qui 21 out 2021
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Injusto, porém necessário

Existe outra saída?
Foto: Divulgação

No dia 18 de outubro, o Brasil parou para ver um grupo de ativistas da Frente de Libertação Animal invadir um centro de pesquisas para resgatar cerca de 200 cachorros da raça beagle. O local é o Instituto Royal, um dos centros de referência no país para pesquisas em fármacos, sediado em São Roque (SP). A ação aconteceu na madrugada daquela sexta-feira, após o grupo passar a tarde protestando em favor dos animais.

Os cães são usados nas pesquisas de medicamentos que serão lançados para verificar o aparecimento de reações adversas, como vômito, diarreia, perda de coordenação e convulsões. Muitos acabam sendo sacrificados antes mesmo de completarem um ano, para que seja feita uma avaliação dos efeitos dos medicamentos nos seus órgãos.

O Instituto Royal nega as denúncias de maus-tratos. O prefeito de São Roque, Daniel de Oliveira Costa, determinou na última sexta-feira (25) a suspensão por um prazo de 60 dias do funcionamento do centro.

Esse caso exaltou os ânimos dos grupos ativistas e trouxe à tona discussões sobre como devem ser feitas as pesquisas de medicamentos. O maior impasse está na divergência entre os defensores dos direitos dos animais – que repudiam os testes, alegando serem inúteis e cruéis – e os pesquisadores – que argumentam serem necessários para o avanço dos medicamentos, pois sem eles a medicina seria fortemente prejudicada.

Primeiramente, deve-se entender como acontecem as pesquisas que usam animais como cobaias – principalmente mamíferos. De acordo com o site do Projeto Esperança Animal (PEA), existe uma diferença entre a vivissecção e os testes. A primeira trata-se da dissecação dos animais vivos para o estudo. Já o segundo é todo e qualquer experimento com a finalidade de obter resultados “seja de comportamento, medicamento, cosmético ou ação de substâncias químicas em geral”, aponta o PEA. Eles são realizados, habitualmente, sem o uso de anestésicos.

Segundo consta no livro “A verdadeira face da experimentação animal” (Sergio Greif e Thales Tréz, 2000, Sociedade Educacional Fala Bicho), entre os processos mais comuns estão: teste de irritação dos olhos, teste LD 50 (dose letal 50%) usado para a medição da toxicidade de certos ingredientes, testes de toxicidade alcoólica e tabaco, experimentos de comportamento e aprendizado (durante os quais os animais são submetidos a todo tipo de privação), experimentos armamentistas (testes de irradiação de armas químicas), pesquisas de programa espacial, teste de colisão, pesquisas dentárias, dissecação, cirurgias experimentais e a experimentação animal na educação. O teste utilizado pelo Instituto Royal, o farmacológico, caracteriza-se pela injeção intravenosa, intramuscular ou diretamente no estômago de drogas. Os resultados são verificados e registrados.

Os experimentos em animais são proibidos ou liberados de acordo com a legislação de cada país. No Brasil, eles ainda são permitidos. Existem métodos alternativos que estão sendo desenvolvidos e aperfeiçoados e que devem ser substitutivos. Há um moderno processo de análise genômica e de sistemas biológicos in vitro, que já está sendo implantado por alguns pesquisadores brasileiros. Existem, também, as culturas de tecidos provenientes de biópsia, cordões umbilicais ou placentas descartadas, que eliminam completamente o uso de animais. Além das vacinas que podem ser fabricadas pela cultura de células humanas. E, ainda, nos Estados Unidos existem os testes em voluntários, que se dispõe a receber adesivos colados em suas peles para o diagnóstico de alergias.

No Brasil, entretanto, o avanço que leva ao fim do uso de animais em experimentos é mais lento. Isso porque o primeiro investimento formal em métodos alternativos só ocorreu ano passado, quando um edital foi implantado abrangendo nove projetos para pesquisas que não utilizassem animais.

Apesar do desenvolvimento dessas alternativas, que mesmo não substituindo todos os procedimentos com animais cria uma réstia de esperança para a causa, me pergunto: será que a sociedade está disposta a abrir mão do uso de animais em pesquisas, com medo do risco de acabar interrompendo o avanço científico e o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e métodos cirúrgicos?

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