qui 29 set 2022
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Coletivo de artistas mulheres ganha destaque na arte urbana e contemporânea de Curitiba

Com pintura de murais e abertura de sua primeira exposição, coletivo Mucha Minas traz a representatividade feminina no circuito artístico da capital paranaense

Criado pela produtora cultural Giusy de Luca, o coletivo Muchas Minas busca aumentar a produção e a representação feminina na cena artística de Curitiba. A iniciativa foi desenvolvida em março de 2020, semanas antes do início da pandemia, e une produções que têm como tema questões voltadas a maternidade, conflitos de gênero, sexualidade e o empoderamento feminino.

Desde o surgimento, o projeto realiza exposições e mostras virtuais, tendo também produzido murais em escopos de prédios pela capital. Agora, o Muchas Minas se apresenta como uma frente única de trabalhos de artistas mulheres, que leva ao público produções autorais como pinturas, esculturas, poesias, fotografias, audiovisual e murais.

Para a designer e artista visual Cris Pagnoncelli, há uma importância na representação das mulheres no cenário da arte urbana. “Temos uma maioria de obras feitas por homens, é difícil ter um trabalho grande produzido por uma mulher, mas estamos começando, aos poucos vamos trazendo mais mulheres e abrindo espaço”, afirma.

Muralismo feminino

Em 2018, Giusy de Lucca começou a trabalhar em um projeto que levava o mesmo nome do coletivo, Muchas Minas. A proposta era uma pintura na lateral de um prédio com a muralista espanhola Marina Capdevila – que veio ao Brasil pela iniciativa de apoio do escritório da Cooperação Espanhola, com o objetivo de fortalecer as relações com os países da América Latina.

Durante a pandemia, o projeto, escrito por Giusy e Bernardo Bravo, foi reconhecido e subsidiado pelo Mecenato da Fundação Cultural de Curitiba, sendo adaptado ao que viria a se tornar duas obras autorais. Finalizado em novembro do ano passado, o trabalho conta com duas empenas de 200 metros quadrados no Centro da capital, produzidas pelas artistas Marina Capdevila e Cris Pagnoncelli, localizadas ao lado do Passeio Público, na rua Presidente Faria.

À esquerda, o mural pintado por Marina Capdevilla, uma homenagem às diversas culturas gastronômicas trazidas pelos migrantes. À direita, o mural de Crys Pagnoncelli, com a palavra “Coragem”, que representa “a força que as mulheres precisam para seguir a diante”. Imagem: Izabela Morvan

A escolha do que seria pintado – por ser um projeto de lei – precisou da aprovação de diversas instâncias, desde a prefeitura da cidade até os moradores do prédio. “Decidi homenagear a Alice Ruiz, poeta e companheira de Paulo Leminski. Queria fazer uma homenagem, pois meu mural em Nova Iorque foi uma homenagem a ele. Porém, o poema que escolhi dela fala sobre desejo e sexualidade feminina e acabou sendo vetado, acharam muito ousado”, lembra Cris.

“Tive que criar uma nova arte em TRÊS dias, outros poemas também foram sendo vetados, eles aprovaram a palavra ‘coragem’, e fiquei feliz com a escolha. de certa maneira, cada um vai interagir e absorver de uma forma individual” 

Cris Pagnoncelli, sobre a definição da palavra “Coragem” para seu mural

1º Mostra Muchas Minas

Uma das últimas ações do projeto aconteceu no início de dezembro (02), com a abertura da 1º Mostra Muchas Minas, a qual conta com exposições de mais de 30 artistas mulheres que moram em Curitiba, trazendo pinturas, gravuras, colagens, esculturas, produções audiovisuais e performances. 

À esquerda, poema de Alice Ruiz, obra de Crys Pagnoncelli que foi vetada para ser pintada no mural da rua Presidente Faria.
A direita, obra de Marie Balbinot, Le Vilain Petit Canard. (Foto: Izabela Morvan).

Os trabalhos abordam desde a opressão dos padrões de beleza femininos até questões relacionadas a maternidade, relacionamentos e o pertencimento da mulher na sociedade atual, como as colagens produzidas por Bruna Alcântara, as esculturas de Nicole Lima e as pinturas de Pétala Cavalcanti, entre outros temas e artistas também presentes na exposição.

Mãe Solteira, da jornalista e artista visual Bruna Alcântara. As obras da artista são conhecidas por trazerem um olhar gentil e indagador sobre a maternidade. (Foto: Izabela Morvan).

A exposição, coordenada por Giusy de Luca e Bernardo Bravo, está em exibição no Centro Cultural Sistema Fiep, aberta ao público de segunda à sexta, das 9h às 22h, e aos sábados das 9h às 28h, até o dia 19 de fevereiro de 2022, com entrada gratuita.

Cenário artístico atual

Para Crys Pagnoncelli, o contexto atual traz a necessidade de discutir a representação feminina na arte. “A gente vive num momento de muito medo, uma cultura da violência. É importante trazer essa palavra no contexto atual, não só para mulheres, mas para explorarmos nosso lado feminino, inclusive os homens”, diz. 

Exposição foi realizada com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura. Na imagem, artistas na abertura da 1º Mostra Muchas Minas (Foto: Muchas Tintas/Divulgação).

Com aumento de interesse no incentivo ao cenário artístico de Curitiba, existe ênfase na opinião do público sobre o que é a arte de rua e o seu significado. Crys conta que vê um ambiente onde ainda os artistas não são aceitos: “Vem em boa hora a exposição dos gêmeos para cá. Acho que [a visão do público sobre o grafite] já foi melhor no passado. Ocupamos a cidade sem problemas, agora estamos sendo mais oprimidos”.

Giusy de Luca espera que isso se transforme, aumentando e visibilizando a arte de rua em Curitiba— a produtora cultural aposta na cidade como um futuro polo turístico de arte urbana. “Em cidades como São Paulo e Belo Horizonte já existem circuitos para serem percorridos a fim de proporcionar aos turistas, uma verdadeira galeria a céu aberto. Queremos isso na nossa cidade: uma galeria gratuita e de fácil acesso”, afirma.

Você encontra mais informações sobre a exposição aqui. 

Izabela Morvan
Estudante de Jornalismo pela UFPR
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Estudante de Jornalismo pela UFPR