dom 24 out 2021
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Teresa de várias lutas – Parte I

Se você digitar o nome de Teresa Urban em qualquer site de busca na internet, verá que ela é, hoje, uma das maiores defensoras das florestas nativas do sul do Brasil, além de grande lutadora pela preservação dos mananciais e da fauna paranaenses. Recebeu vários prêmios e elogios pela atuação em defesa do meio-ambiente, e dirigiu programas do Ministério do Meio Ambiente para a preservação de florestas de araucária no estado. Pode-se dizer, sem nenhuma dose de exagero, que, ao lado da ex-ministra Marina Silva, é uma das poucas brasileiras que ainda acreditam e lutam pela preservação das riquezas naturais do paí­s.
O lado que pouca gente conhece dessa descendente de poloneses, de olhos verdes e grande discrição e fala mansa, é outra luta que empreendeu, há quarenta anos, pela preservação de outro bem, mais abstrato e tão frágil quanto a natureza: a democracia. É seu passado de presa polí­tica que caiu nas garras da “turma” do delegado Fleury, no fim dos anos 60, lutando contra a ditadura militar que se instalara no Brasil em 1964.
Marxista para o desespero da mãe, ferrenha católica praticante – embora nunca tenha cerrado fileiras no “Partidão”, o Partido Comunista Brasileiro, militou em movimentos contra a ditadura militar mesmo quando grávida, viajou para o interior do Paraná numa tentativa corajosa e vã de introduzir os bóias-frias na cartilha esquerdista, quando caiu nas mãos da repressão, onde sofreu torturas inimagináveis, tanto fí­sicas como psicológicas, com o filho ainda recém-nascido.
Formada em jornalismo pela UFPR em 1967, abandonou a carreira pela militância, mas como muitos colegas, voltou a praticar a profissão, acreditando que essa é “uma ferramenta fantástica para mudar o mundo”, embora os jornalistas tenham se esquecido disso. Foi através do jornalismo que Teresa tentou lutar por mais cidadania e democracia, quando a ditadura ainda vigorava e ela era seguida de perto pelos militares. Há 10 anos, entretanto, trocou o jornalismo pela defesa do patrimônio natural do estado, causa que abraça até hoje.
Pouco adepta do hábito de falar do passado, Teresa abriu uma generosa exceção e conversou com o Comunicação sobre aqueles anos de tortura e prisões polí­ticas, o exí­lio no Chile, a militância estudantil e, claro, sobre 1968.

Comunicação: Você participava de algum movimento antes de entrar para o movimento estudantil?
Teresa: Eu terminei o curso de jornalismo na universidade em 67, mas confesso que aproveitei muito pouco do curso, porque havia coisas mais interessantes acontecendo lá fora. Em 1968 eu já estava no movimento clandestino, não estava mais em Curitiba. Eu era ligada a uma organização chamada Organização Marxista-Leninista Polí­tica Operária, que chamávamos de POLOP; nesse perí­odo eu já estava organizando os trabalhadores.

Comunicação: Como foi seu contato com o movimento estudantil?
Teresa: Eu já era uma pessoa bem inquieta antes, já tinha em mente alguns ideais, já era envolvida com a alfabetização de adultos. Eu queria fazer coisas para o mundo. Eu me lembro que o primeiro dia de aula que tive foi péssimo, com um professor não muito bom, e quando sai da sala de aula, encontrei um cara que disse que também não tinha gostado, aí­, começamos a conversar e mais uma pessoa se juntou a nós. Creio ter sido aí­ que se deu a minha entrada para o movimento.

Comunicação Por que escolheu o Jornalismo?
Teresa: Eu entrei para o jornalismo porque pensava que era uma ferramenta fantástica para mudar o mundo, e ainda é, só que se esqueceram disso. Para levar informação para a sociedade. Parecia que era a área certa para eu interferir e fazer as coisas acontecerem, até mesmo mudarem. Meu pai dizia: “Minha filha, papel não tem espinha e lí­ngua não tem osso, o que é que você vai fazer em um jornal?”.

