seg 15 abr 2024
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Embaixo dos panos da Casa Branca: The Post contra Nixon e a guerra do Vietnã

Como o jornal The Washington Post mobilizou a imprensa dos Estados Unidos para denunciar uma guerra sem sentido

The Post: A Guerra Secreta (no original The Post­), filme produzido e dirigido por Steven Spielberg ­­e lançado em dezembro de 2017, conta a história de como o jornal The Washington Post se tornou um dos maiores veículos jornalísticos dos Estados Unidos em 1971 através da cobertura de um escândalo envolvendo o governo do país.

Conta com a atuação de grandes atores e atrizes de Hollywood, como Maryl Streep – que, mesmo sendo uma atriz impecável, passa o filme mais apagada, tendo uma ascensão nos últimos minutos – e Tom Hanks, ator que traz suas típicas cara e bocas, comum a todos seus personagens, mas entrega uma atuação muito boa.

A obra leva novamente às telonas o clichê do “jornalista herói”, porém acerta em cheio com o tema, considerando a situação que a imprensa estadunidense vivia na época de lançamento (ataques constantes por parte do ex-presidente Donald J. Trump).

Imagem: The Post/Universal Pictures

Mesmo não sendo o periódico que deu o primeiro passo na série de denúncias, o The Post assumiu o protagonismo quando o presidente Richard Nixon tentou censurar – e conseguiu por algum tempo – o The New York Times na questão das publicações que estavam fazendo contra o Estado, correspondendo dessa forma com o lema do jornal que é “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão). Ambientado na cidade de Washington, o filme começa com Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) vazando documentos ultrassecretos para o repórter do NYT, Neil Sheehan (Justin Swain).

Sheehan se debruçou sobre os documentos por três meses para poder os analisar e, após este período, deu um dos maiores furos de reportagem para o jornal: os Estados Unidos já sabiam que a guerra do Vietnã estava perdia há pelo menos quatro anos, quando o secretário de Defesa – Robert McNamara (Bruce Greenwood) – encomendou um estudo da situação do conflito. Mas, mesmo com a derrota certa, os presidentes escolhiam seguir com a guerra iniciada no governo Eisenhower.

Imagem: The Post/Universal Pictures

Depois da notícia do NYT, uma revolta tomou conta da população, que exigia que o presidente Nixon acabasse com a guerra e parasse de mandar os jovens para a morte no sudeste asiático. O chefe do executivo, que tinha a característica de ser vingativo, estabelece uma liminar que faz com que o Times pare de publicar sobre o Vietnã. Com isso, entra em cena os protagonistas Ben Bradlee (Tom Hanks) e  Kay Graham (Maryl Streep), os quais tiveram contato com as mais de 4 mil páginas do estudo de McNamara.

A partir desta situação, a equipe de reportagem de Bradlee tem apenas 10 horas (tempo para iniciarem a impressão do jornal do dia seguinte) para analisar o máximo que pudessem dos documentos e descobrir outras faces que ainda não haviam sido publicadas pelo The New York Times.

A produção gira em torno de um mote repetido algumas vezes pelo personagem de Hanks: “o único jeito de garantir o direito de publicar é publicando”. Isso se deve ao fato de que a alta cúpula do The Post estava em um impasse, o medo de publicar as reportagens sobre o escândalo e sofrer represálias igual seu concorrente.

Imagem: The Post/Universal Pictures

Spielberg fez jus às categorias do Oscar – melhor filme e melhor atriz – e do Globo de Ouro – melhor filme, ator, atriz, diretor, roteiro e trilha sonora – que concorreu em 2018. A produção é uma obra por completo, aposta na representação da redação lotada, cheia de jornalistas fumantes falando ao telefone, que ficam no trabalho até de madrugada e servem unicamente à democracia.

A dramaticidade por trás de suas cores não muito saturadas mostra a seriedade do assunto, os enquadramentos focando nas expressões dos jornalistas em face da corrida contra o tempo traz tensão ao telespectador. Nixon nunca aparece de frente, apenas como uma silhueta vista através de uma janela da Casa Branca, o que mostra os esforços do presidente em afastar ao máximo o The Post do governo.

A versão do título no Brasil “The Post: A Guerra Secreta” superficialmente fala sobre o lado que os EUA esconderam sobre o conflito no Vietnã, mas também pode servir para referenciar o embate travado entre o presidente e a imprensa ou ainda a corrida entre os jornais para ver quem dá a manchete primeiro.

Imagem: The Post/Universal Pictures

Vale ressaltar que o filme peca na tratativa do debate feminista. Este tema da representatividade feminina se faz necessário e importante para o jornalismo, principalmente se levar em conta o processo de inversão da presença das mulheres nesta profissão, antes pouca e hoje majoritária, mas ainda com menores salários e poucos cargos de chefia. Porém, a inserção desse tema em The Post parece forçosa, como se tentassem encaixar em espaços “vagos” no filme, e isso mina a capacidade interpretativa de Maryl Streep.

A personagem de Streep é posta em uma situação de constante machismo, sua capacidade de liderar o The Post é questionada, ela se mostra insegura, com pouco poder de fala perante seus subordinados. Há um momento em que é feito um paralelo entre os homens, que conversam sobre política, e Kay Graham com as esposas daqueles (que falam sobre assuntos como “cuidar da vida social”). De repente, Graham se torna uma personagem forte, como se não passasse mais pela situação de opressão que havia sido retratada até o momento.

Imagem: The Post/Universal Pictures

A relevância que o The Washington Post ganhou com as matérias sobre a guerra do Vietnã pode se mostrar pela forma como os demais jornais com menor relevância seguiram sua iniciativa e compraram a briga com a Casa Branca (cumprindo com seu dever de servir aos governados e não aos governantes). Mas o ponto-chave nesse quesito está nas últimas cenas do filme, quando um segurança percebe que a sede do partido Democrata estava sendo invadido em Watergate.

Para quem não conhece essa história, pode parecer que o filme encerra sem terminar, no entanto, essa foi uma jogada de alto nível de Spielberg, uma vez que a invasão era na verdade uma tentativa de Nixon implantar escutas para espionar seus opositores. Quem cobriu esse que veio a ser conhecido como o “Escândalo de Watergate” foi o The Post e isso culminou com a renúncia de Richard Nixon. “Todos os Homens do Presidente”, produção de Alan Jay Pakula, retrata essa cobertura histórica do jornal de Washington.

A obra é uma excelente oportunidade de conhecer melhor a realidade do jornalismo investigativo e, ainda que com a dramaticidade que o cinema confere a história, a produção é significativa considerando que foi lançada em um cenário mundial de ataque a imprensa por parte dos líderes dos países (como Bolsonaro no Brasil). Ou seja, The Post é uma reafirmação da liberdade de imprensa, da fiscalização dos poderes e do direito de acesso à informação.

Ficha Técnica

Direção e produção: Steven Spielberg.

Roteiristas: Liz Hannah, Josh Singer.

Elenco principal: Meryl Streep, Tom Hanks, Bob Odenkirk, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Justin Swain.

Trilha sonora: John Williams.

Distribuição: Universal Pictures.

Duração: 1h56min.

Gabriel Arouca Leão
Estudante do curso de Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná - UFPR
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Estudante do curso de Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná - UFPR
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