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Diversidade dentro do movimento feminista marca seminário acadêmico

“Mulheres que ousam lutar” foi o tema do Seminário Horizontes 2014, realizado entre os dias 8 e 10 deste mês, no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná. Organizado pelo Partido Acadêmico Renovador (PAR), coletivo local dos estudantes de Direito da UFPR, o evento – que acontece anualmente desde 2008 – neste ano discutiu temas como violência e gênero, mulher e discurso na mídia, violência obstétrica e transfeminismo.

Débora Pradella, estudante de Direito da UFPR e uma das organizadoras do seminário contou que o tema “Mulheres que Lutam” foi escolhido pela necessidade de abordar o feminismo no meio acadêmico. “O discurso de que as mulheres já conseguiram a igualdade de gênero sabemos que é falso”. Débora acrescenta que mesmo as mulheres sendo maioria dos alunos no curso de Direito, os cargos de poder apresentam representatividade feminina muito ínfima. “Diretores de setor, cargos acadêmicos são todos majoritariamente ocupados por homens”.

Violência contra mulher, movimento trans e a violência obstétrica foram algum dos assuntos abordados no evento (Foto: Divulgação)

Participação da comunidade

O evento, que teve atividades no período da manhã e da noite, contou com a participação de pessoas de outras cidades e estados, tanto como ouvintes como oradores. “Abrimos edital para chamadas de trabalho e tivemos muitos estudantes de São Paulo, Minas Gerais e Londrina inscritos. Isso mostra que o evento tem reconhecimento fora do Paraná”, conta Débora.

Pedro de Perdigão, estudante de Direito do 2° ano da UFPR, assistiu grande parte das palestras e achou a abordagem dos assuntos bem completa. “Várias pautas secundárias do feminismo foram tratadas, como o movimento trans e a violência obstétrica. Às vezes elas ficam muito invisíveis no movimento feminista para a sociedade, e o evento foi sensacional em colocá-las para discussão”, opinou o estudante.

Transfeminismo em pauta

Cerca de 50 pessoas, na quinta-feira (10), compareceram ao seminário que abordou Identidade e os Movimentos Sociais. Compondo a mesa estavam Letícia Lanz- psicanalista, integrante do Grupo Esperança e militante do movimento trans-, e Jaqueline Gomes de Jesus, psicóloga e pesquisadora em Diversidade e Identidade pela Universidade de Brasília (UnB).

A psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus explorou em sua fala o preconceito. Para a pesquisadora, ele não se soma quando se tem alguém negro e também transexual ou homossexual, mas se multiplica a níveis tão altos que desconhecemos. Ainda declarou que o Brasil é o país que mais mata trans e travestis -resultado do alto preconceito que chega ao ponto de não verem estas pessoas como humanos-. “Aqui (no Brasil) exploram seus corpos, violam e pensam que podem matar”, afirmou a psicóloga.

A militante Letícia Lanz tem uma história diferente. Com 50 anos decidiu assumir a identidade trans. Casada e com filhos, manteve a família do mesmo modo de quando tinha identidade masculina. Odeia rótulos e muitas vezes sofre preconceito dentro do próprio movimento trans por causa deles. “Tem gente que não aceita minha condição heterossexual, que eu seja trans e continue casada e amando uma mulher”.

“Eu nasço com a minha essência. Não com essência de homem ou de mulher”, declara Letícia Lanz (Foto: Amanda Pupo)

Letícia trouxe para o debate três definições que considera importantes para entender a identidade trans: gênero, sexo, e orientação sexual. Para ela, da dificuldade em separar estes três pontos surge o conceito da binaridade homem e mulher, que não aceita quem assim não se define. “Estas criações, por exemplo, de que se alguém nasce com vagina, necessariamente deve ter a orientação sexual oposta, se sentir atraída pelo sexo masculino, são criações feitas para controlar as pessoas”.

Questionada pelo público sobre a validade das identidades na luta por direitos, ela fez crítica a alguns movimentos sociais e afirmou que acabar com definições não deve afetar os movimentos, mas enriquecê-los. “Existem movimentos que criam as pessoas que eles querem defender, impondo ordens, temos que fazer uma sociedade onde os personagens excluídos sejam incluídos, e para isso temos que acabar com a diferenciação, que só foi criada para gerar hierarquização”, completa.

A psicanalista é clara ao afirmar que não gosta das várias definições que vêm surgindo sobre gênero. Defensora da Teoria Queer- conceito que recusa a classificação dos indivíduos em categorias universais como “homossexual”, “heterossexual”, “homem” ou “mulher” – ela sustenta que estas escondem um número enorme de variações culturais. “As identidades são vazias na maior parte. Somos iguais, mas somos múltiplos. Minha luta é por direitos, não por identidade”, conclui Letícia.

 

 

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