Comunicação: Sua famí­lia é católica. Isso influenciou na sua trajetória social?
Teresa: Não influenciou na minha entrada para o movimento estudantil. O fato de eu ter tido uma educação católica, com uma mãe católica, uma religião que envolvia a compaixão, a caridade, o olhar para o próximo, me levou a olhar ao redor. Queria fazer coisas para mudar. O que eu herdei dessa educação católica e que me levou a lutar por tudo o que lutei foi a compaixão. Quando entrei para a universidade, não tinha muito ví­nculo com as práticas católicas, o que era causa de muitos conflitos familiares. Ficava cada vez mais longe da igreja.Ela tinha uma posição dúbia: tanto apoiou o golpe quanto depois tolerou grupos de direita e esquerda. Eu tinha contatos com grupos de igreja; a igreja acabou abrigando em seu interior um grupo de esquerda católico, que era a Ação Popular (AP), mas eu tive pouco contato com esse grupo, eu era ligada ao marxismo.

Comunicação: E quanto ao seu envolvimento com a polí­tica? Isso já acontecia antes do movimento estudantil também? Você se considerava uma jovem politizada?
Teresa: Eu lia muito, e o fato de você gostar de ler faz com que saiba e pense em diversas coisas. Não foi como um estalo, que aconteceu de repente, foi um conjunto de percepções que se acumularam e me fizeram mudar o olhar. Na escola onde eu fiz o curso normal, primário, tí­nhamos que rezar todo dia para que o comunismo não entrasse no Brasil. Eu me lembro de que tinha cartaz com um Cristo pendurado na cruz e, em vez de uma coroa de espinhos, havia uma foice e um martelo. Mas a escola era melhor, do ponto de vista educacional, porque ela incentivava a ler. E eu tive bons professores de literatura, acho que isso foi importante.

Comunicação: Qual foi a reação da sua famí­lia ao seu envolvimento com os movimentos sociais?
Teresa: A minha mãe era abertamente contra. É filha de imigrantes poloneses, anticomunistas, católicos tradicionais, e ela enlouquecia. O meu pai tinha medo por mim, mas ele nunca disse “não vá”, tanto que antes eles sabiam de tudo, mas chegou uma hora que eles não tinham a menor idéia do que estava acontecendo. Era diferente a reação do meu pai e da minha mãe, meu pai amortecia o confronto com minha mãe, e eu sei que ele tinha medo, pois ambos sabiam o que estava acontecendo. A minha mãe tinha uma reação clássica de católico ultrajado. Mas meus amigos daquela época eram todos da mesma linha, inclusive, eu tenho dois irmãos que se envolveram (com a militância contra a ditadura) e a minha irmã mais velha sempre nos apoiou integralmente.

Comunicação: Sobre a invasão da Reitoria da UFPR em 14 de maio de 1968, você participou dela? Qual é sua opinião a respeito?
Teresa: Eu participei. Já não estava ligada ao movimento e nem podia estar lá, mas aquilo era irresistí­vel. O ano de 68, especificamente, tinha um clima de que tudo parecia possí­vel, as pessoas discutiam muito. É claro que havia a turma que não queria saber de nada, havia os mais ricos, mais cientistas. Eu acho que havia mais ou menos nove mil estudantes universitários aqui em Curitiba, na tomada da Reitoria. Entre os estudantes que participaram da ocupação e os que ficaram ao entorno, havia uns quatro mil.

Comunicação: Como aconteceu a organização dos universitários?
Teresa: Em 66, houve um perí­odo do movimento contra a ditadura que se chamava MCD (Movimento contra a Ditadura), havia vários grupos que discutiam várias tendências. Havia o Movimento Universidade Crí­tica, MUC, que defendia uma universidade voltada para o interesse da sociedade. Havia o que defendia a universidade para todos, o aumento do número de vagas; havia movimentos voltados para a qualidade de ensino. Essas correntes discutiam, e, embora nem toda a universidade discutisse, a presença do movimento estudantil era forte. A preparação do congresso da UNE, em Ibiúna, onde quase mil estudantes foram presos em outubro, foi muito ampla. Começava em sala de aula, levantando os problemas da sala, depois do curso, e ia se formando um mar de discussões, que se desenrolava na eleição de representantes para o congresso.

