seg 18 out 2021
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Brasil e Moçambique estreitam laços com projeto de extensão da UFPR

Professor do Departamento de Comunicação (Decom) da UFPR, Toni André Scharlau Vieira participa do programa “Educomunicação e Desenvolvimento Social Moçambique – Brasil”, um projeto de pesquisa e extensão de cooperação internacional. Ele coordena o Núcleo de Comunicação e Educação Popular (Ncep) do Decom em parceira com várias entidades de Curitiba e região. Depois de 6 meses em Maputo, capital de Moçambique, ele divide um pouco de sua experiência em entrevista cedida ao Jornal Comunicação. Confira:

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Foto: Bruna Remes

Jornal Comunicação: Como funciona o programa?

R: O governo brasileiro, numa política para ampliar as relações com os países do hemisfério sul, criou o CAPES/AULP (Associação das Universidades de Língua Portuguesa). Contempla convênios e projetos desenvolvidos conjuntamente entre Universidades Brasileiras e dos países de língua oficial portuguesa, especialmente os da África e da Ásia. No projeto aprovado, há um convênio com a Universidade Eduardo Mondlane, uma universidade pública de Moçambique. Esse projeto foca especialmente na perspectiva da Educomunicação.

JC: E quanto aos resultados? Há muita diferença entre os alunos daqui e os alunos de lá?

R: Há uma valorização dos alunos de lá para a intelectualidade brasileira, e o conhecimento que eles têm sobre a nossa cultura é imenso. Em contrapartida, eu dei uma disciplina à distância (de Moçambique), falando sobre a África Contemporânea, tentando desmistificar um pouco a mensagem errada que nós temos da cultura africana. Foi um saldo muito positivo, porque os alunos daqui conseguiram perceber e fazer pesquisas para entender a realidade que a África vive, e tirar um pouco daquela imagem que foi construída há muitos anos de que é um continente atrasado.

JC: E quais são as maiores dificuldades?

R: Uma das maiores dificuldades ainda é a burocracia. Acredito que o problema seja gerado porque as pessoas que coordenam a gestão dos projetos não são da área acadêmica. Nunca foram pesquisadores nem trabalharam na área científica, então desconhecem completamente a realidade, agindo simplesmente em cima do que está no papel, na lei, sem ter nenhum diálogo com os pesquisadores. O resultado disso é que temos uma paralisação do projeto.

JC: E para você, pessoalmente, como foi essa mudança?

R: Eu tive muita sorte. Houve a liberação para trabalhar o projeto lá em Moçambique e isso rendeu. Eu pude viver mais a realidade do ensino do país e colaborar bastante com as atividades que são desenvolvidas, em função da proximidade que eu criei com o coordenador local, um professor doutor que é vice-diretor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade. Lá existem dificuldades locais que também residem na burocracia e na lentidão da estrutura deles. Por exemplo, a internet é muito ruim, não tem velocidade, entre outros problemas de estrutura geral. Eles estavam sem aula de telejornalismo desde o final de 2013. Eu estou trabalhando na estruturação de cursos de especialização e mestrado, oferecendo palestras e participando de eventos, o que tem envolvido bastante os alunos.

JC: Com relação ao intercâmbio, quais são as expectativas para os alunos daqui, que estão indo, e para os de lá, que estão vindo?

R: Os alunos que estão vindo para cá devem chegar em fevereiro. Eles estão mais adiantados porque estão com o bilhete aéreo comprado e têm algumas coisas melhor estruturadas. Os alunos daqui enfrentam maior burocracia e estão mais atrasados em função dessa paralisação que a CAPES está proporcionando. Mas o aspecto interessante é o intercâmbio cultural. Coisa de qualidade e importância mundial e que aqui não tem nenhum tipo de repercussão.

JC: Você acha que uma experiência dessas pode ter te mudado como pessoa?

R: Com certeza. Todo o conhecimento gera um novo comportamento. A começar pela própria experiência de viver no continente africano. Eu já havia viajado para a Europa, já havia saído do país, mas ainda não havia vivenciado a experiência de conhecer o berço da civilização humana. O povo moçambicano, por exemplo, fala a língua portuguesa, mas também fala as línguas ancestrais. No cotidiano de Maputo, o idioma é Changana, uma das várias línguas originadas da civilização Bantu. Eu cresci muito em função deste conhecimento com a cultura ancestral dos africanos. Um povo muito hospitaleiro e que tem uma identidade com o Brasil que nós precisamos preservar, cultivar e ampliar.  Espero que, quando eu voltar para o Brasil, possa trabalhar essa questão.

 

 

 

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