sáb 23 out 2021
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De promessa a lanterna

Estreia na Superliga 2011-2012. Time paranaense perde de 3×0 para o Cimed-Sky – Foto oficial Londrina Volei

A temporada 2011/2012 não vai ser esquecida tão cedo pelo torcedor do Londrina Vôlei. O time que despontou na Superliga masculina passada e prometia ser a menina dos olhos do estado surpreendeu neste ano – e não no bom sentido. A equipe enfrentou diversos obstáculos – dentro e fora de quadra – e acabou rebaixada. A queda da surpreendente nona posição na temporada de estreia, 2010/2011, para a lanterna no ano seguinte instiga quem acompanha o esporte. As respostas, porém, ainda deixam lacunas na cabeça do torcedor.

Deslanchando sobre gigantes

O Londrina Vôlei é um dos times mais jovens a ganhar destaque no circuito nacional. A equipe masculina do Instituto Pró Esporte de Londrina surgiu em 2010, com o objetivo de competir na Superliga Brasileira. Foram contratados jogadores de ponta e a garra do elenco rendeu vitória sobre alguns gigantes, como Vôlei Futuro, Sesi (que viria a levantar o troféu naquele ano) e Cimed (tetracampeão da Superliga), ficando a apenas um ponto de se classificar para a segunda fase.

O segredo do sucesso é muito simples, segundo o atual presidente do Instituto, Mateus Goebel, que assumiu a diretoria no final de 2011. “Formou-se primeiramente uma consultoria para montar o grupo e só depois é que se trouxe o treinador Chiquito. Quando o treinador vem primeiro, ele traz o seu time anterior, como ocorreu na temporada de 2012 com o Donegá”, referindo-se ao técnico que comandou a equipe no último torneio e acabou envolvido em uma série de polêmicas. “Além disso”, complementa, “a diretoria passada contratou um grupo acima do orçamento. Eram jogadores de nível superior e a dívida deixada por eles ainda existe”.

Londrina Vôlei – Divulgação

Parceria às pressas

Por conta deste passivo gerado em 2011, o Londrina Vôlei corria o risco de não participar da Superliga 2011/2012 – a equipe estava sem treinador nem patrocínio. A esperança apareceu na parceria firmada em outubro do ano passado com o Instituto Pró Vôlei de Blumenau, que também enfrentava dificuldades financeiras e de infraestrutura e havia decidido não participar da competição. O acerto fez que o time catarinense cedesse comissão técnica, jogadores e patrocínio ao Londrina.

No entanto, segundo o torcedor Lucas Adriano Pereira, formado em Educação Física e torcedor de vôlei desde a infância, foi justamente a parceria que atrapalhou o desempenho londrinense nas quadras e culminou em derrotas. “Quando vi o elenco que iria competir, percebi que não daria pra chegar muito longe”, constata Pereira. Associado à falta de planejamento e ao despreparo físico dos jogadores, o acordo foi um dos grandes responsáveis pelo rebaixamento do jovem Londrina.

Percalços no caminho

Dos 22 jogos disputados pelo Londrina Vôlei na última temporada, a equipe venceu somente três. O triste cenário torna difícil apontar apenas um culpado, uma vez que a temporada ficou marcada por uma série de percalços. De acordo com o integrante do elenco londrinense na Superliga atual, Thiago Machado, o Thiagão, os jogadores que Donegá levou do Blumenau – ele, inclusive – para jogar no Paraná estavam sem preparador físico. “Quando o Pedro (Braz, preparador do Londrina) viu que estávamos fracos e precisávamos ganhar força, já era tarde demais. Tínhamos que estar bem no começo do campeonato, mas o time acabou perdendo os primeiros jogos e isso afetou todos os outros”, admite.

Foto oficial Londrina Volei

Outras polêmicas foram o desvio de verbas do patrocínio, o pedido inesperado de demissão via e-mail de Donegá após não comparecer a duas partidas (levando junto os patrocinadores do Blumenau) e a mudança de diretoria do Instituto Pró Esportes de Londrina no meio do campeonato. A equipe ainda enfrentou um episódio de intoxicação alimentar generalizada em Florianópolis, e ficou debilitada para disputar o jogo seguinte contra a equipe de Monte Carlos.

Todo este turbilhão afetou o psicológico dos jogadores. “O pessoal começou a ficar preocupado com a vida fora de quadra e isso interferiu no time”, recorda Thiagão. Segundo ele, o ataque e o saque eram os pontos fortes da equipe, mas não foram suficientes para suprir as carências. “A deficiência era a recepção, sofremos muito mais do que o permitido por conta disso”, confessa o atleta.