Comunicação: Você participou de combates ou de alguma organização que envolvia luta armada?
Teresa: Tive muito amigos que participaram de grupos armados, e que inclusive morreram na luta, mas eu não concordava com isso, pois fazia parte de um grupo que defendia que qualquer revolução tinha de ser feita com a vanguarda dos trabalhadores organizados. Um movimento pequeno, do estilo cubano, formado por grupos isolados, sem vinculo com a classe operária, não era a posição correta. A questão não era se armar, ou não, a linha de ordem era polí­tica, a concepção polí­tica que embasava um grupo ou outro. A questão era como chegar ao poder e mudar o paí­s. O grupo do qual eu fazia parte acreditava que a classe operária deveria chegar ao poder e que só ela mudaria o paí­s. Os trabalhadores organizados em um partido é que mudariam a sociedade, não um grupo que corre o risco de ser isolado, de ser derrotado ou estabelecer um modelo autoritário de poder. Não que as posições que defendessem a organização da classe operária negassem a necessidade de confrontos armados em um momento ou outro da história, mas para nós, naquele momento, a prioridade não era essa.

Comunicação: Por que você nunca ingressou no Partido Comunista?
Teresa: Porque o partido comunista, ainda em 65, já era desacreditado. Entre os jovens, principalmente. Ele já tinha sofrido várias cisões, várias divisões, havia uma divisão mais tradicional, que era a do PC do B, e depois vários grupos regionais de jovens, mas não só de jovens, se afastaram. Houve muitas dissidências que deram origem a vários grupos, como o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), que de alguma maneira eram formados por pessoas que saiam do Partido Comunista. Na minha época, o Partido Comunista dentro da Universidade já não tinha mais força.

Comunicação: Você manteve contato com lí­deres estudantis?
Teresa: Eu conheci o José Dirceu, o Vladimir Palmeira, mas nunca fui da liderança do Movimento Estudantil. Então, os contatos que acabava tendo era por conta da clandestinidade. Mas não tinha contato direto com eles.

Comunicação: Qual era a relação entre a mí­dia e os estudantes?
Teresa: A maior parte das matérias de 68 que eu olhei tinham poucas falas de estudantes. Os jornais da época eram incrivelmente parciais contra os estudantes. Há uma foto que mostra os estudantes presos aqui na Chácara do Alemão, todo mundo com as mãos para cima, e com policiais encostando a arma nas costas de todo mundo. e a foto trazia a legenda: ‘Feições de Ví­tima: fazendo posse de ví­tima para criar pena, os estudantes são presos’. Todas as coberturas eram muito parciais contra os estudantes, de vez em quando se achava um texto mais objetivo. Antes do AI-5, era autocensura ou partidarismo, mas não sei o certo. Nessa época eu não trabalhei com jornalismo, porque fui presa, me exilei no Chile, voltei de lá e fui presa novamente, cumpri pena, e em 74 fui solta. Fiz uma ou outra matéria para o jornal da UPE (União Paranaense de Estudantes), mas foi só o que fiz na área de jornalismo nessa época.

Comunicação: Qual foi sua participação na organização dos trabalhadores no norte do Paraná?
Teresa: Fazia parte da polí­tica do movimento do qual eu participava a organização da classe operária. Como a classe operária urbana aqui no Paraná era muito insignificante, nós resolvemos buscar o contingente de trabalhadores rurais, pois achávamos que teriam maior potencial, e a proposta era trabalhar com os trabalhadores bóias-frias. Na nossa análise, era um segmento que poderia se organizar, mas não era assim, porque bóias-frias circulam, não param muito tempo no mesmo lugar.

Comunicação: Quais foram as dificuldades nesta organização?
Teresa: Não tivemos tempo de organizar o movimento no norte, de 67 a 70. Era muito pouco tempo para organizar um movimento, afinal, em 70 todo mundo já estava preso.

Comunicação: Como a ditadura atuou aqui no Paraná?
Teresa: Como os grupos, principalmente os armados, estavam concentrados no Rio de Janeiro e em São Paulo, a repressão estava mais preparada lá. Aqui a repressão foi menor, o número de pessoas presas foi menor, e eu acho que ninguém morreu por tortura aqui no Estado. Algumas pessoas daqui morreram fora do estado, houve dois meninos o José Edésio e o Antônio Tresreis, eram meninos muitos jovens que foram para a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e morreram lá. Muita gente que saiu aqui do Paraná e foi para São Paulo foi torturado, morto. Aqui houve muita tortura, muita prisão, os primeiros estudantes condenados pelo AI-5 eram daqui, mas o grau da repressão aqui era menor. Era proporcional ao que havia de mobilização pelo paí­s. Os casos mais complicados acabavam indo para o Rio ou São Paulo, porque estava tudo ramificado. O que havia de mais grave era o MR-8, um foco guerrilheiro planejado pelo extremo sudoeste do Paraná. Todos os envolvidos foram levados para o Rio, para serem julgados lá. Houve também a morte de guerrilheiros, que é posterior, mas isso tem que ser melhor investigado, que foi um grupo que tentou voltar para o Brasil, mas foram assassinados em alguma região do oeste do Paraná, e que até hoje há uma dúvida onde é que eles foram enterrados. Mas o que importa é que a tortura será sempre um ato de violência inaceitável em qualquer circunstância, é um comportamento vil, que deve ser combatido sempre. estavam concentradas lá.

