sex 22 out 2021
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Série Ex-Prefeitos: Metrô não é a solução

Urbanista e arquiteto formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Jaime Lerner foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba (IPPUC) e vencedor do prêmio das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Três vezes prefeito da cidade (1971-75; 1979-83; 1989-92), Lerner liderou uma revolução urbana na capital paranaense, experiência que virou referência internacional. Atualmente, 83 cidades do mundo estão usando o sistema de transporte de superfí­cie de Curitiba. Entre elas Seul, Cidade do México e Los Angeles.

Ele implantou a Rede Integrada de Transporte (RIT) em Curitiba, o que agilizou a locomoção urbana na cidade. Hoje, o ex-prefeito faz projetos para cidades no mundo todo, especialmente na área de transportes. Em entrevista ao Comunicação, Jaime Lerner propõe a redescoberta da superfí­cie, em vez de respiros nos metrôs, para solucionar os problemas modernos e aliviar os congestionamentos.

Jornal Comunicação: O transporte público de Curitiba, embora referência para o mundo todo, atravessa hoje um momento bem diferente. Quais alternativas para voltarmos a ter uma rede de transporte eficiente?

Jaime Lerner: Falta qualidade na operação e atenção aos detalhes que o tornavam tão eficiente, como a prioridade nos semáforos, para ganhar a freqüência necessária, e a implantação de linhas diretas através da canaleta. Com outras melhorias e com a Linha Verde, o sistema de Curitiba tem capacidade para dar continuidade ao sistema por muitos e muitos anos.

Comunicação: A Linha Verde, considerada um dos grandes projetos urbanos desde a implantação do sistema trinário, será eficiente? Até que ponto ela irá resolver os problemas de tráfego e mobilidade urbana nas áreas em que ela atinge?

Lerner: Isso dependerá de como ela for operada. O que faz um sistema de transportes operar bem não são apenas canaletas exclusivas, como é o caso da Linha Verde, mas é operação de embarque e desembarque eficiente e rápida. Além da boa freqüência do sistema. Se reduzir a freqüência dos ônibus, vai haver gente sobrando nas estações tubo. Então, o sistema de Curitiba é referência para o mundo inteiro e ainda vai ser. Só vai deixar de ser se for mal operada como está sendo hoje.

Comunicação: O senhor é considerado um dos grandes urbanistas do paí­s, tendo trabalhado na elaboração de projetos urbanos em diversas cidades do Brasil e até em outros paí­ses. Como o senhor vê a posição de Curitiba em relação a essas outras cidades? Ela pode servir fielmente como um modelo a ser copiado?

Lerner: Eu não gosto da palavra cópia. Curitiba foi e será sempre uma referência importante porque ela tem o maior número de inovações e avanços significativos em um curto perí­odo de tempo. Se comparada a outras cidades, Curitiba mostra que muitas coisas são possí­veis, que tem o compromisso com a simplicidade e o fazer, o que tem garantido a vanguarda da cidade.

Comunicação: Qual o maior legado que você deixou para Curitiba?

Lerner: O meu primeiro mandato foi de grandes transformações fí­sicas. Foi o começo do Sistema Integrado de Transportes, da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) e dos grandes parques. Houve uma transformação econômica e cultural. Instigamos a reciclagem e construí­mos prédios importantes de referência, como o teatro Paiol e o Centro de Criatividade. Foi uma época de grandes mudanças. No segundo mandato, destaco a evolução do transporte e a consolidação da CIC como grande gerador de empregos. E houve um enfoque muito forte na área social e habitacional. Já no meu terceiro mandato, inovamos com a construção do Bairro Novo, Ópera de Arame, entre muitos outros. Fomos eleitos como Capital Ecológica, o que garantiu a Curitiba a vanguarda na área ambiental no paí­s. Assim, meu maior legado foi sempre abrir um caminho novo, inovar. Inaugurar um desafio para que cada prefeito depois de mim fosse inovador.

Comunicação: Durante o seu primeiro governo, a rua XV de Novembro foi transformada em área para pedestres em apenas 72 horas. O senhor chegou a dizer na época que “as mudanças têm de ser rápidas. Inovar é começar”. Hoje em dia, quais as mudanças mais urgentes que Curitiba precisa?

Lerner: As mudanças mais necessárias são a volta da universidade ao centro da cidade, trazer o jovem ao centro. Além de consolidar os transportes da superfí­cie, como ônibus, trens e carros, e consolidar Curitiba como vanguarda cultural. E também a criação de novas alternativas para os jovens, como o Rebouças, um Soho curitibano. Enfim, inovar para melhor sempre. Atitude que todos os prefeitos têm assumido com a cidade.

Comunicação: Qual a sua posição sobre a implantação do metrô em Curitiba?

Lerner: Eu não acho o metrô necessário. Incutiu-se no imaginário da população que será uma rede completa e rápida. Mas isso nunca vai acontecer. Se o metrô for implantado, vai ser uma única linha. São Paulo, por exemplo, tem quatro linhas de metrô, mas 84% dos deslocamentos são em superfí­cie. Rede completa de metrô só em Paris, Londres, Moscou e Nova Iorque. E essas cidades fizeram isso há 120 anos, antes do advento do ônibus. Obviamente, hoje é impossí­vel pensar em uma rede completa, pois exigiria subsí­dios imensos, que custam até 70 vezes mais por quilômetro que o sistema de superfí­cie usado atualmente, além de mais subsí­dios para operar. Então, esse recurso vai faltar para áreas prioritárias como educação e saúde. Além disso, todo metrô é demorado. Tem que descer, aguardar, a freqüência de passagem dos metrôs não é rápida, depois é necessário subir para a superfí­cie para trocar de linha, percorrer longos corredores, enfim. Acho que não é necessário metrô enquanto o sistema de transportes for bem operado. Em meios de transporte da superfí­cie, nós nos locomovemos um pouco mais lentos que o normal, é verdade, mas a integração de linha é imediata, questão de segundos. Um sistema bem operado de superfí­cie é necessário sempre, com ou sem metrô. Essa linha não vai mudar nada.

Comunicação: Você se candidataria novamente à Prefeitura de Curitiba?

Lerner: Quando eu fizer 85 anos (Lerner está com 71) eu vou ser candidato à prefeitura. Eu quero que a população torça para eu viver bastante.

"Um sistema de superfí­cie bem operado é necessário sempre, com ou sem metrô. Essa linha de metrô não vai mudar nada."
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