Mas o gerente de marketing do clube, Edson Miúra, não culpa os atletas e sim o acordo com os catarinenses. “Eles ficaram comprometidos até o fim. O problema foi a parceria com o Blumenau e a parte financeira. Com isso, a credibilidade da comissão técnica fica abalada”, relata Miúra.

A administração recém-chegada também sofria com as próprias limitações. “Não tivemos escolha pra montar o time. Foi muito difícil para a nova diretoria assumir, porque só administramos problemas. Assumimos isso com o prefeito de Londrina (Barbosa Neto), mas ainda houve o problema do abandono do Donegá e do desvio de verba”, reitera o presidente Mateus Goebel, que acusa o ex-treinador londrinense de desviar o repasse dos patrocinadores e informa que a diretoria já entrou com uma ação judicial para tentar reaver estes valores.

Expectativas da torcida não passam do bloqueio

Apesar da tradição de formar bons atletas do vôlei, o Paraná não era representado em competições nacionais masculinas até 2011. Com a estreia do Londrina, o torcedor paranaense marcou presença e rendeu à equipe a maior média nas arquibancadas da Superliga 2010/2011.

Como consequência natural do nono lugar no torneio anterior, a expectativa era grande para a nova temporada. Cerca de 2.500 pessoas compareceram ao ginásio do Moringão no primeiro jogo do Londrina, diante do Cimed (derrota por 3×0). Porém, de acordo com Miúra, “produto ruim não consegue trazer consumidor”. Como consequência da má fase, a última partida disputada (vitória por 3×0 sobre o Montes Claros) reuniu apenas 500 torcedores, mesmo com entrada gratuita.

A fã da Superliga Thays Letícia da Silva, de 19 anos, acompanha de perto todos os jogos da equipe desde 2011, e conta que os atletas da última temporada se abalaram mais com as derrotas que os da campanha anterior, e sugere mudanças para as próximas disputas. “O time teria que trazer jogadores mais fortes, não com fama necessariamente, mas mais resistentes, principalmente o levantador. A equipe também precisa de mais de entrosamento”, conclui Thays.

Torcida londrinense – Foto: Olga Leiria

Próximo passo

Rebaixado duas rodadas antes do término da primeira fase da Superliga Masculina deste ano – com sete pontos de diferença para o penúltimo colocado – o time londrinense acabou envolvido em rumores de que fecharia as portas. Entretanto, o presidente da equipe garante que o time segue em frente, pelo menos por enquanto.

“Estamos comprometidos com diversos projetos sociais e temos compromisso firmado com a prefeitura municipal por mais dois ou três anos. Vamos quitar os contratos até maio com o auxilio da Prefeitura, dar andamento aos projetos, e não vamos disputar o Campeonato Paranaense como forma de economizar para a próxima Superliga”, discorre Mateus Goebel.

Goebel explica também que os valores são essenciais para o Circuito Nacional e não promete a manutenção da equipe para o ano que vem. “Temos que ser realistas. Se tiver dinheiro, dá. Se não, não dá. Há poucos atletas no mercado, o que aumenta os salários. A Superliga é um campeonato elitista. Daqui uns anos terão apenas seis times competindo se continuar assim”, reforça o presidente.

Neste momento, o Londrina tem a opção de disputar a Série B ou buscar bons patrocinadores para tentar voltar à elite na próxima temporada. Isso é possível na estrutura do campeonato, pois, das 12 equipes que disputam o nacional, oito são os melhores classificados da edição anterior, três são convidados e um sobe da Superliga B. “O convite vai para os melhores projetos, que apresentam a melhor estrutura e disponibilidade de verba”, explica o gerente de marketing Miúra.

A expectativa da administração é somar, no mínimo, 3 milhões de reais em patrocínio para a próxima temporada. Apesar da possibilidade de obter a verba, Goebel não deixa a crítica de lado. “Falta muito apoio no Paraná. O Estado não tem a cultura de investidores no esporte, e isso não ocorre só com o vôlei. As empresas têm que ver que investir no esporte tem mais retorno de mídia que uma campanha de televisão”, atesta. :::

A redação entrou em contato com Donegá, mas por orientação jurídica ele não concede mais entrevistas sobre o caso.

Matéria originalmente publicada na edição n°1 de 2012 do Jornal Comunicação Impresso

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