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Neste trópico não há gelo

Isabel Clark é uma das apostas brasileiras no Snowboard. A atleta busca sua 3ª participação olímpica.
Foto: Getty Images

No dia 23 de outubro de 2012, a atleta Fabiana dos Santos, medalhista de ouro na Copa América de Bobsled (2009 – 2010), solicitou uma reunião com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para apresentar o pedido de patrocínio para atletas de modalidades esportivas de inverno. Mas o encontro terminou sem o repasse de verbas à Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) e para a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG).

Além de problemas com o repasse de recursos do COB, o desconhecimento é outro fator enfrentado todos os dias pelos atletas que se dedicam às modalidades que são tão populares nos países do hemisfério norte. Esta é uma das maiores barreiras que eles precisam superar. Seja para treinamento – alguns atletas recorrem a outros esportes para manter um ritmo –, compra de equipamentos ou custo de vida.

Para Miguel Perez, coordenador técnico da CBDG, o Comitê Olímpico Brasileiro tem muita resistência em repassar verbas para os esportes que não são tão populares no país. A dificuldade é grande até em parcerias privadas. “Somos o país da bola, aí fica difícil buscarmos patrocínios particulares para esportes que não são muito conhecidos”, comentou Perez. A CBDG ajuda os atletas a buscar os patrocínios junto a empresas privadas. Como os projetos levam muito tempo para serem aprovados, o planejamento da confederação e dos esportistas  fica prejudicado. “Eu ainda tenho esperança de ir competir”, contou Fabiana dos Santos.

Uma série de dificuldades

Os problemas enfrentados por quem quer praticar um esporte de gelo vêm de todos os lados, seja na compra de equipamentos ou em encontrar locais apropriados para praticar a atividade.

O custo dos equipamentos é altíssimo. O trenó de bobsled, por exemplo, custa em média 100 mil reais, mais as lâminas de 10 mil reais cada. Tirando os itens de segurança, como o capacete (o mesmo usado no automobilismo – 1,5 mil reais), sapatilha, luvas e macacão, o preço do equipamento gira em torno dos 140 mil reais, o que praticamente inviabiliza o atleta praticar o esporte sem incentivos do governo ou do setor privado. “Eu nunca tive patrocinador particular e agora [devido ao impasse entre o COB e a CBDG] estou sem competir”, comentou Fabiana dos Santos.

Fabiana Santos, do bobsled, enfrenta problemas para conseguir patrocínio. Foto: Tom Dib

Outro fator que atrapalha é a falta de local para treinamento. Pelo fato do Brasil ser um país de clima tropical na maior parte do território, a construção de uma pista adequada à prática de bobsled, skeleton e luge, se torna uma tarefa impraticável. Fora o custo de construção de uma pista, que chega aos 100 milhões de reais.

Essa falta de centros adequados de treinamento força os atletas a praticarem outras modalidades. “Eu pratico atletismo, já fui lançadora, e pratiquei levantamento de peso. Cheguei a fazer parte da seleção brasileira”, explicou Fabiana.

Incentivo é lei

Segundo a Lei Agnelo-Piva, 2% da arrecadação bruta das loterias federais do país é destinada em favor do COB (que leva 85” do montante) e do Comitê Paraolímpico Brasileiro (que fica com os 15% restantes). Dos 85% que lhe cabe, o COB é obrigado a investir 10% no esporte escolar e 5% no universitário.

O restante é aplicado nos programas das confederações e do próprio COB. Outra fonte de obtenção de recursos é a Lei do Incentivo ao Esporte (LIE), uma grande ferramenta para busca de recursos ara clubes e associações sem fins lucrativos. Mas esse dinheiro não aparece às confederações responsáveis pela organização dos esportes de inverno. A COB prefere não se pronunciar quando o assunto é o repasse de verbas para a CBDG e a CBDN.

O esporte fala mais alto

Mesmo com tantas adversidades, o amor ao esporte fala mais alto. É esse sentimento que motiva os guerreiros do gelo a continuarem. “Eu amo o que faço. Sou 100% atleta, porque se fosse depender de incentivo eu teria parado a muito tempo”, concluiu Fabiana, que espera uma resolução do COB para poder ir à Rússia, disputar os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi 2014.

Apostas brasileiras no gelo e na neve

Apesar de todas as dificuldades, o Brasil tem uma boa equipe de atletas que busca uma vaga nos Jogos de Inverno na Rússia. Mesmo sem tradição nos esportes de inverno, nove brasileiros são a aposta de classificação para Sochi 2014, quase o dobro da delegação de cinco que competiram em Vancouver 2010.

Esqui Alpino
Atletas: Jhonatan Longhi, Maya Harisson e Chiara Marano
Vagas disputadas: duas

O esqui alpino é uma disputa contra o relógio, em que os competidores descem uma pista e realizam passagens obrigatórias entre obstáculos. Como a classificação é determinada por índice técnico, o Brasil deve conseguir no máximo uma vaga na equipe feminina.

Biatlo
Atletas: Jaqueline Mourão e Mirlene Picin
Vagas disputadas: uma

Combina o esqui cross country com o tiro esportivo. A seletiva olímpica leva em conta os dois Campeonatos Mundiais, classificando os primeiros 27 países. Jaqueline Mourão ficou em 28º no Mundial de 2012, e pode subir uma posição e conquistar a vaga.

Patinação artística
Atletas: Luiz Manella e Isadora Williams
Vagas disputadas: duas

As diversas acrobacias em cima dos patins formam uma espécie de coreografia. Haverá um Mundial no Canadá, em março de 2013, onde os 24 primeiros ganharão uma vaga. Depois disso, é torcer para conquistar uma das seis vagas restantes, disputadas em uma repescagem na Alemanha.

Snowboard
Atletas: Isabel Clark e Marcos Batista
Vagas disputadas: duas

Praticado sobre uma prancha que fica presa aos pés dos atletas, que deslizam nas montanhas de neve. Marcos Batista espera conquistar uma vaga no sloopstyle, a nova prova das Olimpíadas. Para isso, precisa ficar entre os 30 primeiros no ranking, que leva em conta as etapas da Copa do Mundo e o Mundial. Já Isabel Clark busca a classificação no snowboard cross e precisa ficar entre as 24 melhores.

Esqui Cross Country
Atletas: Leandro Ribela, Jaqueline Mourão e Mirlene Picin
Vagas disputadas: duas

Nesta modalidade de esqui, os atletas percorrem distâncias de até 50 km, com esquis e impulsionados por bastões. Assim como no esqui alpino, a classificação é feita através do índice técnico. Nas três provas que disputou na temporada do hemisfério sul, Leandro Ribela alcançou o índice necessário. A vaga no feminino será disputada entre Jaqueline Mourão e Mirlene Picin, que priorizam a classificação para o biatlo. Mesmo assim, as duas vão participar das etapas da Copa do Mundo de cross country.

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