qui 21 out 2021
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Pesquisa quebra estereótipo do “roqueiro violento”

Rock e adolescencia
A pesquisa de Felipe Dable reconstrói uma nova perspectiva quebrando as constatações de uma influência direta dos meios midiáticos na personalidade e atitude do adolescente. (Fonte: Dreamstime)

Com formação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e mestrado em Música pela Universidade Federal do Paraná, Felipe Dable iniciou uma tese revolucionária para o campo da Música. Para destruir estereótipos que insistem em relacionar de forma determinista o gênero musical rock com agressividade, Dable mostrou, por meio de dados concretos, como a música na adolescência possui relações muito mais complexas.

No estudo, Dable contesta as afirmações constantes feitas a respeito da influência da música na adolescência e busca desmistificar o estereótipo do fã. Para isso, utiliza da metodologia de Survey Interseccional, com jovens em situação de conflito com a lei. Os resultados obtidos foram relacionados com pesquisas sobre preferências musicais e descobriu-se que estes indivíduos apresentam preferências musicais plurais, igual aos jovens que não se encontram na mesma situação jurídica. As preferências musicais estão diretamente relacionadas ao meio sociocultural da pessoa e não a determinantes do comportamento.

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Dable reconstrói a relação da música com a adolescência, mostrando que o comportamento agressivo possui fatores sociais e culturais. (Fonte: acervo pessoal/ Fer Cesar)

Jornal Comunicação: Como surgiu seu interesse pelo tema?

Felipe Dable: Fui muito influenciado pela professora Beatriz Ilari [PhD em música pela Universidade McGill, no Canadá e professora de educação musical da UFPR] que ministrava uma disciplina chamada Psicologia da Música. Ela trouxe para a sala de aula pesquisas que relacionavam o comportamento violento com a preferência musical dos adolescentes. Li as pesquisas e, como psicólogo, entendi que os métodos de investigação e de diagnóstico do comportamento violento são facilmente maquiáveis. Resolvi comprar a briga.

Comunicação: Por que existe sempre esta ligação do rock com a rebeldia?

Felipe: O que me incomodou foi exatamente o determinismo presente na relação, e o fato de eu gostar de rock. Este preconceito é produzido socialmente. São valores sociais, midiáticos e também de mercado. O gosto musical é socialmente construído a partir daquilo que é socialmente aceito e que, consequentemente, corresponde com as questões e necessidades do mercado.

Comunicação: Qual foi o método foi utilizado para superar o problema da metodologia falha das pesquisas anteriores?

Felipe: O foco da pesquisa de campo foi na antiga Febem de Porto Alegre, a Fase. Apliquei um questionário, com auxílio da primeira Escala de Preferência Musical utilizada por Rentfrow & Gosling e tentei diferenciar ao máximo em categorias o Rock, para entender o quanto exatamente eles entendiam sobre isso. As notas eram dadas de 1 a 5 e também contabilizavam a indicação de uma nova variável: a possibilidade de dar nota zero para um gênero que não conhecesse.

Comunicação: O que a análise dos dados obtidos pelo questionário mostrou?

Felipe: Minha intenção era destituir com dados o que era mostrado nas pesquisas anteriores. Uma coisa interessante é que, fazendo um comparativo com outros estudos sobre a preferência musical de alunos das escolas particulares e municipais de Curitiba, verifiquei que os gostos eram os mesmos: a música popular. Mas o que mais me chamou atenção não foi tanto os gêneros que eles gostavam, mas os que não gostavam, como o rock, exatamente o alvo da relação do adolescente com a rebeldia, a violência. Também me surpreendeu os gêneros que não conheciam, por exemplo a MPB, Bossa Nova e jazz, que não são apresentados culturalmente.

Comunicação: Por que gêneros brasileiros, como MPB e a Bossa Nova não eram conhecidos pelos jovens do estudo?

Felipe: Isso me surpreendeu muito. A professora da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), Laize Guazina, em pesquisa nos morros do Rio de Janeiro para entender a relação entre o crime e a música, me contou uma frase que lhe disseram que marcou muito: “A vida no asfalto é diferente daqui. Isso me levou a pensar na própria Bossa Nova. A cena “Dia de sol/ Festa no sol/ E o barquinho a deslizar/ Nas encostas do mar” [trecho da música O Barquinho”], por exemplo, não diz nada a eles. Essa cena não acontece no morro. É uma cena burguesa. Eles não conhecem, porque músicas como esta não tem nada a dizer para eles. A desigualdade social se apresenta também na música. As preferências musicais estão relacionadas ao meio sociocultural do jovem.

 Escala de Preferência Musical

A Escala de Preferência Musical utilizada na pesquisa contabilizou 25 gêneros musicais: Heavy metal, Rap/hip-hop, Sertaneja, Sertanejo Universitário, Pagode, MPB, Punk/Hard Core, Funk Carioca, Forró, Samba, Música Clássica, Música Religiosa, Reggae, Axé, Eletrônica, Rock, Rock Brasil, Rap/Hip-Hop Brasil, Jazz, Blues, Bossa Nova, Rock n’ Roll, Pop Rock, Pop Music, Trilhas de filmes e novelas.

Junto a cada gênero musical, foram postados de três a cinco exemplos de interpretes do respectivo estilo. Assim, a escala tipo Likert, (1 = Detesto; 2 = Não Gosto; 3 = Mais ou Menos; 4 = Gosto; 5 = Gosto Muito) foi adicionada a uma sexta, identificada com o sinal “?” = Não Conheço, para medir o grau de conhecimento musical dos participantes.

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