sáb 23 out 2021
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“Vivemos uma ditadura das palavras”, diz integrante da banda Ruído/mm

Alexandre Liblik tem 41 anos, é médico gastroenterologista, casado e tem filhos. No “lado B” da vida, está a banda Ruído/mm (lê-se ruído por milímetro), que já tem quase 12 anos de estrada, dos quais Alexandre participa ativamente há 7 anos. Ele toca piano por influência do pai, desde os 5 anos de idade. Nos tempos de faculdade, tocava junto com João, que fundou a banda em uma época em que estavam “meio brigados”.

Após o Ruído/mm ter lançado o EP “Série Cinza” e o CD “A Praia”, e Alexandre já se considerar fã do grupo, ele foi chamado para participar da banda. Desde então foram dois álbuns gravados, “Introdução à cortina do sótão” e “Rasura”, este último lançado no ano passado. Em entrevista ao Comunicação Online, Liblik falou sobre a vivência da banda, a “ideia” por trás das músicas, o processo de composição e muito mais. Confira:

"O Ruído é uma “terapia de grupo”. É um bando de louco que ao invés de ficar deprimido e tomando remédios, se encontra pra fazer música", afirma Alexandre Liblik (
“O Ruído é uma “terapia de grupo”. É um bando de louco que ao invés de ficar deprimido e tomando remédios, se encontra pra fazer música”, afirma Alexandre Liblik (foto: Gabriel Dietrich)

Jornal Comunicação: Como surgiu essa vontade de trabalhar com música instrumental?

Alexandre Liblik: A ideia era fazer do nosso jeito. Já vi em entrevista perguntarem pra nós “como vocês estão nesse nicho da música instrumental, que não tem muito potencial no Brasil?”. A questão é que não estamos falando de um produto comercial, onde se busca a venda e um publico alvo. Estamos fazendo isso por que a gente gosta. É música de nicho sim, que tem obviamente menos gente interessada em um primeiro momento, mas acho que é justamente por isso que a gente insiste. Vivemos uma ditadura das palavras; tem palavra por tudo quanto é lado, chega um momento em que as palavras são ditas sem significar nada. Sinto um hiato, uma dificuldade muito grande das pessoas se expressarem com palavras e fazerem música realmente interessante. Acredito que o atual momento da indústria fonográfica é absurdamente bom para o artista buscar sua própria linguagem e poder de fato se expressar, pois sabe que não vai conseguir entrar no esquema de estrelato, da vida mansa que todo artista quer levar. Você vai ter que batalhar e mergulhar de cabeça naquilo que está fazendo, buscar algum tipo de excelência, qualidade e capacidade diferentes de se expressar.

JC: O som de vocês realmente é uma coisa que quem não conhece sente um impacto. Quem está acostumado com outras coisas, uma música pra dançar, por exemplo, pode estranhar um pouco…

Liblik: Acho que toda experiência tem valor. Dançar não é pior nem melhor do que meditar, e assim por diante. Mas nossa ideia é configurar uma experiência de conexão. Tenho um amigo que é físico, o Gabriel, que gosta de falar que o Ruído faz “música quântica”. Mesmo quando você não está acostumado com linguagens diferentes, mas tem vontade de interagir com aquilo e se permite, é possível a conexão. E a gente conta com isso, com a vontade das pessoas de terem uma experiência musical diferente, mais visual, por assim dizer.

JC: Você acha que o pós rock e a música de vocês tem ganhado mais espaço dentro do Brasil?

Liblik: Algumas bandas estão produzindo coisas bacanas, a interação está acontecendo. Mas esse é um processo lento, de assimilação cultural. Sempre vai ter um louco que se apaixona por aquilo que é diferente, e um bando de louco que demora pra gostar das coisas diferentes. E eu acho que o Ruído tem um pouco disso. Eu me divirto quando eu vejo que a mãe do moleque gostou do som, quando chega um pai no show “pô, eu vim acompanhar meu filho, que sonzeira!”. Quer dizer, nós não estamos só irritando os outros, também estamos conectando com os outros.

 "É uma musica que permite você fechar os olhos, construir teus pensamentos e acompanhar aquilo dentro de um feeling da música", diz Liblik sobre o som do Ruído/mm (foto: Thoms/Jaime Silveira)
“É uma musica que permite você fechar os olhos, construir teus pensamentos e acompanhar aquilo dentro de um feeling da música”, diz Liblik sobre o som do Ruído/mm (foto: Thoms/Jaime Silveira)

JC: Como funciona o processo de criação de vocês?

Liblik: As músicas têm um contexto de contação de história. É aquela brincadeira. Na música “Esquimó”, o Johnny veio e contou que os esquimós têm o hábito de oferecem a mulher deles a quem visita o vilarejo, e isso é uma honra pro esquimó. Baseados nessa história, começamos uma “contação de história” no piano e na guitarra. Existe esse “start” às vezes, e às vezes não. Simplesmente você chega com um tema e começa a tocar lá e os outros vão colando as coisas e improvisando em cima daquilo. Existe muita base intuitiva nisso e muita argumentação. O Ruído é uma república onde todos têm direito a voto de veto. Conviver com os moleques é um aprendizado, cada dia eu aprendo alguma coisa com eles. Dizem que o Ruído é “parabólica de maluco”, mas eu digo que o Ruído é uma “terapia de grupo”. É um bando de louco que ao invés de ficar deprimido e tomando remédios, se encontra pra fazer música. A gente lida com nossas angústias dessa maneira. Todo mundo tem suas angústias, para nós é essa a forma de lidar com isso.

JC: Vocês têm planos ou algo encaminhado para um próximo trabalho de gravações, ou turnê?

Liblik: Nós temos sempre músicas na manga para gravarmos e lançarmos. Ideia é o que não falta, mas tem que ver o contexto em que iremos lançar. Pode ser que saia um EP no ano que vem, mas é uma coisa que não temos obrigatoriedade de fazer. Eu estou muito feliz com a minha vida de médico, o Ramiro é um baita geólogo. Todos nós temos o “lado B” da vida que a gente curte também. As oportunidades têm que valer a pena. Vamos fazendo no nosso ritmo, sempre bem feito, sem fazer nas coxas. E o material, vamos lentamente produzindo e soltando. Quem estiver afim de acompanhar, estamos aí.

Som ruidoso

Para conhecer mais e baixar os CDs da banda você pode acessar o site oficial deles. “Rasura”, o álbum mais recente, está na íntegra no soundcloud da ruído/mm.

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