Estar com uma Host Family é incomparável em qualquer lugar do mundo. Apontado como parte da experiência única de um intercâmbio pela maioria das agências, o Homestay é a chance do intercambista de viver a rotina de uma cidade estrangeira como se tivesse nascido lá.
Foi pensando nisso que, junto com apenas dois outros alunos do programa de intercâmbio do Instituto Kake, de Okayama, em parceria com a UFPR e a PUC-PR, parti para Takahashi City – zona rural da província de Okayama no Japão, para passar o fim de semana com uma família japonesa.
Zona rural no Japão, de acordo com as aulas que tivemos antes do programa começar, significa muita plantação de arroz, casas pequenas de madeira com banheiros orientais, sem camas ou cadeiras, nas quais se dorme e come no tatame. Resumidamente, o banheiro oriental é um buraco no chão modernizado com louça e descarga.

(Foto: Reprodução Namastê)
Começamos a descer a estrada em espiral que leva à entrada de Takahashi City, uma cidade no fundo de um vale cercado por montanhas muito parecidas com a Serra do Mar do Paraná. No mínimo, ia valer a experiência.
Recepção
O senso comum brasileiro está certo e errado sobre o Japão. A família que me recebeu com toda a hospitalidade japonesa morava em uma casa muito bonita e moderna – com banheiro ocidental! – no fundo de seu restaurante, um dos melhores da cidade de acordo com algumas pessoas com quem conversei. Pai, mãe e filha se viravam muito bem com o inglês e quando enroscávamos em alguma palavra, o smartphone e seu tradutor estavam prontos para ajudar, com um sinal invejável que pegava do topo da montanha até o fundo das minas de cobre da região.
Para os japoneses, receber convidados em casa é um ritual conservado com a tradição de atender o hóspede com carinho e atenção, buscando fazê-lo se sentir em casa. O que muda na zona rural é que você não é apenas um convidado de honra para a família anfitriã, a cidade inteira te recebe com sorrisos e perguntas. “De onde você veio?”, “Quanto tempo vai ficar?”, “Tão pouco assim? Que pena”.
Ou pelo menos foi isso que minha host family traduziu para mim, já que eram poucos os que falavam outra coisa além do japonês.
Moda e trajes

Desde o começo do programa, observei que meninos e meninas se vestem de maneira bem tradicional nas festas das faculdades que visitamos. As alunas, principalmente, estão sempre com suas mais coloridas yukatas, quimonos leves de verão decorados com estampas florais, faixas coloridas e um pente elaborado no cabelo.
Normalmente, é a mãe que veste a filha e cada um tem seu jeito especial de amarrar a yukata, usando elásticos, toalhas e faixas para deixar a cintura mais fina e o tronco reto, mas sem esquecer que a garota precisa respirar e comer durante o dia.
As yukatas são usadas apenas em ocasiões especiais, como festivais ou comemorações. Nesses dias, as japonesas se arrumam e saem nas ruas vestidas exatamente como se fazia há mais de 100 anos atrás. Elas são cumprimentadas e muitos perguntam: qual a ocasião especial?
Essa interação entre as pessoas é muito comum nas cidades pequenas. Passar por alguém sem dar Ohaiô (bom dia) ou Konichwa (boa tarde) faz com que você ganhe olhares tortos e caretas. Perguntar para alguma garota qual a ocasião especial que justifica a yukata é querer participar de um momento alegre e desejar felicidade a essa pessoa completamente desconhecida.
Durante meu primeiro jantar com a Host Family mencionei casualmente que achava lindo que as japonesas usassem quimonos em ocasiões especiais. Fui prontamente corrigida: quimonos no verão se chamam yukatas. Yukatas, então. No dia seguinte me perguntaram: quer experimentar uma yukata?
Minha primeira vez de yukata
E por quê não? O que não esperava era que, mesmo com chuva, essa seria a roupa para os passeios do dia. Minha host sister, Hiromi, uma moça muito prestativa que me levou para cima e para baixo durante todo o fim de semana, entrou na brincadeira. Juntas, partimos para Kurachiki, cidade com o centro histórico medieval bem conservado, tirar fotografias.
Hiromi estava muito bem arrumada com sua yukata e tamancos de madeira dirigindo o carro por uma hora em estradas com curvas de dar inveja à Serra da Graciosa. “Você consegue dirigir assim?”, perguntei com um pouco de medo, olhando para os tamancos de madeira. “Claro, estou acostumada. Não se preocupe!”
Em Kurachiki, é normal ver japonesas em yukatas comemorando uma ocasião especial com lindas fotografias nas pontes e casas antigas. Mas uma estrangeira dá para ver de longe. Foi só pisar no centro histórico para Hiromi começar a receber uma enxurrada de perguntas: “qual a ocasião especial de hoje?”.
Depois de Kurachiki ainda passeamos em um Shopping, em uma loja de departamentos e terminamos em um restaurante para experimentar o famoso Ramen, macarrão ensopado japonês.
Mudando tradições
Hiromi, como boa japonesa, me proporcionou um fim de semana agitado. Apenas passear pelas ruas de uma das cidades mais antigas do Japão, jogar Super Mário em uma Arcade e tirar as fotografias Purikura já teria transformado minha experiência com a Host Family, agora, fazer tudo isso vestindo uma yukata vai ser difícil de repetir.

(Foto: Luiza Guimarães)
No final do dia, perguntei a Hiromi o que ela respondera para todas aquelas pessoas curiosas com nossas yukatas. Ela me disse: “Eu respondi: Nenhuma festa hoje não. Ela só veio do Brasil e queria experimentar uma yukata”.
Pensei um pouco. Para mim, havia mil motivos para comemorar; o Japão, a minha Host Family, o dia muito produtivo que tivemos e, por que não, o fim de semana! Resolvi resumir tudo em uma frase. “Da próxima vez”, eu disse “vamos responder que estamos comemorando porque hoje é sábado. E nos sábados, vestimos yukatas”.