ter 26 out 2021
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Migrantes enfrentam preconceito em Curitiba

Haitianos comemoram o Dia da Bandeira junto com a Casa Latino-Americana

Eles vêm do mundo todo: América Latina, África, Índia e Oriente Médio são os principais países a enviar imigrantes para o Brasil. A maioria destes estrangeiros entra ilegalmente, pela fronteira da Bolívia com o Acre e apenas depois procura legalizar sua situação. O que muitos veem como uma invasão ilegítima é, na verdade, uma horda de fugitivos de sociedades destruídas, que vêm ao Brasil em busca de oportunidades para melhorar de vida.

Segundo o censo de 2010, há 13 mil estrangeiros na região de Curitiba, entre imigrantes e refugiados. A Fundação Casa Latino-Americana, ONG que auxilia esse grupo, pretende realizar uma pesquisa para quantificar quantos desses vieram para cá em situação de risco – os haitianos, por exemplo, se concentram nos bairros Santa Felicidade, Butiatuvinha e Sítio Cercado, entre outras áreas da região metropolitana.

Política de imigração

A burocracia para legalizar a situação do cidadão estrangeiro no Brasil é demorada e cansativa para imigrantes e refugiados, que precisam justificar os motivos por terem saído de seus países. A exceção são os haitianos, que, em virtude do terremoto de 2010, podem entrar como refugiados com um formulário mais simples sem serem barrados. Outro grupo preferencial é o de sírios, que, por conta da guerra, podem entrar com mais facilidade no Brasil.

Depois que os imigrantes e refugiados entram no país, o governo não oferece mais nenhuma ajuda a eles. “O Brasil deveria ter uma equipe multidisciplinar para receber os refugiados, fazer uma triagem, encaminhar para empregos, dar orientação psicológica. Nosso país não oferece nada disso”, explica Samira Mohsen Tomé, advogada e assessora jurídica da Casa Latino-Americana. Quem faz esse trabalho de ajuda humanitária é as pastorais e ONGs.

Haitianos são os principais imigrantes em Curitiba

Subemprego

“Uma boa parte dos haitianos que vêm para cá tem curso universitário, são médicos, advogados, engenheiros. Acabam conseguindo apenas subempregos, na construção civil, por exemplo”, explica Tomé. Segundo a advogada, esses estrangeiros encontram-se em situação vulnerável quando chegam no Brasil: não falam a língua, não têm documentos ou dinheiro, e normalmente chegam apenas com a roupa do corpo. Assim, são suscetíveis a serem enganados por empregadores, já que não têm conhecimento das leis trabalhistas locais, e são convencidos a trabalhar mais horas do que o devido, ou receber menos que um salário mínimo.

Foi o que aconteceu com Joseph R., migrante indiano que chegou ao Brasil em 2007. Joseph veio como estudante religioso, mas descobriu que a igreja não era sua vocação e abandonou o seminário. Por medo de sofrer perseguição religiosa na Índia, país predominantemente hindu, preferiu permanecer aqui mesmo, ilegalmente.

“Não conto aos meus empregadores que estou em situação ilegal. Se eles souberem, vão me explorar, pagar pouco, dar golpe”, conta ele, que atualmente trabalha como auxiliar de cozinha e já sofreu exploração no setor de construção civil. “Fiquei sem receber e perdi 400 reais, que realmente fazem a diferença para mim”, relata.

País de imigrantes

O Brasil foi construído por imigrantes: alemães, italianos, portugueses e japoneses que, entre muitos outros, formaram a base da população atual. Hoje, os imigrantes sofrem com o preconceito e a falta de informação.

Laurette Bernardin, 33 anos, é um exemplo de como apenas com muita dedicação é possível superar os desafios da imigração. A haitiana veio em 2010 para o Brasil, para estudar ecologia na UFPR. Porém, sem apoio de instituições, precisou abandonar os estudos por não conseguir superar as barreiras impostas pela língua e pela cultura.

Laurette diz ter sido vítima de preconceito em Curitiba. “Os brasileiros pensam que viemos para roubar o emprego deles. Por isso, não nos dão valor, somos mal pagos, até no posto de saúde não nos tratam bem”, conta. O momento da virada aconteceu com o auxílio da Pastoral do Migrante- instituição ligada à Igreja Católica que cuida desse grupo. Com a ajuda da Pastoral, fez vestibular e atualmente cursa o segundo ano de fisioterapia na Faculdade Espírita. Além disso, ainda é líder de um grupo de haitianos que quinzenalmente se organiza para celebrar sua cultura local.

Imigrantes x Refugiados

Imigrantes são os estrangeiros que vêm morar no Brasil, seja em busca de oportunidades, em razão de emprego ou simplesmente para viver em outro ambiente. Este conceito abrange desde os italianos, poloneses, ucranianos, japoneses, entre outros, que vieram no século passado para construir o país, até os empresários de multinacionais que vêm para comandar novas fábricas. Já na categoria refugiados se encontram os estrangeiros que vêm para o Brasil fugindo de situações adversas em seu país de origem. Neste grupo, encontram-se os haitianos que sofreram perdas no terremoto em 2010, os sírios, que enfrentam guerra e conflito armado, e africanos de vários países, que sofrem perseguição religiosa.

Salvas as divisões entre categorias e diferenças no processo legislativo, todos podem ser considerados migrantes, ou seja, aquele que muda de país ou região. Dessa forma, no dia 16/10, foi lançada pela OAB-PR a campanha Somos Todos Migrantes. Essa campanha tem o objetivo de sensibilizar as pessoas para a política migratória e as necessidades dos migrantes. Durante os próximos seis meses, serão realizados seminários e palestras sobre as políticas relativas a esse grupo.

 

 

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