Comunicação: Qual foi o motivo da sua prisão?
Teresa: Fui presa por fazer parte de uma organização. Fui presa aqui mesmo, e em 70 qualquer um que fosse preso pensava que iria morrer. Fui torturada, foi uma situação de terrí­vel vulnerabilidade, muita fragilidade.

Comunicação: Qual a reação de sua famí­lia quando soube da prisão e da tortura?
Teresa: A minha famí­lia passou um mês sem saber onde eu estava. A minha mãe nem estava no Brasil quando eu fui presa, meu pai foi até a casa do delegado tirar satisfação com ele. Eles conseguiram a interferência através de um bispo, que acabou sabendo onde eu estava, e eles me localizaram. E a primeira atitude que a famí­lia tinha que ter era essa, saber para onde a pessoa foi levada, pois era o mí­nimo de chance de evitar que a pessoa sumisse.

Comunicação: Como foi a decisão de buscar exí­lio?
Teresa Eu fiquei 30 dias presa, e quando saí­, eu estava muito doente, machucada e o meu marido na época estava muito mal. E nós chegamos à conclusão de que nós irí­amos ser condenados, mas não tí­nhamos mais estrutura para agüentar uma condenação. Foi então que decidimos ir embora.

Comunicação: Foi você quem escolheu o Chile? Por quê?
Teresa: Porque no Chile um governo socialista tinha sido eleito e, teoricamente, isso representava uma certa segurança. Eu fiquei muito doente lá, porém eu tive ligações polí­ticas com o Movimento de Esquerda Revolucionário. Saí­mos um pouco antes porque achávamos que o golpe iria acontecer. Era ficar lá e lutar ou vir para o Brasil, pois afinal já tí­nhamos dois filhos. Mas eu não sabia que chegando aqui eu iria ser presa.

Comunicação: Logo depois da sua volta do Chile você foi presa. Como foi esse perí­odo?
Teresa: Eu fui condenada, e quando cheguei aqui, fui presa. Primeiro mandaram-me para a prisão feminina em Piraquara. Era ‘barra pesada’. Foi então que eu fiz uma greve de fome, e com os contatos de igreja, fui deslocada para um convento. A ida para o convento foi a minha salvação, porque no momento em que entrei em Piraquara, pensei: “dessa aqui eu não saio”, porque ali era uma violência sem tamanho.

Comunicação: O que motivou sua decisão de voltar a escrever?
Teresa: Eu precisava trabalhar, tinha dois filhos para sustentar e um diploma.

Comunicação: Agora você está envolvida com a questão ambiental. Como foi que isso começou?
Teresa: Eu sempre gostei da natureza, mas o que eu queria era uma coisa de interesse coletivo. E quando eu saí­ da cadeia, fiquei pensando em lutar por algo que todo mundo quisesse. Respirar, ter água para beber, deve ser do interesse de todo mundo, posso conversar com as pessoas e ninguém vai ter medo de mim e ninguém vai achar que eu sou comunista . Por outro lado, aos poucos vai se consolidando que a questão ambiental, incluí­da na pauta da sociedade, provoca mudanças profundas, obriga ou vai ter que obrigar mudanças na própria organização da sociedade, na própria forma como hoje o capital se organiza. A questão ambiental aponta para mudanças coletivas, e eu tenho muita curiosidade em saber onde é que isso vai dar.

Leia a 2ª. parte da entrevista com Teresa Urban

Leia também a entrevista com Antônio Urban, irmão de Teresa

Teresa Urban: ela acredita que a escola não estuda 1968 como deveria
Luciane Cordeiro

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