falando da grande chance de sermos medalhistas, de fazer história no evento, mas, mesmo assim, não tive resposta e não fomos transmitidos”, manifesta.

Apesar de parecer secundária, a questão da exposição afeta diretamente o desempenho de atletas tanto do esporte adaptado quanto do convencional, não sendo apenas uma ferramenta para gerar prestígio. A visibilidade afeta a arrecadação de receita que mantém os esportistas treinando e competindo, e acaba sendo decisiva para a continuidade dos indivíduos na carreira esportiva.

 

Muito dinheiro, pouca organização

Quando as Paralímpiadas se aproximam, é comum assistir a inúmeras reportagens sobre a dificuldade financeira que alguns atletas enfrentam e a falta de investimento no paradesporto. Porém, ao analisar os números, percebe-se que o Brasil tem um bom investimento nos atletas paralímpicos — o maior problema está na distribuição dessa renda e na falta de investimento na base.

Após o anúncio de que o Brasil sediaria os jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, houve a criação do plano Brasil Medalhas,  com o objetivo principal de melhorar o desempenho dos atletas brasileiros e colocar o país no Top 10 de medalhas. Naquela edição, o governo federal investiu aproximadamente R$ 3,2 bilhões na formação e no treinamento dos atletas olímpicos e paralímpicos. Para as Olimpíadas de Tóquio, segundo um levantamento da Universidade de Brasília, houve uma queda de 47%, diminuindo o valor para R$ 2 bilhões.

Atualmente, há três projetos que patrocinam atletas de alta performance: Lei das Loterias, Bolsa Atleta e Lei de Incentivo ao Esporte. Anualmente são distribuídos R$ 750 milhões  pela Lei das Loterias, sendo que R$ 163,1 milhões vão diretamente para atletas paralímpicos. Mesmo com números expressivos, a maioria dessa verba vai diretamente para quem está no topo, e a base de formação é excluída

“É um reforço apenas do topo da pirâmide, esquecendo a base na sua totalidade, além da qualidade de vida do cidadão”
Leandro Carlos Mazzei
Presidente da Associação Brasileira de Gestão do Esporte

A falta de incentivo aos atletas iniciantes dificulta ainda mais a chegada ao topo. O atleta de lançamento de peso, dardo e disco Washington Luiz de Almeida treina há dois anos e compete em uma condição relativamente desigual por sua deficiência não possuir uma categoria própria. Mesmo com todas essas dificuldades e tendo bons resultados, ainda não conseguiu nenhuma bolsa de incentivo.

Foram tempos difíceis...

Mesmo nos anos anteriores, os atletas paralímpicos conviviam com suas batalhas diárias, sejam elas contra o preconceito da sociedade, contra a falta de investimento ou de estrutura. Quando a pandemia chegou, o medo transformou a vida destes atletas em um verdadeiro pesadelo. Sem locais para treinar e com as empresas cortando seus principais patrocínios, aos poucos os profissionais viram seu rendimento cair. E o fim da pandemia parecia distante.

“Ficamos parados a pandemia inteira. Voltamos aos treinos duas semanas e já tivemos uma competição. Meu rendimento caiu muito, por não conseguir treinar. Eu lançava 21 metros e agora, no primeiro treinamento, lancei 15. Meu índice ainda está parado, só tivemos quatro treinos até agora. Estou sem academia também. O patrocínio que eu tinha de academia acabou caindo na pandemia. Só recebo uma aposentadoria de um salário mínimo, não tenho dinheiro para pagar”, conta Washington.

Rodrigo Ferla também teve dificuldades para realizar os treinos de maneira online. A realidade de cada atleta fez com que o treinador precisasse se adaptar diariamente para que os alunos não deixassem de treinar: “Você treinar por  Zoom não é a mesma coisa. Se um atleta tem um quintal grande na sua casa, o outro mora num apartamento pequeno. Então você tem que se adaptar, tem que quebrar a cabeça para escolher os melhores treinamentos. Foi horrível esse tempo. A gente foi impedido de fazer muitos projetos”.

Em ano de Jogos Paralímpicos, as dificuldades para fazer treinamentos presenciais não foram o suficiente para desanimar Ferla. Sabendo que seus atletas precisavam desse treinamento para atuarem em alta-performance, o treinador da seleção Brasileira de Parataekwondo viajou o Brasil inteiro dando aulas individuais por pelo menos uma semana para cada atleta.

“Como eu não consegui reunir a seleção para a preparação dos Jogos Paralímpicos, fiquei viajando pelo Brasil todo para ir nos locais de treinamento individuais e conseguir auxiliá-los. Ano passado não tive tempo para ficar mais de uma semana com eles treinando, sendo que o ideal seria hoje todo mundo ficar treinando no local. Então tivemos que ter essa adaptação”.

Dentro da Associação de Deficientes Físicos do Paraná (ADFP), o problema foi maior ainda. Além de vários atletas que iriam para a Paraolímpiadas ficarem sem treinar, a ADFP fornecia fisioterapia para atletas e não-atletas. Com a chegada da pandemia, vários pacientes perderam muito do seu progresso na recuperação. 

“Nós damos atendimento a PCDs, mas tivemos que fechar justamente porque as pessoas com deficiência são mais suscetíveis ao vírus. Da mesma forma que a fisioterapia, quando fechou: todos os nossos usuários perderam a evolução e a grande maioria chegou até a ter um retrocesso”, relata Como relata o presidente da ADFP, Júnior Ongaro.

Este material é resultado de uma produção integrada, durante o primeiro semestre letivo de 2021, entre quatro disciplinas do curso de Jornalismo da UFPR: Laboratório de Jornalismo II (prof. Hendryo André), Laboratório de Radiornalismo I (prof. Rosângela Stringari), Laboratório de Telejornalismo I (prof. Elson Faxina) e Laboratório Multimídia de Jornalismo (prof. José Carlos Fernandes).

PRODUÇÃO

EMERSON ARAUJO
JULLY ANA MENDES

EDIÇÃO FINAL

CATHERINE GREIN
EDUARDO MAGALHÃES OLIVEIRA
ISABELA STANGA