qua 05 out 2022
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Dia do orientador educacional ressalta importância do profissional nas escolas

Principal objetivo do profissional é contribuir no processo de direcionamento do aluno, visando pleno desenvolvimento como estudante e cidadão. Desde aprovação da LDB 9394/96, presença de orientadores educacionais no ensino público deixou de ser obrigatória

No último sábado (4) foi comemorado o Dia do Orientador Educacional, profissional contribui diretamente com a transformação social de crianças e jovens. Embora a Lei nº 5.564, que prevê o exercício da profissão, tenha sido aprovada em 21 de dezembro de 1968, a presença do profissional não é uma realidade na maioria das escolas brasileiras.

Em 1908, na cidade de Boston (EUA), Frank Parsons, um professor americano, reformador social e intelectual público, criou um sistema de orientação de carreira para adolescentes, que posteriormente foi chamado de orientação profissional.

Anos mais tarde, o sistema foi implantado nas escolas com a intenção de orientar os alunos quanto à profissionalização e o mercado de trabalho, o que hoje é conhecido orientação vocacional. Esse contato direto com os alunos fez com que o profissional percebesse as dificuldades, as dúvidas e os conflitos que os estudantes enfrentavam no dia a dia, o que ia além de uma escolha de carreira.

A partir desta observação, passou-se a compreender que o fator emocional e psicológico do aluno também possuem grande importância no processo educacional. No Brasil, a orientação educacional teve grande influência do modelo americano, em especial o counselling (aconselhamento). Hoje, segue-se a linha histórico-crítica, que visa o desenvolvimento físico, mental e principalmente sócio-emocional.

O que faz um orientador educacional?

O papel do Orientador Educacional (OE) nas escolas é muito amplo e de extrema importância em todo o período educacional, pois busca a formação integral do estudante, trabalhando em conjunto com várias esferas sociais.

O trabalho de orientação passou por diversas etapas e transformações ao longo do tempo para se adaptar às mudanças da sociedade. Para desenvolver suas atividades, é preciso que o OE conheça a realidade na qual está inserida a escola, e principalmente a realidade dos estudantes, levando em conta suas características e vivências. Isto é fundamental, já que influencia o processo de ensino e aprendizagem, que antes acontecia somente na escola, e passou a abranger, entre diversos outros campos, a família, o trabalho e os meios de comunicação.

As escolas vêm enfrentando diversos desafios, como indisciplina, desinteresse e conflitos familiares. Neste contexto, mediar tantos problemas se tornou impraticável sem a presença do orientador, que precisa trabalhar o contexto geral do estudante, agindo como uma ponte entre os alunos e o corpo docente. A ação do OE pode promover melhorias na convivência dentro e fora da escola, descobrindo novos métodos para auxiliar nas dificuldades dos estudantes.

Em alguns estados brasileiros, o orientador faz parte da equipe de gestão escolar da rede estadual, como acontece no Distrito Federal, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Em outros locais, o profissional não existe. O enfoque dado às atividades que o orientador desempenha é bastante questionado, passando por modificações de acordo com cada estados e suas regulamentações.

Orientação educacional é um papel indispensável na formação integral dos alunos. Infográfico: Kaila Cristina.

“Uma escola sem um orientador é uma escola sem perspectiva de futuro, que só fica apagando incêndios”

Andreia Geisa Oliveira Pereira, orientadora educacional

Andreia Geisa Oliveira Pereira, de 37 anos, é orientadora educacional e trabalha no Centro de Ensino Especial 01, que fica em Planaltina, no Distrito Federal. Ela conta que foi professora por 12 anos, e, estudando para um cargo efetivo, descobriu vagas para orientador em seu estado. Foi o momento em que decidiu se aprofundar no assunto. “Quando eu vi que a orientação educacional era lidar com problemas sociais, como maus tratos, assédio sexual infantil, drogas e suicídio, percebi que se enquadrava no meu perfil mais prestativo, e poder ajudar os alunos é muito gratificante para mim”.

Durante seu período como professora, explica que era muito difícil alfabetizar 30 crianças e, ao mesmo tempo, tentar conciliar os problemas familiares da turma, o que a deixava extremamente desgastada. “Descobri que eu poderia ficar dentro da escola, somente na orientação familiar, uma área que eu gosto, então resolvi tentar. Estudei para o concurso e passei,” completa.

Sobre a importância do profissional no contexto escolar, Andreia ressalta que o trabalho do orientador com os alunos resulta em adultos mais empáticos, sociáveis e emocionalmente controlados, pois a orientação propõe entendimento e autoconhecimento. “Quando a instituição não possui essa visão integral do estudante, e o trabalho de prevenção que é garantido pelo profissional de OE, tudo que a escola faz é apagar incêndios”, afirma.

A prevenção de suicídio é uma das maiores preocupações dos orientadores. Sobre este aspecto, a profissional diz que, durante um levantamento feito por ela em uma das escolas em que trabalhou, constatou que mais de 50% dos alunos apresentavam quadros de ansiedade, depressão e baixa autoestima. A partir disso, criou um projeto para lidar com estas dificuldades.

“Criei grupos pequenos para trabalhar a questão da autoestima, coloquei cartazes com frases motivacionais pela escola inteira, chamei ex-alunos que foram bem sucedidos para conversar com eles, fiz dinâmicas, e em alguns casos conversei individualmente com alunos e os encaminhei para o psicólogo”, relata.

Em outro projeto, Andreia conta que reuniu pequenos grupos de meninas para falar sobre educação sexual. “Propus uma roda de conversa com alunas que não estavam tendo orientação sobre higiene íntima e o uso do absorvente. No final, maquiamos as meninas e lhes demos um book de fotos para incentivar a autoestima e o autocuidado que foi deixado de lado por muitas na pandemia”.

Hoje, a orientadora trabalha no Centro de Ensino Especial, uma instituição para crianças com deficiências intelectuais e físicas. Ela conta que as demandas são diferentes, e o trabalho inicial do OE deve ser principalmente de observação para identificar os problemas. “Por causa das comorbidades dos alunos, muitos pais não podem trabalhar e dependem de benefícios do governo. Durante a pandemia, muitos tiveram seus benefícios cortados, então fiz uma busca ativa para que todos fossem inseridos no Cras [Centro de Referência da Assistência Social] e tornassem a receber o que tinham direito”.

Para Andreia, um olhar sensível sobre a realidade do outro é indispensável. Ela luta para propagar a importância do orientador na formação de crianças e jovens que se tornarão cidadãos ativos na sociedade. Seu maior sonho é que a presença do profissional seja uma realidade em todas as escolas do Brasil.

Kaila Cristina
Estudante do curso de Jornalismo da UFPR.
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