qua 20 out 2021
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Boatos que viram notícia: a verdade por trás da simplificação da Língua Portuguesa

Notícias e publicações em blogs e redes sociais alegando que o Senado aprovaria mudanças radicais na ortografia da Língua Portuguesa tomaram a internet ao longo do mês de agosto. Uma enorme “barriga”, nome dado no jargão jornalístico à publicação de uma informação falsa. Em vários casos recentes, a informação verídica e apurada, que deveria ser a base fundamental para um bom Jornalismo, foi negligenciada.

Com as mídias sociais, o Jornalismo pôde se beneficiar de sua velocidade e perspectiva de gerar notícias em tempo real. Por outro lado, a busca pelo “furo”, notícia em primeira mão, tornou-se ainda mais acirrada, reduzindo a distância entre o “furo” e a “barriga”. Neste mundo digital onde qualquer um pode se dar ao direito de achar que é dono da verdade, a informação falsa se multiplica em questão de segundos. Cabe ao jornalista apurar e validar o que está certo e o que não está.

As mudanças propostas pelo Simplificando a Ortografia alterariam completamente o modo de ensino da Língua Portuguesa (Foto: Divulgação).

O que realmente aconteceu

O presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, Cyro Miranda (PSDB-GO), explicou que o rumor que se espalhou para abolir o “ss”, “ç”, “ch”, entre outras modificações, não é verdadeiro. E só uns minutinhos de verificação já traduzem o porquê. Desde 2009, o Brasil convive com duas normas ortográficas. Em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado pela delegação brasileira juntamente a de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, que constituem a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP).

Com a morosidade do Congresso Nacional, apenas cinco anos depois foram efetivamente regulamentadas as novas normas, definindo a obrigatoriedade de seu uso a partir de 2013. A pedido de senadores, em especial Miranda, a presidente Dilma adiou o prazo para 2016.

A Comissão aprovou então a criação de um Grupo de Trabalho para trabalhar neste meio tempo a fim de aperfeiçoar a implantação do Acordo. De fato, o grupo teve sugestões para mudanças radicais, mas estas não foram formalizadas como propostas e, por isso, ainda permanecem longe de serem efetivadas.

Simplificando a Ortografia

Tais radicalizações são oriundas de um projeto impraticável, denominado Simplificando a Ortografia. Idealizado pelo professor de Língua Portuguesa Ernani Pimentel, o projeto visa facilitar o ensino e a aprendizagem da escrita e o site já conta com um abaixo-assinado com mais de 35 mil participantes que concordam com a visão simplista do português.

Os idealizadores acreditam que seria possível reduzir de 400 para 150 o número de horas/aula de ortografia do fundamental ao médio, afirmando que sua aplicação seria uma forma de eliminar por completo o analfabetismo com normas mais simples. Ingenuidade. Como se novas regras ortográficas tivessem o poder de resolver as mazelas sociais brasileiras, que tem causas muito mais intrínsecas. Além do mais, justificar a proposta como uma alternativa a dificuldade de aprendizado da ortografia atual é como nivelar as instituições de ensino por baixo. Se o ensino hoje é precário e não atinge os objetivos claros de ensinar, então deve-se incentivar a melhora do aprendizado e facilitar o acesso à informação, prezando pela qualidade dos meios e não pelo detrimento dos fins.

Outro ponto crucial no que diz respeito a inviabilidade da implantação imediata do novo Acordo é a compreensão de que o Brasil nada pode fazer unilateralmente. O Acordo faz parte de todos os membros da CPLP e será criado em consenso. As possíveis mudanças devem ser apresentadas em Brasília, nos dias 10, 11 e 12 de setembro deste ano, para o Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, e só então teremos a possibilidade de adequação de novas regras.

Para nossa sorte, por enquanto as alterações propostas não tem chances de implantação. Pelo menos não hoje. Ainda enfrentarão um longo e árduo percurso burocrático. Mas o fantasma do Simplificando ainda está presente. E o maior problema é que as mudanças pretendidas pelo projeto produziriam, em poucas gerações, um estrago que nem mesmo as transformações naturais que o tempo impõe aos idiomas foram capazes de provocar à língua.

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