qui 28 out 2021
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Memórias de um grupo de travestis

Cris Negão “tinha o corpo fechado e por isso não morria”; “era uma gata, tinha sete vidas”, dizem as travestis nos depoimentos.   Foto: Divulgação

A segunda etapa de filmes nacionais do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba começou na última quinta-feira (13), no Espaço Itaú de Cinema, com a exibição do documentário “Quem tem medo de Cris Negão?”, do diretor René Guerra. Apaixonado pelas personagens da vida real, como se descreve, Guerra é também o roteirista desse curta-metragem de 25 minutos.

Cristiane Jordan, a última cafetina travesti da região paulista da Amaral Gurgel, foi assassinada, com dois tiros na cabeça, na noite de 06 de setembro de 2007, em frente ao bar Elenice, na Rua Rego Freitas. Cris Negão, como era conhecida (apesar de preferir ser chamada por Cristiane ou Cris Jordan), comandava o movimento em torno da prostituição de travestis no centro de São Paulo. Para isso, abusava da força e tinha o costume de cobrar “multas” por motivos aleatórios.

Através de depoimentos de algumas travestis que conviveram com ela nas ruas da capital, conhecemos a personalidade e irreverência dessa figura odiada e temida pela maioria, mas que também tinha uma legião de fãs. São histórias emocionantes e, ao mesmo tempo, engraçadas. Contam lembranças das ruas, por que Cris era temida, descrevem como foi a última vez em que estiveram com ela e o que estavam fazendo na noite de seu assassinato.

O documentário é uma espécie de interrogatório. “Quero saber se é um policial ou um jornalista, porque aí a entrevista é diferente”, fala uma das travestis logo no início do curta. “É um policial”, responde uma voz de homem que se repete poucas vezes ao longo das cenas. Outra prostituta conta que, na noite do assassinato, Cris iria dormir na casa de sua Mãe de Santo, mas sem maiores explicações, decidiu que precisava cuidar da rua. Pouco tempo depois, um menino de um metro e meio chegou por trás de Cris e lhe deu dois tiros na nuca. “Ela ainda teve a pachorra de virar para trás e dar uma bolsada no garoto. Essa era Cris Negão!”, revela.

A investigação, encenada no filme, é a alternativa escolhida por Guerra para tratar desse assunto polêmico e sem solução – a identidade do assassino não foi descoberta até hoje. O documentário, que é muito bem escrito e dirigido, foi a escolha do diretor para retratar a vida da polêmica Cris Negão. Guerra poderia ter produzido um curta explorando a vida do travesti nas ruas, em uma realidade-ficção, com atores e cenários falsos. No entanto, optou por um caminho mais nobre: utilizando depoimentos das personagens reais que conviveram com ela, Guerra conta a trágica história de Negão apenas gravando as travestis que conheceram, amaram e odiaram Cristiane Jordan.

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