sex 22 out 2021
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Ativismo de sofá: quando um clique muda o mundo


A Internet é a Ágora da contemporaneidade. O exercício da democracia encontra nos espaços virtuais agilidade e plenitude, onde cada cidadão tem – ou acha que tem – voz e liberdade. A exploração desse tipo de meio para discussões de grupos de gênero, agitadores políticos e sociais, justiceiros anônimos e compartilhadores de plantão é ampla e hegemônica. É aí que nasce o ativismo de sofá. O termo designa práticas que encontram nas plataformas virtuais – hashtags no Twitter, compartilhamentos no Facebook, virais no Youtube e campanhas em sites e blogs – o espaço ideal para discussão e conscientização sobre diversos assuntos que dizem respeito às minorias e à sociedade em geral.

É difícil pensar em movimentos que foram alavancados com o uso das redes sociais sem se lembrar da Primavera Árabe, que levou milhões de manifestantes às ruas de diversos países do Oriente Médio para protestarem por cidadania. Difícil também não se recordar de grandes mobilizações como os Caras-Pintadas e as Diretas Já e imaginar qual seria o impacto do uso das redes sociais em suas organizações. “As pessoas hoje já não têm mais quando nem como irem às ruas para protestar”, afirma a Profª. Drª. Kelly Prudencio, do Departamento de Comunicação da UFPR. “O objetivo já não é mais somente ter uma comissão de protestantes que represente aquela multidão e leve a discussão ao Congresso, por exemplo. O espaço virtual, seja ele a Internet, o rádio ou a TV, permite a participação à distância e procura mudar a percepção sobre a causa, chamar a atenção para um ponto de vista”, explica. A professora ressalta ainda que as necessidades da agenda da pauta civil encontram no ativismo uma alavanca para atingir a agenda da pauta política.

As internet na construção da imagem pública
Marco Feliciano, Renan Calheiros e Silas Malafaia. Todos sabem que eles “não representam” os usuários das redes sociais. Mas qual a real eficácia de clicar nos botões “curtir” e “compartilhar” sentado em um sofá no conforto da sua casa? Dois milhões de assinaturas em uma petição online a favor do projeto de lei da Ficha Limpa tiveram sucesso politicamente. Na contramão, mais de um milhão e meio de assinantes não conseguiram evitar que Renan Calheiros concorresse à presidência do Senado.

Uma coisa é certa: o poder de enfraquecimento e deterioração da imagem de grupos e pessoas através da Internet é imenso, assim como o de exaltação de outros. João Paulo Passos é estudante de Ciências da Computação da Universidade de Brasília e internauta ávido, e virou feminista lendo páginas do Facebook. Apesar de não se considerar um ativista pleno e fervoroso, participa de todas as edições da Marcha das Vadias em Brasília e outras manifestações de cunho liberal na cidade. Aprendeu a expressar sua opinião contra o machismo e defender o casamento gay e causas de minorias. “Eu acho que as vantagens [da Internet] são a fácil organização e agregação de pessoas, a exposição que não tem limites, podendo alcançar todas as pessoas que a frequentam, e a livre e expressiva manifestação de opinião”, argumenta o estudante a respeito dos espaços virtuais.

Eficácia além da discussão
Algumas iniciativas vão mais longe e agem além da discussão e conscientização. O grupo Anonymous, por exemplo, é conhecido por praticar ciberativismo e vigilantismo na Internet. Seu foco é agir contra crimes envolvendo o espaço virtual – pedofilia, bullying, assédio sexual –, mesmo não tendo nenhuma relação com poderes oficiais. O caso mais recente é a descoberta dos supostos envolvidos no que culminou no suicídio da jovem canadense Rehtaeh Parsons depois de ser estuprada, fotografada (tendo suas fotos divulgadas na Internet) e perseguida. A polícia local não permite que os nomes sejam divulgados, porém o Anonymous ameaça fazê-lo caso as autoridades não “se mexam” em justiça à jovem Rehtaeh. “Justiça com as próprias mãos” define a atividade do grupo.

Curtir salva vidas?
Por outro lado, a sensação de filantropia que compartilhar fotos de órfãos e famintos na África traz, revela a hipocrisia – ou a inocência – de quem se senta atrás de uma tela achando que esse é o meio de fazer a diferença. Procurando combater tais atitudes, a UNICEF criou a campanha “Likes don’t save lifes” (“Curtir não salva vidas”, em uma tradução literal), com o discurso de que ONGs não se mantêm apenas com um grande número de “espectadores”. Para fazer a diferença é preciso, no mínimo, doar dinheiro. A professora Kelly Prudencio defende, no entanto, que considerar a quantidade de pessoas que confirmam um evento no Facebook, por exemplo, contando mesmo as que não comparecem é tão importante quanto as que realmente presenciaram, pois tal número indica quem apoia aquele movimento. “Toda e qualquer ação feita virtualmente tem seu peso, é um mundo intrínseco ao real”, conclui.

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