seg 18 out 2021
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A livraria tradicional de um homem tradicional

“Então pare de falar com as mãos e fale mais alto”, diz Aramis Chain quando aviso que vou gravar a entrevista. Dono de uma das livrarias mais tradicionais de Curitiba, a Livraria do Chain, ele continua tão tradicional quanto sua loja.

Conhecida pela variedade de livros e por ser um dos poucos lugares que o escritor Dalton Trevisan frequenta, a livraria fica perto da Reitoria da UFPR, no centro da cidade. Chain começou vendendo enciclopédias. Segundo o livreiro, elas eram “muito desvalorizadas dentro da faculdade, mas um luxo para as famílias”. Com o estímulo dos professores na Universidade, passou a considerar vender outros livros até que, em 1967, abriu a livraria. “Nunca pretendi ser livreiro e o processo acabou acontecendo naturalmente, muito por conta dos professores, chefes de departamento e colegas de curso”, conta.

Aramis Chaim posa com seu livro preferido, O Homem Moderno, de Enrique Rojas.
Foto: Ana Clara Tonocchi

Quando pergunto sobre a infância, ele é incisivo. Segundo Chain, as famílias estão perdendo o controle dos filhos. “Antes os pais eram responsáveis pelos seus filhos. Hoje, é o governo. Só que este também não está cuidando bem deles”, comenta. Voltando a falar sobre leitura, Chain via os livros como tesouros que guardavam segredos que só podiam ser desvendados por quem os tivesse e soubesse ler. Com a popularização dos gibis, quadrinhos e álbuns de figurinha, a leitura ficava cada vez mais próxima.

Para ele, o charme da leitura está se perdendo. “Até o final dos anos 1970 e 1980, o foco de conversas era também o prazer da leitura. Se falava muito em geografia, história e saúde dentro das rodas em festas”, explica. “Hoje em dia, se um estudante tem cinco reais, ele não vai comprar um livro, vai comprar um cigarro e uma cerveja”, conclui.

Rígido e amante patriota, ele ressalta a importância da valorização da literatura nacional. Monteiro Lobado e Campos de Queiroz, por exemplo, foram lidos antes de Júlio Verne e Mark Twain. Hoje, Chain acredita que a literatura brasileira não está sendo valorizada como deveria. “Todo o italiano tem um exemplar de Dante em casa. Os espanhóis se orgulham de Dom Quixote. Não conheço nenhum brasileiro que tenha um exemplar de Camões, e ele é um dos responsáveis pela criação da língua portuguesa. O brasileiro é preguiçoso”, completa

A preguiça do brasileiro não impediu que a livraria crescesse e hoje se tornasse também uma editora e distribuidora de livros. A primeira publicação feita pela Editora do Chain foi o Atlas Histórico do Paraná, que é distribuído nas escolas públicas. Ex-aluno do Colégio Estadual do Paraná, ele acredita que esta é a forma de retribuir a educação que o estado lhe deu.

Para terminar a conversa, ele enfatiza que Monteiro Lobato costumava dizer que um país se cria com homens e livros. Aramis Chain se orgulha de estar fazendo sua parte.

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